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24 de janeiro de 2017 - 10h26

Líderes secundaristas da década de 80 se reúnem em São Paulo


Reprodução
   
Sob a chuva impiedosa que há mais de uma semana cai sobre a região metropolitana de São Paulo, mais de 70 pessoas que participaram da reconstrução das entidades estudantis secundaristas na década de 1980 se reuniram no último fim de semana (20 a 22 de janeiro) em Mogi das Cruzes, nas cercanias da capital paulista, para reviver as histórias daquele período de lutas pelo fim da ditadura militar, a criação dos grêmios nas escolas e a aprovação do voto aos 16 anos, entre outras bandeiras que os estudantes brasileiros carregaram durante anos.

Entre os presentes estavam ex-dirigentes da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e de organizações secundaristas estaduais e municipais de todas as regiões do país, além de líderes da União da Juventude Socialista (UJS), principal força política em atuação no movimento estudantil naquele período.

O encontro teve objetivo de reunir amigos, rememorar histórias, atualizar informações e matar a saudade. Após a militância estudantil, os ex-líderes seguiram trajetórias políticas distintas, mas praticamente todos permanecem engajados na luta social, sindical, comunitária, educacional e partidária. Alguns levaram seus filhos e até netos, sendo que vários desses herdeiros já trilham o caminho que seus pais ajudaram a pavimentar.

Selma Baçal de Oliveira, primeira mulher a presidir a Ubes, em 1985-1986, disse que “Foi uma satisfação encontrar a turma que contribuiu para fazer o Brasil ganhar o que a burguesia e seus tecnocratas chamam de a ‘década perdida’. Temos convicção que nossa história nos levou à redemocratização do país, em 1985, que, em si, foi uma conquista da nossa geração”. Selma, que há 25 anos é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas, da qual atualmente é diretora, informou que, junto com seus alunos, está trabalhando em uma pesquisa sobre a história da reconstrução das entidades estudantis de seu estado, do período entre o final da década de 1970 até o término do regime militar. “Percebi que não temos registro das lutas da nossa geração, e esse registro é importante porque muitos jovens nem sabem que houve ditadura no Brasil”.

Outro ex-presidente da Ubes, Delcimar Pires, que dirigiu a entidade antes de Selma, declarou que “Encontros são sempre bem-vindos, mas o que ocorreu em Mogi das Cruzes foi épico e retrato de todo um período de dificuldades, lutas, utopias e grandes vitórias. Rever os então jovens secundaristas de todos os cantos do Brasil da década de 80, hoje todos à beira ou já depois dos 50 anos, é impagável. Olhar e lembrar momentos que até não me lembrava mais, foi emocionante. E a emoção veio como ondas. E ficará como as areias das praias. Eternamente!”.

Para recriar o clima da época do movimento estudantil, a organização fez cartazes, camisetas e crachás, que serviram para os participantes recordarem as disputas pelos votos que garantiam a vitória nas eleições das entidades de representação.

Um dos organizadores da reunião, Elizeu Soares Lopes, que em 1988 presidiu a União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Mogi das Cruzes, disse que “Foi a celebração da amizade de uma geração de meninos e meninas que partilhavam sonhos de um Brasil mais generoso com sua juventude e com sua gente. E, passados 20, 25 ou 30 anos, se reencontram para se confraternizar com o mesmo entusiamo, alegria e rebeldia dos tempos de secundaristas”. Elizeu, que também foi presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), em 1990, ressalta que a “nostalgia tomou conta das rodas de conversas que lembraram dos casos e causos, das histórias e das lendas que cercaram os congressos do movimento secundarista Brasil afora”. E para contribuir com o clima nostálgico, diz ele, não faltaram os crachás para credenciamento dos ‘delegados’, as camisetas, os banners, as palavras de ordem e as músicas entoadas nos eventos da Ubes nos anos 80. “Em tempos de democracia aviltada, de ambiente carregado por medos e perdas de conquistas que ajudamos a construir, o encontro revelou que, independentemente da orientação político-partidária que cada um seguiu, todos ainda nutrem os mesmos ideais de um Brasil melhor, justo e solidário”, completou, agradecendo aos demais integrantes da comissão organizadora (Ivonete Barbosa, Claudinha Rodrigues, Julião Vieira, Ana Claudia Sandoval, todos de SP, e Jordaci Vieira de Matos, de GO, atualmente no MS), que “com muito carinho e entusiasmo fizeram tudo para o sucesso do encontro”.

Também da equipe que preparou a estrutura em Mogi, Edna Araújo, a Didi, que integrou a coordenação da UJS no estado de São Paulo de 1987 a 1989, realçou que “Ajudar na organização do encontro foi uma explosão de lembranças boas; lágrimas rolaram, uma coisa meio sem explicação, só quem viveu sabe. Todas as reuniões, o novo ‘credenciamento’, as visitas ao sítio, as compras… tudo era motivo de muita alegria. Faria absolutamente tudo de novo”.

Zilda Oliveira Farias, diretora da União Campineira dos Estudantes Secundaristas (Uces) em 1987-88, afirma que “Aquela militância marcou decisivamente nossa história de vida e de atuação política, assim como influenciou a educação brasileira e a organização pedagógica nas escolas”.

Apesar de não ter propósitos políticos, o encontro foi repleto de discussões sobre a situação do Brasil e do mundo, o refluxo na luta popular, os riscos à democracia. Quem enfatizou essa questão foi Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, que por muitos anos orientou a atuação política da UJS, ao qual a juventude socialista é vinculada. “Este período atual do país é muito singular, e vocês têm papel relevante em todas as frentes em que atuam. Os desafios são grandes, temos de manter a luta pela independência, a soberania, o avanço democrático e o progresso social do Brasil, não podemos nos submeter às tentativas de retrocesso”. Rabelo, que hoje preside a Fundação Maurício Grabois, falou também sobre a experiência vivida pela geração que ali se reunia. “O tempo era outro. Vocês viveram o final do regime militar e o início da redemocratização do país, e tiveram vitórias, como sofreram derrotas. Vim relembrar daqueles tempos, porque a geração de vocês foi uma experiência importante para mim, me formei também nessa convivência, e trago lembranças e lições que me têm forte significado”.

Quem não pôde ir à reunião acompanhou pelas redes sociais e aplicativo de celular, e alguns ex-líderes estudantis enviaram mensagens em áudio e vídeo compartilhando a alegria do reencontro.

Criador de um grupo por aplicativo de celular que desembocou na organização do encontro, Sérgio Avelleda, que presidiu a Uces de Campinas em 1985-86 e posteriormente integrou a diretoria da Upes, é um dos que não puderam comparecer, em razão de compromissos do cargo de secretário de Mobilidade e Transportes da cidade de São Paulo, que assumiu no começo do mês. Mas recebeu agradecimento dos amigos pela iniciativa de reunir os antigos militantes estudantis e declarou que “Apesar de não ter conseguido estar presente, quero registar a emoção de ter contribuído para esse encontro. Somos uma geração forjada no compromisso com a justiça social e com um país mais justo e fraterno. Seguimos diversos caminhos ao longo da vida, mas esse amor e solidariedade ao país e ao seu povo mais sofrido continua nos unindo. Espero, ansioso, o próximo encontro”. Que já está definido: será na Bahia, em 2018.

*Sueli Scutti é jornalista; foi presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas entre 1985 e 1987 e integrou a coordenação nacional da UJS e a coordenação no estado de São Paulo. Estava presente ao reencontro


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