Cultura

13 de janeiro de 2017 - 15h25

Como Paulinho da Viola ajuda a entender o amor


Paula Giolito
Como letrista, Paulinho trata do amor em muitas de suas letras Como letrista, Paulinho trata do amor em muitas de suas letras
Como letrista, Paulinho trata do amor em muitas de suas letras. A temática é recorrente entre outros sambistas e nas canções populares de modo geral, mas sua forma de abordá-la o tornou uma espécie de ‘educador sentimental’, na visão de Eliete Eça Negreiros, cantora, escritora e doutora em Filosofia pela FFLCH, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Ela é autora da tese de doutorado “Paulinho da Viola e o elogio do amor”, lançada também em livro pela Ateliê Editorial.

Por que “educação sentimental”

Negreiros analisa a representação do amor na obra do compositor por meio de referências da tradição lírica ocidental - no gênero lírico, a subjetividade é revelada na forma de poesia. Autores de obras filosóficas e literárias como Montaigne, Walter Benjamin, Aristóteles, Maurice Merleau-Ponty são citados para situar a lírica do sambista em meio a essa tradição.

Para a pesquisadora, o eixo da temática amorosa em Paulinho da Viola é a separação dos amantes, um tema que ela mostra vir desde a lírica clássica, milhares de anos atrás. Mas, além disso, o amor em Paulinho é uma fonte de ensinamentos para a existência como um todo. A autora define esse segmento do repertório do sambista como “educação sentimental”.

A canção popular brasileira é “um veículo da educação sentimental e estética da maioria dos brasileiros”, diz Negreiros na tese. Por meio da música, segundo ela, a população conhece o amor, a si e intensifica suas experiências. Nesse contexto, a pesquisadora define o cancioneiro do sambista como um “saber compartilhado” sobre o amor - ele faz as vezes de amigo e acompanha quem o ouve.

O relato das experiências amorosas é comum na música popular brasileira. O que há de especial no cancioneiro do compositor é, como mostra Negreiros, a extração de máximas que “ensinam a viver”.

Predomina nas letras um tom reflexivo, um mergulho na introspecção e no “sentimento de si”, em diálogo com as agitações da experiência amorosa, de acordo com o trabalho. Por exemplo, no samba “Onde a Dor Não Tem Razão”: “Canto/ pra dizer que no meu coração/ já não mais se agitam as ondas de uma paixão/ Ele não é mais abrigo de amores perdidos/ É um lago mais tranquilo/ Onde a dor não tem razão”.

O aprendizado da vida vem necessariamente pela experiência amorosa . “Hoje eu vim, minha nega/ Sem saber nada da vida/ Querendo aprender contigo a forma de se viver/ As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”, canta no samba “Coisas do Mundo, Minha Nega”.

A transmissão de diferentes experiências amorosas para quem ouve é o que proporciona a educação sentimental propagada, “sem querer,” pelo cantor e compositor carioca, conclui a pesquisadora.

Negreiros classifica os amores de Paulinho da Viola em três eixos: “O amor breve”, “O amor e a melancolia” e o “O amor feliz”. Na verdade, cada um desses tipos de amor também ensina algo em Paulinho da Viola.

O amor breve

Na primeira parte de seu trabalho, a autora retoma a tradição do pensamento que “desde os gregos reflete sobre a fragilidade da condição humana e a brevidade da vida” e mostra como essa concepção está presente na obra do compositor.

“Aquela felicidade
Que você conheceu
Um dia, na minha vida, já terminou
Aquele amor parecia
Um sonho de primavera
O sol da minha alegria
Nem sei quem foi que levou
Aquela felicidade
Aos poucos se tornaria
Um samba que o tempo depois apagou”


(Paulinho da Viola No samba Aquela Felicidade)
 
“Nosso amor não dura nada
Mas há de dar um poema
Que transformarei
num samba
Quando a gente se deixar”


(Paulinho da Viola No samba ‘Pressentimento')

 
Mesmo quando interpreta canções de outros compositores, o cantor se volta para esse tema. É o caso de sambas de Nelson Cavaquinho gravados por ele, como “Eu e as Flores” e “Quando eu me Chamar Saudade”. Em “Sol e Pedra”, canção do compositor dedicada a Cavaquinho, ele canta: “Sabes muito bem/Que a vida é curta/E muitas vezes/A gente morre sem viver”.

O amor e a melancolia

A melancolia é chamada pela autora da tese de “nuclear” na representação amorosa do sambista. A impossibilidade de esquecer o passado, de deixar para trás um amor que acabou, são marcantes nesse aspecto. Não há “nada de novo capaz de despertar sua alegria” quando um amor acaba, como canta no samba “Nada de Novo”.

Além de retratar a melancolia, o samba aparece nas letras, ainda, como um antídoto para a tristeza. A limitação da expressão por meio dele do que se sente também é tematizada - em “Coisas do Mundo, Minha Nega”, ele diz querer “Tentar fazer em teus braços um samba puro de amor/Sem melodia ou palavra pra não perder o valor”.

O amor feliz

Há mais de uma concepção de felicidade na obra do compositor, segundo Negreiros. Há, por exemplo, a felicidade que resulta do prazer, mas há também aquela que deriva da resistência. A plenitude é exemplificada na tese com o samba “Bela Manhã”:

“Eu então rezei
Agradecendo ao criador
O prazer de conhecer
Por um momento
A felicidade deste amor”


(Paulinho da Viola No samba ‘Bela Manhã’)

 
Ainda assim, ela é algo distante, difícil de alcançar. É o que Negreiros argumenta com a letra do samba “Ame”: “Que tal felicidade/ Sempre tão fugaz/ A gente tem que conquistar”. “Ame”, ao mesmo tempo, educa quem a escuta para não ter medo de amar. O título com o verbo amar no modo imperativo e os três primeiros versos da canção formulam uma espécie de profissão de fé: “Ame/ Seja como for/ Sem medo de sofrer”. Mesmo a felicidade aparece conectada ao sofrimento e ao aprendizado.
 
“Cantando
Um novo sentido, uma nova alegria
Se foi desespero hoje é sabedoria
Se foi fingimento hoje é sinceridade
Lutando
Que não há sentido de outra maneira
Uma vida não é brincadeira
E só desse jeito é a felicidade”


Paulinho da Viola No samba ‘Cantando’
 
Ouça canções de Paulinho da Viola:

Aquela Felicidade:
 


Pressentimento: 
 


Bela Manhã:


Cantando:
 


Fonte: Nexo

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