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30 de janeiro de 2017 - 17h33

Urariano Mota: A tortura como método de esmagar a pessoa


Imagem: Fernando Botero
Arte do pintor colombiano Fernando Botero. Prisioneiros de Abu Ghraib eram torturados por soldados dos Estados Unidos. Arte do pintor colombiano Fernando Botero. Prisioneiros de Abu Ghraib eram torturados por soldados dos Estados Unidos.
Quero manter o nosso país a salvo. Eu sempre obedeceria a lei, mas gostaria que a lei fosse expandida. Nós devemos usar algo mais forte do que temos agora. Hoje o waterboarding (afogamento simulado) não é permitido, até onde eu sei. Eu quero que, no mínimo, ele seja permitido”.

Mas alguma vez se justifica a tortura? Acompanhem por favor como se constroem as possibilidades "morais" que justificam o esmagamento de uma pessoa. O recurso da retórica lança hipóteses semelhantes a este encadeamento:

- Você é capaz de matar uma criança?

- Não, claro que não.

- E se a criança fosse uma terrorista?

- Crianças não são terroristas.

- E se ela estivesse domesticada, com lavagem cerebral, que a tornasse uma terrorista?

- Ainda assim, de modo algum eu a veria como uma terrorista.

- E se essa criança trouxesse o corpo cheio de bombas?

- Eu preferiria morrer a matá-la.

- E se essa criança, com o corpo de bombas, entrasse para explodir uma creche?

- Não sei.

- E se nessa creche estivessem os seus filhos e as pessoas que você ama?

- Bem, nesse caso...

E nesse caso a tortura estaria humanizada, se me perdoam o absurdo abuso do adjetivo. Para que não vejam nisso um exagero, citemos as palavras de Kenneth Roth, da Human Rights Watch: "Os defensores da tortura sempre citam o cenário da bomba-relógio. O problema é que tal situação é infinitamente elástica. Você começa aplicando a tortura em um suspeito de terrorismo, e logo a estará aplicando em um vizinho do provável terrorista".

Sobre um torturado e morto na ditadura, no meu romance “A mais longa duração da juventude”, pude narrar:

“O horror das mortes em 1973 é o retrato do seu último instante físico. Não é justo resumir uma vida humana assim. Sobre o animal sentimos a brutalidade: ‘O novilho continuava lutando. A cabeça ficou pelada e vermelha, com veias brancas, e se manteve na posição em que os açougueiros a deixaram.

A pele pendia dos dois lados. O novilho não parou de lutar. Depois, outro açougueiro o agarrou por uma pata, quebrou-a e cortou-a. A barriga e as pernas restantes ainda estremeciam. Cortaram também as patas restantes e as jogaram onde jogavam as patas dos novilhos de um dos proprietários. Depois arrastaram a rês para o guincho e lá a crucificaram; já não havia movimento’...

Penso em Vargas e seu sacrifício, o heroísmo que ninguém notou. Morto como mais um boi, gado abatido qualquer. Se não lhe comemos a carne, comemos a sua grandeza, porque o defecamos em nova brutalidade. Onde está Vargas, onde buscar Vargas? Ele está no ônibus, quando luta febril ao vislumbrar a sua última hora, da qual possui a certeza, e para ela caminha ainda assim? Desta maneira ele ficou adiante, conforme o viu a advogada Gardênia: ‘Vargas, que eu conhecia muito, estava também numa mesa, estava com uma zorba azul-clara, e tinha uma perfuração de bala na testa e outra no peito. E uma mancha profunda no pescoço, de um lado só, como se fosse corda, e com os olhos abertos e a língua fora da boca’. Vargas teria sido puxado por corda para o matadouro?

Aos bois partem o rabo, rompem a cartilagem, para assim ele arremeter para o lugar onde o sangram. A homens arrastam? Nos laudos da ditadura, não há uma narração da dor. Mentirosos, chegam a ocultar a causa mortis, esconder lesões, eufemizar a barbárie”.

Eufemismo da barbárie, assim como agora nas declarações de Trump. O terror de Estado está de volta.



*Urariano Mota é escritor e jornalista pernambucano.

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