Cultura

17 de fevereiro de 2017 - 12h11

Darcy Ribeiro, um intelectual radical


Divulgação
A confiança na capacidade popular para enfrentar e superar os graves desafios que a história lhe coloca dá o tom otimista da obra de Darcy Ribeiro A confiança na capacidade popular para enfrentar e superar os graves desafios que a história lhe coloca dá o tom otimista da obra de Darcy Ribeiro
No prefácio ao livro Os brasileiros, de 1978, indagou: ", por que uma nação tão populosa - a maior de todas as latinas e a segunda do Ocidente - e das mais ricas em recursos naturais, permanece subdesenvolvida e só é capaz de promover uma prosperidade de minorias, não generalizável ao grosso da população".

Reconheceu, no mesmo diapasão, a "impotência do reformismo e a fragilidade das instituições políticas chamadas a defender os interesses nacionais e populares, em face do poderio dos interesses patronais e da alienação do patriciado político e militar que sempre governaram o Brasil".

O que me interessa, escreveu, "é contribuir para que se instrumente o brasileiro comum com um discurso mais realista e mais convincente sobre o Brasil, a fim de mostrá-lo e capacitá-lo a atuar de forma mais urgente e mais eficaz na transformação da nossa sociedade".

Esta opção foi reafirmada naquele que foi um de seus últimos livros, O povo brasileiro, publicado em 1995: "Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo" Este "é um livro que quer ser participante, que aspira influir sobre as pessoas, que aspira ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo".

Neste livro, denunciou: não há ainda uma compreensão clara “da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias".

Esta compreensão clara Darcy Ribeiro a procurou em obras como Os índios e a civilização (1970), um relato escrito com o coração na ponta dos dedos, humanamente comovente e crú da extrema violência do massacre e extermínio das populações autoctónes. Ou em trabalhos como Os brasileiros (1972), ou As Américas e a civilização (1970), nos quais as habilidades de historiador e antropólogo se juntaram para produzir uma descrição geral da evolução social não só do Brasil mas também dos demais países latino-americanos.

Darcy Ribeiro foi um intelectual radical. Apesar de amplamente apoiado no marxismo, ele não aceitou o papel da luta de classes como motor da história, embora reconhecesse seu papel dinamizador, escreveu em O Processo civilizatório (1968). Por outro lado, modificou os conceitos marxistas de modo de produção e formação econômico social, enfatizando os aspectos tecnológicos em detrimento das determinantes políticas, sociais e ideológicas. Assim, para ele, a evolução das sociedades resulta de revoluções tecnológicase não da luta de classes ou da sucessão dos modos de produção.

Ele defendeu também, em Os Dilemas da América Latina (1978) um programa de desenvolvimento nacional autônomo e auto-sustentado ligado às necessidades nacionais.

Esbanjou,aliás, simpatias pelos brasileiros, como deixou claro em O povo brasileiro, livro em que, fugindo dos maneirismos antropológicos e acadêmicos tradicionais, tem no centro de sua análise a ação contraditória, muitas vezes cruel, de europeus dominantes que reduziram ao trabalho forçado as populações autóctones ou africanos sequestrados em sua terra. Para ele, é a análise da luta do povo que revela a natureza íntima do processo histórico em nosso país, com seus dois traços marcantes, o classista e o racial. Assim, para ele, se a estrutura de classes "desgarra e separa os brasileiros em componentes opostos": ao mesmo tempo ela unifica e articula, do lado de baixo dessa estrutura, "como brasileiros, as imensas massas predominantemente escuras", escreveu em O povo brasileiro.

A confiança na capacidade popular para enfrentar e superar os graves desafios que a história lhe coloca dá o tom otimista da obra de Darcy Ribeiro, e marca O povo brasileiro, ao lado da denúncia reiterada do descaso dos setores retrógrados das classes dominantes pelo povo e pela nação. Como outros autores, ele pensa que a reordenação social do país poderia ser feita "sem convulsão social, por via de um reformismo democrático". Mas, conhecendo o caráter da classe dominante brasileira, e ao contrário daqueles que temem a revolução, ele pensa também que essa mudança pacífica "é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis".


Do Portal Vermelho

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais

DELAYED option not supported for table 'tb_noticias_contadores'