Brasil

7 de março de 2017 - 8h37

Lu Castro: Futebol feminino - unir para fortalecer


   
Vamos começar pela parte que me diz respeito e tenho mais propriedade para falar: a comunicação.

Não faz tanto tempo quanto muita gente da modalidade, mas percebi, coisa de dez anos atrás, o quanto carecíamos de espaços na mídia. Percebi o quanto o futebol das mulheres era negligenciado pelos maiores veículos de comunicação e o quanto era necessário quebrar este ciclo perverso de invisibilidade.

Elas estavam lá. Elas sempre existiram, então por que raios não mereciam que suas histórias fossem contadas? Isto posto, me imbui de forças para, da dentro da minha habilidade mais notória, fazê-las visíveis. Então passei a escrever sobre o futebol feminino e todas as suas nuances.

A complacência se transformou em militância, e, desde então, a vida me ofereceu oportunidades únicas de participar de vários processos onde se pensou o futebol feminino. Também me colocou como par de muitas pessoas de dentro e de fora do gramado, de modo que, tudo o que vejo, me dá sinais claros da necessidade de abandono ~pra ontem!~ da mesquinharia, inveja, egoísmo e falta de comprometimento EFETIVO com a modalidade.

Antes de discorrer sobre alguns comprometimentos básicos, vem o meu desabafo. Mesmo tendo a escrita como habilidade principal, digamos assim, tenho me envolvido com a organização de eventos e encontros para tratar do assunto. De mediações de bate papos a curadoria de exposição, tenho trabalhado incessantemente para que a modalidade ganhe destaque.

De março de 2015 a fevereiro de 2016, eu e a Juliana Cabral, ex capitã da seleção brasileira, organizamos encontros mensais no Museu do Futebol com a participação de todos os setores envolvidos com o futebol. Atletas, técnicos de categorias de base, médicos especialistas ~com a grande ajuda do Prof. Dr. Paulo Roberto, fisiologista PhD do Laboratório de Estudos do Movimento do Centro de Medicina Esportiva do IOT/HC~ , CBF, Ministério do Esporte, Sindicato dos Atletas de São Paulo e ex-atletas que forneceram material para o acervo do Museu. Um trabalho gigante ~no sentido de trabalho mesmo~ para ter um espaço muito privilegiado de encontro da modalidade.

Posso contar nos dedos de uma mão as vezes em que tivemos algum esforço na divulgação do evento por parte das atletas. A presença delas então, era coisa rara. Quer dizer, tudo o que planejamos foi por elas, para elas e tivemos pouca adesão das protagonistas. É frustrante!

Sem contar outras atividades onde se pode debater a modalidade e que não contou com a presença dos envolvidos.

A exposição “O Futebol Delas – 20 anos de futebol feminino nos Jogos Olímpicos”, que ficou abrigada por 3 meses no Sesc Interlagos, contou com a visitação de poucas das retratadas na história e menos ainda de atletas da nova geração. Mas há que se agradecer o esforço de quem veio de longe para visitar, como o caso da lateral Elissandra, a Nenê, que saiu de Porto Velho para se ver homenageada na exposição. Ou ainda a Daniela Alves, que não só visitou como deu um apoio ímpar na divulgação do evento, levando, inclusive, seus alunos da escola de futebol para conhecer a história de todas as atletas brasileiras que disputaram os Jogos Olímpicos.

Com tudo isso quero dizer que, a modalidade clama por atenção, mas quando lhe é dada, desprezam. Só enaltecem quando é a Rede Globo que aparece em momentos pontuais, como Olímpiadas. A babação de ovo chega a irritar.

Não estou pedindo flores, apenas comparecimento às atividades extra campo, que tentam, de todas as formas, visibilizar as mulheres do futebol e que precisam ser tão fortalecidas quanto todas as outras que lidam diretamente com o campo.

São muitos os apontamentos e não vou repetir sobre o necessidade do amadurecimento da consciência de classe das atletas. Escrevi a respeito aqui no Vermelho.

Ainda dentro da análise do papel de cada um no processo de desenvolvimento da modalidade, é preciso que cada um seja minimamente honesto sobre sua participação. Se minha habilidade é escrever, é isso que procuro aprimorar para continuar ajudando nesse esforço coletivo. Se minha habilidade é treinar, preciso me preparar todo o dia para empreender este papel dentro de campo e isso significa especialização, atualização constante e ESTUDO.

Se minha habilidade é gerir, é necessário me aprimorar no campo a que minha habilidade corresponde. Quer dizer, para cada viés do futebol, há um elemento com habilidades específicas e que precisam ser melhoradas, sempre!

Ainda assim, parte dos envolvidos se veem encorajados a detonar o trabalho do outro, simplesmente porque acreditam serem melhores, num eterno e desnecessário jogo de interesses, orgulho e ego. O que nos traz de volta ao primeiro parágrafo.

Tudo isso continua denotando nossa capacidade em desprezar a união para o fortalecimento, o desencorajamento para a melhoria, a ausência de questionamentos e críticas HONESTAS dirigidas aos que, hierarquicamente decidem os rumos da modalidade. Ao invés disso, seguimos nos atacando, questionando a qualidade deste ou daquele profissional, tentando limar, especialmente, o trabalho das mulheres que tem buscado, com muita honestidade, estudo e carinho pela modalidade, tirar as várias décadas de atraso a que fomos submetidas.

Dentro deste quadro que me aborrece de tempos em tempos ~posso até dizer de semana em semana~, percebo que devemos nos comprometer em melhorar nossa postura em diversos níveis:

- Atletas – Compromisso efetivo com o alto rendimento (cuidado com o corpo/treinamento), com as causas da modalidade, com as próximas gerações, com a valorização da história e de quem a construiu, participação na luta da classe futebolista feminina.

- Gestores – Responsabilidade com a estrutura (alojamento, alimentação, acompanhamento médico, cobertura de cirurgias e fisioterapia), SALÁRIOS.

- Técnicos – Estudo, estudo, estudo, estudo. Entendimento do futebol das mulheres e suas especificidades.

- Preparadores físicos – Entender, definitivamente, que o corpo da mulher não é igual ao corpo do homem e que se pode tirar o máximo de seu aproveitamento com trabalho dirigido.

- Entidades responsáveis pela organização de competições – Comprometimento em produzir um calendário adequado (datas, horários, locais), respeito aos prazos de divulgação de acordo com o Estatuto do Torcedor, esforços para a devida visibilidade das competições (assessoria de imprensa, televisão ou qualquer outro meio possível de transmissão de jogos), ranking justo e responsável, atuação efetiva em casos de abuso, assédio, descumprimento de regulamento, oferecimento de serviços adequados às atletas e comissão técnica quando participando de competições organizadas pelas entidades, esforço para o desenvolvimento do futebol feminino de base.

- Mídia – Abordagem honesta, respeitosa e constante das notícias da modalidade. Apoio às iniciativas de visibilidade, programas e eventos voltados para a discussão e valorização do futebol das mulheres.

Se não compreendermos, absorvermos e colocarmos em prática pelo menos um pouco deste textão ~e olha que sou uma pessoa sintética~, estaremos fadados a continuar lutando pela mesma coisa, mas em trincheiras distintas e sem o resultado que, aposto, todos queremos.

Portanto, tratemos de nos fortalecer no engajamento. Da boca pra fora, todo mundo é bom o suficiente para ocupar qualquer lugar. No íntimo não acontece a avaliação necessária e detonar o trabalho das pessoas não garante espaço pra ninguém. Apenas prova o recalque e a inércia.




Lu Castro é jornalista e colaboradora do Museu do Futebol de São Paulo para assuntos de futebol feminino e do Ludopédio.

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais

DELAYED option not supported for table 'tb_noticias_contadores'