Brasil

6 de março de 2017 - 16h15

Ninguém nasce machista, torna-se. Ninguém nasce empoderada, torna-se


"Acredite em você mesma" "Acredite em você mesma"
Este episódio, assim como outro em que os pais não aceitaram a derrota de seus filhos para um time feminino em um campeonato masculino, evidenciam que o machismo é ensinado às crianças desde cedo. Como qualquer outro preconceito, não é inato, mas culturalmente construído pelos/as pais e mães, professoras/es, programas televisivos, religiões etc.

Na medida em que reforçam ideias como o futebol ser “coisa de menino e não de menina”, que eles perderem para elas seria algo humilhante e que isto justificaria “entrar com os dois pés” e chamar de “vadia”, os/as adultos/as, involuntariamente, ensinam princípios machistas às suas crianças. Ensinam a diferenciação de direitos, uma suposta supremacia masculina, a naturalização da violência física e verbal.

Mas assim como o machismo é ensinado e aprendido, o empoderamento feminino também o é. E as atletas, pela referência que são e pela inspiração que despertam, podem ser muito importantes para isto.

Atletas no combate ao machismo

Uma das mais engajadas é a nadadora Joanna Maranhão. Vítima de abuso sexual na infância por um ex-técnico, ela o denunciou publicamente e, com isto, conseguiu que o prazo de prescrição para este tipo de crime fosse ampliado no Código Penal Brasileiro. Em seu pulso, tatuou um símbolo feminista e a legenda 'You don't own me' (Você não é meu dono).

Quem também ostenta frases de empoderamento são as jogadoras da seleção sueca. O novo uniforme traz nas costas frases como “Acredite em você mesma”, “Estou jogando por minhas garotas do Irã” e “Eu acredito que mulheres podem fazer qualquer coisa que elas decidirem”.

A ginasta Simone Biles foi outra que chutou o machismo para escanteio nas Olimpíadas de 2014, quando foi comparada a homens por ter ganho dois ouros: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”. Situação análoga à da nadadora Katie Ledecky, “elogiada” pelo também nadador Ryan Lochtepor por “nadar como homem”.

Para demarcar sua feminilidade e enfrentar o tabu social em torno da menstruação – como se fosse feio ou vergonhoso menstruar, – a corredora estadunidense Kiran Gandhi, assumidamente feminista, correu a Maratona de Londres de 2015 sem absorvente e ao, final, posou para fotos com a calça manchada de sangue.

Que todas se tornem empoderadas

Atletas como estas e tantas outras mulheres no futebol e para além ele, com seus enfrentamentos e empenho para combater o machismo, devem servir de inspiração para que que todas as moças possam se apropriar de si mesmas e de seu espaço, se compreendo como parte importante, independente e igualitária da sociedade, com equidade de direitos.

Há de chegar o dia em que as mulheres que se destacam não sejam associadas aos homens, em que não precisemos marcar na pele o aviso de que não temos donos, em que a expressão “vadia” e outras análogas caiam em desuso, em que possamos ser melhores do que os homens em algumas coisas (e piores em outras) sem que isso soe como pecado, em que a gente possa ser a gente mesma, com todas as especificidades e subjetividades de ser mulher.

Até lá, a luta para que todas as mulheres se tornem empoderadas, continua. Já dizia Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher. Torna-se mulher”.

Nota: O título do artigo faz referência a uma frase de Simone de Beauvoir, sobre a condição feminina, que ultrapassa o “destino biológico, psíquico, econômico” e é socialmente construída. BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1980.

*Comunista, jornalista com passagem pelo jornal Lance!


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