Brasil

27 de janeiro de 2017 - 16h14

Antonio Callado, cem anos do trabalhador da escrita engajado no Brasil


Divulgação
   
Antes, dirá: “nunca fostes outra coisa que o trabalhador intelectual que, pela pena, (...) nunca fostes mais do que essa coisa, não raro subestimada, de escritor, o velho escriba de há seis mil anos a esta parte que busca fazer – vivo, contemporâneo e coetâneo – o nexo entre o passado e o futuro”.

Por fim, mais adiante: “há um componente a que não buscastes nem quisestes fugir – e não há melhor palavra para dizê-lo que a de engajamento”.

O filólogo, nesses três trechos, faz o retrato essencial do homenageado: Antonio Callado é, dentre nossos melhores autores, aquele que, por meio de um labor intelectual e estilístico consciente, constante, comprometido, deu-nos a verdade do Brasil em quadros nos quais figuram, num mesmo passo, belezas e mazelas, torpezas e generosidades, derrotas e esperanças, e nossas raízes avoengas – tudo plasmado numa escrita toda ela sem concessões, claramente posta a serviço de dar ao leitor a verdade do narrado em extensão e profundidade, a ponto de gerar nele uma inquietação difusa e fazê-lo imergir no ambiente da narrativa.

Temos à nossa disposição vinte e três obras, dentre as quais se destaca Quarup, em que verdades maciças de personagens e contextos nos são apresentadas e o Brasil aparece limpo de artifícios e veleidades. São pouco mais de duas dezenas de livros em que nossa consciência nacional é invocada e provocada.

Houaiss, ainda em seu discurso de recepção, compara esse conjunto, pelo êxito, ao monumental empreendimento alencariano de abarcar o Brasil em suas múltiplas encarnações.

Callado – dizemos nós – supera o gênio de Messejana por lograr pescar mais fundo a dialética de nossa nacionalidade. Enquanto José de Alencar dá sentido a um panorama e lhe confere sínteses primorosas por intermédio de imagens vistosas, hipérboles e eufemismos, o niteroiense economiza nos adjetivos e, jornalista de profissão, captura o essencial e o grandioso por meio do apenas necessário.

Por outro lado, embora ambos tenham o Brasil como tema, Alencar fala de um ponto de vista senhorial, ao passo que Callado toma francamente o partido dos desfavorecidos. Nas palavras de Houaiss:

“(...) o vosso e nosso Brasil, montado sobre cinco séculos de História, é o Brasil de hoje – o Brasil do latifúndio, o Brasil da extinção dos índios, o Brasil da interdição dos negros, o Brasil da exploração das mulheres, das crianças, dos pobres, da imensa maioria da sua gente, a que não tem sido nem vem sendo nem é dado o direito real a um mínimo de saúde, de alimentação, de instrução, de respeito, de dignidade – e como é triste ter de dizê-lo no instante em que buscamos festejar-vos. Mas, por certo, me acharíeis um alienado se, sobre vossas obras e vossas lutas, tão generosas, viesse eu brandir-vos ufanismos pelo Brasil que tem sido: afinal, a sua lógica é férrea, pétrea, adamantina; o presente é presente porque é a continuidade do que tem sido e vem sendo”.

Esse compromisso da literatura calladiana com o Brasil pedestre, originário do encontro entre as tribos daqui e os desvalidos de além-mar, é indissociável de uma índole democrática, que ganha expressão em obras como Quarup, Bar Don Juan e Sempreviva, e marcará presença em seu discurso de posse, feito na mesma cerimônia em que Houaiss o recepciona.

Tecendo, como requer o protocolo acadêmico, o elogio de Austregésilo de Athayde, seu antecessor na cadeira de número 8, Callado dirá:

“Aqui fecho aspas e digo ao meu ilustre predecessor que, não estando vivo hoje, não pode saber o que ocorre neste País, que ele amou e estudou a fundo, que a Constituição, feita pelas elites políticas, continua não valendo nada, mas que o povo continua longe de adaptá-la, deturpá-la, revogá-la. As elites políticas, que sempre elaboraram a Constituição, agora marcam prazo de meros cinco anos para modificá-la em tudo que lhes parecer necessário. Descobriram, meu prezado antecessor, a Constituição descartável”.

Se a esse militante da escrita e da luta democrática causou espécie a revisão constitucional prevista na própria Carta de 88, o que diria – e escreveria -, vivo estivesse, do golpe que a rasgou?


*Elder Vieira é escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983

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