Brasil

8 de março de 2017 - 11h22

Guadalupe Carniel: Mulheres, a arquibancada é nossa!


   
No Brasil, começamos como torcedoras. A palavra, aliás veio das damas que torciam suas luvas enquanto assistiam às partidas. Claro, que como tudo, perdemos o espaço. Depois, o futebol se popularizou e pelos anos 20, haviam alguns times de futebol formados por mulheres das classes menos favorecidas. São raros os registros desses jogos, em geral são encontrados em ocorrências policiais. Partidas eram interrompidas, as mulheres levadas para a delegacia, rolavam brigas no bairro, desentendimentos com a igreja da cidade…um caos só.

Na era Vargas, mais precisamente durante o Estado Novo, havia uma lei que proibia mulheres de praticarem esportes “incompatíveis” com as condições físicas femininas como o próprio futebol, o baseball, halterofilismo e coisas assim. Alguns anos depois, no regime militar, o futebol feminino foi proibido de vez e só liberado em 1981 e enquanto isso as partidas ocorriam em circos. Ah, a título de curiosidade no país “criador” do futebol, a Inglaterra, a prática feminina só foi permitida a partir de 1971.

Léa Campos foi a primeira árbitra da história. Como não podia jogar bola decidiu apitar fazendo curso pela FIFA. Ela precisou de autorização do ditador Garrastazu Médici que concedeu a João Havelange para autorizar que ela pudesse apitar jogos internacionais. Foi presa ao menos 15 vezes pelo Dops.

E se reclamamos do Brasil, no resto do mundo a situação consegue ser bem pior, como na Nigéria que em todo jogo vão em geral de 200 a 300 homens ficar no alambrado por partida, mas não para torcer, longe disso: para apedrejar e xingar as jogadoras. Nos países do Oriente Médio então… tem um filme chamado “Offside” que conta a história de jovens que queriam assistir partidas de futebol no Irã, nas eliminatórias da Copa, e se vestiam de homem, uma prática que é mais comum do que se pensa por lá.

Claro, também tem o outro lado da moeda, como EUA, Alemanha e Japão com tradição no futebol feminino e amplo incentivo. Na China a educação também passa pelo esporte e como tal fazia parte de projeto do Estado, tanto que nos anos 80,mais precisamente em 1987, havia campeonato com 36 equipes. Tanto que a primeira Copa do Mundo ocorreu em 1990 no país asiático. Mas a comissão era formada por homens. Homens que aliás não sabiam responder porque não havia mulheres na comissão e com um Pelé convidado rindo disso.

Até alguns anos no estatuto da FIFA eram repudiadas formas de discriminação racial, religiosa e política, mas o mesmo não acontecia com o sexo. Porém o que assusta é que países que proíbem que mulheres joguem, ou mesmo frequentem os estádios, continuam filiados à entidade “ironicamente”.

E mesmo que tenham tentado durante anos acabarem com as mulheres nas bancadas, timidamente sempre estivemos lá. As torcidas surgiram, cresceram e claro, esmagadoramente eram formadas por homens. Mas resistimos e seguiremos resistindo. Num dia desses deparei com uma crônica esportiva de 1969 que me pegou direto no coração, do Roberto Drummond por um trecho que falava justamente da torcida "A presença das mulheres no estádio é apenas um charme? Não, nada disso. Elas vão lá para viver, talvez de forma mais intensa do que nós, a paixão pelo futebol. E no Atlético x Uberlândia, que assisti recentemente, pude sentir e, mais do que isso, pude ver que eram as mulheres, nas cadeiras cativas, que mais gritavam contra as marcações erradas do impedimento do juiz Jarbas Pedra. Algumas, mesmo a distância, ameaçavam-no com suas bandeiras branco-e-pretas na mão".

Somos torcedores, como qualquer outro. Acordamos cedo (ou nem dormimos), pegamos caravana, enfrentamos perrengue pra conseguir ingresso, cantamos, vibramos, pulamos e acompanhamos do mesmo modo que um homem apaixonado acompanharia. E já passou da hora de achar que mulher que vai de shortinho é vagabunda. Ela pode ir de calça de torcida larga como pode ir de shorts. Assim como os homens podem ir vestidos como quiserem. A arquibancada tem que ser democrática.

Minha mãe acompanhou meu avô nos jogos do Palmeiras e do Santo André por bons anos, mas acabou largando. Talvez daí veio a minha paixão. Afinal, depois quem passou a acompanhar meu avô fui eu. Nos anos 90, quando comecei a ir sozinha vi que a vida não era fácil: sempre estava lá pra arrumar namorado, segundo a maioria. Já cheguei a ouvir isso até de ex-namorado, fora outras escrotices. Levei anos pra conseguir conquistar meu espaço e sei o quanto é difícil. Quando vejo garotas falando que precisam de autorização de torcidas para o que podem ou não fazer me soa absurdo já que eu não enfrento essa dificuldade. Aliás, sou tratada como mais uma pessoa. Simples, como deveria ser em todo lugar.

Não, nós não somos maioria e nem pretendemos ser. Só queremos conquistar nosso espaço. Afinal, não importa se é homem ou mulher, o que vale é o aguante e o sentimento que deixamos em campo por nossas cores, afinal somos uma torcida só que briga pela sobrevivência do futebol. Portanto, se você ver uma menina na arquibancada cantando, bandeirando, tocando instrumento, pulando ou o que for, apoie. Cante junto e incentive. A arquibancada é nossa.


 *Guadalupe Carniel é jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Súbita

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