Geral

10 de fevereiro de 2017 - 9h40

A vida do haitianos em Santa Catarina 

Paloma Gomide
Na falta de perspectiva, muitos estão indo embora: nos primeiros meses de 2016, 3.234 deixaram Brasil Na falta de perspectiva, muitos estão indo embora: nos primeiros meses de 2016, 3.234 deixaram Brasil

Com a Resolução Normativa 102/2013 do Conselho Nacional de Migração, o visto humanitário passou a ser emitido não só no Haiti e no Brasil, mas também na República Dominicana, no Peru, no Equador e na Bolívia, e não existe mais o teto de emissão de 1.200 vistos por ano. Com isso, a fronteira terrestre foi substituída pela fronteira aérea, e os imigrantes têm chegado principalmente pelo aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo.

No entanto aquele caminho epopeico por terra, onde se encontram coiotes e policiais achacadores ao longo das fronteiras, foi o percorrido pela maior parte dos 45 mil haitianos residentes em Santa Catarina — em especial daqueles que foram entrevistados para a série de reportagens “Travessia”, que será veiculada no Maruim nas próximas duas semanas.

Eles chegaram ao país nos primeiros três anos após o terremoto, e precisaram passar pela República Dominicana, Panamá, Equador e Peru até chegar na fronteira com o Brasil, no Acre. De lá, percorreram 4.139 km até o Sul do país. Somente os mais privilegiados conseguiam organizar as papeladas, aguardar na capital Porto Príncipe o tão esperado visto e, depois, vir de avião.

Diferentemente do imaginário que se tem no Brasil, a migração haitiana não foi motivada apenas pelo terremoto de 2010, mas é característica marcante da dinâmica do país, que tem cerca de 10,4 milhões de habitantes e é o mais pobre das Américas. Metade sente fome, é subnutrida e não sabe ler e escrever, estima a Organização das Nações Unidas (ONU). Para fugir da pobreza, migram.

Outra parte, com qualificação acadêmica, também migra, em busca de oportunidades melhores do que as que existem no Haiti, a antiga pérola das Antilhas, a menina dos olhos dos franceses e cobiça dos espanhóis. A colônia mais próspera do século 18 e a primeira a se libertar de Napoleão Bonaparte, depois de uma revolução única, liderada pelos escravos que conquistaram a independência de suas terras, em 1804. Livres em um solo estéril destruído pelas tropas do país da liberdade, igualdade e fraternidade.

História

Pessoas penduradas no portão pediam para entrar na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe. Outras ameaçavam invadir a instituição. O adido policial, Ildo Rosa, ordenava fechar as entradas. Os 90 haitianos que passavam pela porta aguardavam a concessão de asilo político, a chance de sair do país em convulsão, naquele ano de 1989.

Ildo Rosa tinha 38 anos quando foi escolhido para garantir a segurança do embaixador Guy Mendes Pinheiro de Vasconcellos. Sabia que teria muito trabalho pela frente, já que a era dos Duvalier, Papa Doc e Baby Doc, chegava ao fim após 28 anos. O presidente do Haiti, Prosper Avril, conduzia o país de maneira similar que a família de ditadores.

Ele contava com o apoio dos tontonmakout, milícia paramilitar de voluntários criada em 1959 por François Duvalier, o Papa Doc. Estima-se que o grupo espancou, estuprou, torturou e matou entre 30 mil e 60 mil haitianos, revela o autor Mike Levy, no livro Enciclopédia de Direitos Humanos, publicado em 2009, nos Estados Unidos.

Na primeira semana em Porto Príncipe, o grupo de brasileiros da embaixada se apresentou ao serviço da Presidência da República, no Haiti.

– Ah, brasileiros! Com vocês não têm problema — disse o funcionário haitiano.

– Como não tem problema? — pensou Ildo, sem entender o porquê daquilo ser dito.

No mesmo dia compreendeu. O carro com a bandeira do Brasil era seguido por haitianos sorridentes, que aplaudiam e dançavam. “Era o cajado de Moisés”, compara Ildo Rosa.

Os haitianos se identicavam com o país miscigenado e uma seleção de futebol composta basicamente por negros, explicou o ex-adido policial e delegado aposentado da Polícia Federal, em Santa Catarina.

– É no Brasil Pelé que eles transferem admiração e carinho, através do futebol – e conclui – O Brasil encarna alguns aspectos que eles gostariam de ser e nunca foram.

Em agosto de 2004, a paixão pelo time brasileiro ganhou uma proporção maior quando os jogadores foram até o país caribenho, para o “jogo da paz”, um amistoso entre Brasil e Haiti. O evento comemorava a liderança brasileira na manutenção de paz, no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Nesta época, o Haiti vivia mais um período de instabilidade com violência entre gangues rivais e protestos diários. Jean-Bertrand Aristide, presidente desde 2001, renunciou após ser acusado de fraude eleitoral. Em junho daquele ano, tropas da missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah) chegavam no país.

Crianças com as mãos estendidas esperavam ganhar qualquer coisa. Homens e mulheres andavam sem destino pelas ruas em Porto Príncipe. De dentro da viatura, o capitão de corveta, Vilson Sérgio ‘Montanha’ Bottaro, viu as consequências do terremoto de 7 graus na escola Richter, que matou mais de 240 mil pessoas, feriu outras 300 mil e deixou 2,3 milhões de desabrigados, de acordo com o governo haitiano. Em fevereiro de 2010, um mês após o desastre, o oficial cumpriu a missão de enviar suprimentos para a população.

Seis anos depois, em outubro deste ano, mais uma catástrofe natural atingiu a ilha caribenha. Dessa vez foi o furacão Matthew, uma tempestade de categoria 4. Durante dez horas, fortes rajadas de vento e chuva intensa destruíram tudo o que atravessava o caminho. Mais de 900 pessoas morreram. Cerca de 2,1 milhões de pessoas foram afetadas e 1,4 milhão de pessoas precisam de assistência humanitária, de acordo com o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon recomendou estender por mais seis meses o mandato da Minustah. A previsão era que deixassem o Haiti em outubro de 2016, mas irão permanecer no país até 15 de abril deste ano. No total são 2,4 mil tropas e 2,6 mil policiais.

Se o objetivo inicial era a ocupação, após janeiro de 2010 passou a ser a ajuda humanitária. O relatório do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em fevereiro de 2010, afirma que uma das cinco estratégias adotadas é de “coordenar e facilitar as operações de socorro após o terremoto com o objetivo de reduzir os riscos de desastres futuros.” Para o capitão Montanha, “se dependesse de uma mobilização dos países para chegar até o Haiti e dar apoio após o terremoto, o processo de ajuda seria muito mais lento.”

A chegada ao Sul

Oriundos de um país com uma população formada por 95% de negros, de acordo com The World Factbook (banco de dados da Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA), milhares de haitianos têm chegado no estado que tem a maior proporção de brancos (84%) e a menor de negros no Brasil (13,9%), conforme o censo de 2010 do IBGE. Neste cenário, os relatos de episódios de racismo não são raros.

Mas os haitianos são obstinados. Escarafuncham a terra para encontrar um trabalho, estudos e oportunidade. O plano é vender o que tem, contar com a ajuda de parentes e amigos, pagar como pode. Ficam por pouco tempo em uma cidade do Brasil, apenas enquanto têm trabalho; depois partem atrás de um outro emprego, com avidez para descobrir o melhor que o país pode prover.

Na falta de perspectiva, muitos estão indo embora, buscando novos destinos: nos primeiros quatro meses de 2016, 3.234 deixaram o território nacional por conta da crise econômica. Partem principalmente para o Chile e uma minoria para os Estados Unidos.

Para entender melhor essa história, a série Travessia* irá tratar ao longo das próximas duas semanas os seguintes temas sobre a migração haitiana em Santa Catarina: trabalho, educação, políticas públicas e fé. Acompanhe!

 



Fonte:  Maruim Jornalismo - Reportagem: Aline Takashima e Edição: Camila Rodrigues da Silva

A reportagem foi adaptada do Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), orientado pelo professor doutor

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