Movimentos

31 de janeiro de 2017 - 16h53

Chico César vê com admiração e esperança a luta dos secundaristas


Ubes
   
Instantes depois da apresentação de Camila, o músico subiu ao palco para tocar clássicos como “Mama África” e “À Primeira Vista”. A atividade deu início ao 3º Encontro Nacional de Grêmios da UBES.

O músico também tocou “Mel da Mocidade”, sua composição inspirada nas ocupações secundaristas, e contou com a participação dos estudantes na gravação do videoclipe da música, que aconteceu durante o show. “Este é um momento muito revolucionário na história do movimento secundarista”, afirmou Camila.

Em conversa com a UBES, Chico César, que também participou do movimento secundarista da Paraíba, na década de 1980, comentou sobre a sua experiência nas ocupações e disse que vê com muita esperança e admiração o movimento dos estudantes por seu caráter “combativo e alegre”. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

UBES: O último ano foi marcado por mais de 1.000 ocupações secundaristas em todo o Brasil contra os retrocessos na Educação. E você esteve presente em algumas delas. Como foi para você essa experiência? E por que você quis estar presente nas ocupações?

Chico César: Os estudantes secundaristas perceberam antes do resto da sociedade os perigos para a democracia que nós vivíamos no Brasil. Retrocessos que de fato rompem e estão acontecendo.

Chico César: Quando começaram essas ocupações, eu fui convidado e fui tocar em algumas ocupações de escolas. Eu penso que nós artistas, enquanto exercício de cidadania, alguns de nós sentem mais necessidade de se posicionar do que outros, eu sou um dos que sentem necessidade, me posiciono, sempre que posso vou, participo, apoio o movimento dos sem tetos, dos sem terra, dos secundaristas, pois acho que uma sociedade mais justa, mais igualitária, é uma sociedade livre, que a gente sonha e constroi a medida que apoia e participa de movimentos como esse.

Os estudantes perceberam que as ocupações são uma forma legítima de protesto contra retrocessos na Educação, que medidas como a PEC 55 representam. Como você enxerga essa nova forma de protestar dos estudantes?

Chico César: Eu sempre vi com muita admiração e vejo com uma certa esperança o movimento dos secundaristas pois é um movimento bastante combativo, mas é um movimento bastante alegre.

Trazer essa alegria dos secundaristas para a luta e o dia a dia é algo que dá esperança para toda a sociedade. Não precisamos ser tristes como é triste o sistema que a gente combate.

UBES: Quais diferenças você percebe do movimento secundarista hoje em comparação com o de antes?

Hoje, eu percebo muito fortemente a presença das mulheres, dos negros, dos homossexuais, coisa que ali no começo dos anos 80 não tinha. Os líderes eram todos homens brancos, normalmente com um ar de quem vinha da classe média. Hoje, há cada vez mais gente que vem da periferia. Obviamente, isso tem a ver com as políticas governamentais dos últimos anos que incluíram essas pessoas da periferia para dentro das escolas, das universidades, mas tem a ver também com um auto-empoderamento que se deu de fora para dentro, da sociedade para os governos, e as pessoas foram se sentindo à vontade para se posicionar, os negros, os negros com seus cabelos, as mulheres, as mulheres com suas reivindicações específicas, os homossexuais, as trans, os LGBTs…

E o movimento secundarista, sendo ele uma trincheira, acabou assumindo não apenas as reivindicações da própria luta escolar ou da Educação, mas se tornando uma trincheira ampla da própria sociedade, pois vários grupos que reivindicam fora do movimento secundarista estão nele representados. Não apenas como gente que levanta a mão para votar, mas gente que traz a opinião e a fala desses grupos, e essa é uma característica muito forte do movimento secundarista.

Você está aqui participando 3º Encontro Nacional de Grêmios. O que significa para você essa aproximação com os estudantes, essa nova geração?

 Eu me sinto participando de um momento muito vivo da sociedade brasileira. Muitas vezes, as instituições, governos, eles pensam que eles podem mandar as decisões de cima para baixo e todo mundo vai acatar.

Quando eu vejo um evento como esse, que traz várias discussões interessantes, que apresentam não só críticas ao governo, ao sistema, mas também novas proposições, um novo olhar sobre as coisas, ajuda a desmontar uma ideia de que a política acabou, de que só existe um caminho, o adotado pelo neoliberalismo.

“Num encontro como esse é possível ver que há vários caminhos”

Me sinto muito feliz de estar aqui, acompanhando essas discussões e também pra gravar o clipe de uma música que eu fiz para os estudantes e chama-se “Mel da Mocidade”. Tem uma doçura que o movimento traz que eu acho que combate muito esse amargor que é o retrocesso que nós vivemos no nosso tempo.

E a sua música traz esse contraste da alegria com a luta, tem um verso que é “O Mel dos Estudantes é o fel dos governantes”, né?

A nossa luta tem que dança, tem que ter abraço, tem que ter beijo, porque o sistema é justamente isso: a negação dos afetos. O endurecimento das pessoas para que elas própria se transformem em mercadoria que se traduz na sua disponibilidade para o mercado de trabalho.

Os afetos que envolvem um encontro como esse e o movimento secundarista mostram que a vida é muito mais complexa. E, apesar de todos os problemas que enfrentamos, ela em si mesma ainda é muito alegre. E nessa felicidade é que a gente vai continuar combatendo e o clipe mostra isso. As imagens que o clipe traz das ocupações no Brasil todo, mostram como a sociedade é dinâmica e o movimento secundarista está hoje entre os movimentos mais importantes, ao lado de movimento da luta pela terra, pela discussão das cidades. Quando os estudantes vão para as ruas e dizem Ocupa Tudo eles também fazem parte de todas essas outras discussões. ::


Fonte: Ubes

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