Cultura

1 de março de 2017 - 10h32

Carnaval sem cordas, com "respeita as mina" e "fora Temer"


Foto: Patrus Filho
 Campanha<i> Respeita as Mina </i>hangou as ruas de Salvador  Campanha Respeita as Mina hangou as ruas de Salvador
Entretanto, como entusiasta das manifestações populares que desbravam veredas, derrubam tabus, criam formas novas e afrontam preconceitos, permito-me registrar, para ressaltar, fatos que empolgaram multidões e que chamaram a atenção nesse carnaval de 2017.

Começo pela Bahia, por onde o próprio Brasil começou. A terra que criou o afoxé Filhos de Ghandi, em 1949, criou também o trio elétrico, com Dodô e Osmar, em 1950, e talvez tenha sido pioneira em levar grandes massas para o carnaval de rua. Viu aparecer em 1974 o primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê, que abriu o caminho para o Olodum e o Malê Debalê, em 1979, o Muzenza, em 1981, o Timbalada em 1991, o Cortejo Afro, em 1998 e outros. Todos estes passaram a encantar a Bahia, o Brasil e até o exterior com plasticidade e sonoridade esfuziantes, servindo também para a afirmação étnica negra.

Essa mesma Bahia misturou o frevo e o maracatu, pernambucanos, com o reggae jamaicano de Bob Marley e outros ritmos afro-brasileiros e criou o axé music, aí na década de 1980.

No desdobramento de tudo isso veio uma profusão de grandes blocos com seus trios elétricos, como Chiclete com Banana, Coruja, Camaleão, Eva, Crocodilo, Harém, Pirraça, Traz a Massa, Harmonia do Samba etc. etc. com seus animadores famosos Bel Marques, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Carla Perez etc., etc.

Mas, uma coisa surgiu nesse meio de caminho - a corda - que veio acentuar a separação de classes no carnaval. Os que "podiam" pulavam dentro da área circunscrita pela corda, os que "não podiam" ficavam de fora, eram os "pipocas". E alguns, os mais pobres, geralmente negros, passavam o carnaval segurando as cordas, para uns brincarem e outros não entrarem.

Os carnavais de outras cidades e estados também tiveram suas evoluções, seguramente com destaque para o Rio e São Paulo. Essa evolução teve o sentido de uma democratização da brincadeira.

No Rio, o que era, principalmente, grandes noitadas nos "sambódromos", com desfiles espetaculares de escolas de samba, acentuou a festa de rua, com o crescimento excepcional dos blocos de bairros. E o carnaval ganhou a cidade maravilhosa.

Em São Paulo o carnaval também era basicamente o do "sambódromo". Mas, na gestão passada, quando o prefeito era o Fernando Haddad, a vice era Nádia Campeão e o secretário de Cultura foi Juca Ferreira, um baiano, esse grupo liderou um processo de formatação do carnaval de São Paulo, onde o sambódromo continuaria com seu papel anterior, mas o carnaval se espalharia pelos bairros e ruas da megalópole. Não levaria, entretanto, a separação estruturada de classes, ou seja, a corda não iria.

A vice-prefeita da época Nádia Campeão explicou que "os numerosos blocos cadastrados foram orientados para buscar as formas de arcar com seus custos e não poderiam restringir, de nenhuma forma, o acesso de pessoas, nem com cordas, nem com demarcação de qualquer espaço", ou seja, o Poder público assegurou a democratização da brincadeira. E os resultados não se fizeram esperar: 169 blocos em 2014, 323 em 2015, 384 em 2016 e agora, provavelmente, mais de 500. É coisa dos últimos quatro anos. E é uma explosão.

Voltemos a Salvador. A capital baiana não contou, como São Paulo, com uma prefeitura que organizasse a democratização da brincadeira. Mas contou com o governador Rui Costa que definiu como prioritária a diretriz de tirar as cordas da rua. E o que se viu foram os "pipocas", atrás dos trios elétricos, encherem de alegria os circuitos mais tradicionais do carnaval de Salvador, o Barra-Ondina, o Campo Grande, o Castro Alves, o Mestre Bimba e o Batatinha. Foi uma grande vitória que precisa ser consolidada, porque há quem se considere no prejuízo.

Nesse carnaval, o povo pode ver, entre muitas outras atrações, a comemoração dos cinqüenta anos do Tropicália, com a presença no Pelourinho de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Capinam, três expoentes baianos do tropicalismo, que levaram o povo ao delírio. Mas o carnaval de Salvador teve mais.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres, com a secretária Julieta Palmeira à frente, lançou, com extrema felicidade, a campanha "Respeita as Mina", em uma ofensiva que levantava a necessidade de se respeitar as mulheres no curso do carnaval. A campanha que, segundo Julieta Palmeiras, não se restringirá ao carnaval, passando a ser permanente de sua secretaria, a SPM, teve enorme receptividade. Talvez tenha sido a marca mais original do carnaval de 2017 em Salvador.

O "Respeita as Mina" repercutiu em todo o estado e levou ao circuito Osmar, do Campo Grande, o mais tradicional de Salvador, o trio sem cordas "Respeita as Mina", comandado por Larissa Luz, Tassa Reis e MC Carol e que contou com a presença da secretária de Políticas para as Mulheres Julieta Palmeiras, da secretaria de Promoção da Igualdade Racial Fábya Reis e da secretaria de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, a Negona, Olívia Santana. Coroando tudo, veio o apoio e incentivo da representante da ONU Nadine Gasman, que se manifestou "impressionada" com a campanha.

O último desses registros vai para uma ocorrência que se deu em diferentes capitais e cidades, entre as quais Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife. Cantores, blocos e massa, em diferentes momentos, vocalizavam a palavra de ordem "Fora Temer", demonstrando extensa rejeição ao atual governo ilegítimo do Brasil. Como consta da coluna Ancelmo de O Globo de 27 de fevereiro de 2017, "o Fora Temer deve ter sido o maior grito de guerra do carnaval de 2017". Viva o carnaval de 2017.






*Haroldo Lima é engenheiro e membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil

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