Brasil

7 de fevereiro de 2017 - 9h27

Vanessa Grazziotin: Simplesmente Marisa


Foto: Paulo Pinto / AGPT
   
Marisa era uma pessoa simples, com uma trajetória de vida tal qual muitas brasileiras de origem humilde. Mãe e dona de casa responsável, mas acima de tudo uma lutadora, militante.

Aos 9 anos era babá e, aos 13, operária numa fábrica em São Bernardo, onde mais tarde lideraria passeatas de mulheres pela liberdade de sindicalistas presos pela ditadura militar.

Foi companheira e conselheira de um dos mais importantes líderes políticos do mundo. Deixou-nos, vítima de um AVC que lhe ceifou prematuramente a vida aos 66 anos de idade. Ela ainda resistiu por dez longos dias, durante os quais foi alvo de calorosas manifestações de solidariedade, especialmente das pessoas simples do povo.

Mas, lamentavelmente, também foi vítima de agressões estúpidas, bestiais, semelhantes àquelas que levaram Getúlio Vargas ao suicídio. Que mundo é esse em que se comemoram a doença e o falecimento de alguém? Que seres humanos são esses?

Ela imaginou que a eleição do primeiro operário presidente da República deixaria para trás o ódio de classe, assim como acreditou que a eleição da primeira mulher presidente indicasse o fim do preconceito e da discriminação contra as mulheres.

Que nada! A teoria e a prática estão mostrando que são as contradições de classes que alimentam a intolerância entre humanos e desencadeiam as crises.

Dona Marisa e Lula foram e são vítimas desse ódio, que se intensificava na mesma proporção do sucesso do governo. Alguns não admitiram que um homem simples, um operário, ocupasse um posto tão importante.

Lula, diferentemente de muitos, não se trata de um homem simples que venceu na vida porque acumulou riqueza. Pelo contrário, venceu porque ousou dizer que também os simples, os trabalhadores, podem comandar.

Governar não só para aqueles de quem o poder historicamente sempre cuidou, as camadas mais abastadas, mas sobretudo para aqueles a quem sempre se virou as costas, os pobres, os excluídos.

A crise pela qual passamos deixa claro o quanto as diferenças de classe ainda marcam as relações sociais, animam a intolerância e o ódio contra as pessoas. Porém, mesmo vivendo numa sociedade injusta, dividida em classes, não se pode permitir esse tipo de intolerância e de ódio. Temos que entender que não há caminho para a humanidade que não passe pelo amor, pela solidariedade.

Mesmo depois de 72 anos de publicada, a Declaração Universal dos Direitos Humanos ainda é um sonho e um objetivo a ser alcançado.


Vanessa Grazziotin é farmacêutica e senadora (PCdoB-AM)

Fonte: Folha de São Paulo

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