Cultura

9 de janeiro de 2017 - 18h41

O discurso de Meryl Streep contra Trump no Globo de Ouro


   
"O instinto de humilhar, quando é feito por alguém da esfera pública, por alguém com poder, infiltra-se na vida de todos nós, porque de certa forma dá permissão para todos fazerem o mesmo. O desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita violência. Quando os mais poderosos usam sua posição para intimidar os outros, todos nós perdemos", foi o discurso de Meryl Streep ao receber o Prêmio Carreira do Globo de Ouro, na noite deste domingo (08).

A atriz usou mais que o dobro do tempo que tinha disponível (de apenas três minutos) e o impacto do evento de cinema mundial para ressaltar a importância dos artistas, da liberdade de imprensa e dos estrangeiros, no ano em que Donald Trump comandará os Estados Unidos.

"Vocês e todos nós neste auditório pertencemos aos segmentos mais vilipendiados da sociedade norte-americana neste momento. Pensem nisso: Hollywood, estrangeiros e a imprensa", disse Meryl, logo na introdução de sua fala. "Mas o que é Hollywood, afinal de contas? É apenas um monte de gente de lugares diferentes", seguiu.

A homenageada por contundente carreira no cinema e nas artes cênicas contou que nasceu e foi educada em escolas públicas de Nova Jersey. Que Viola Davis nasceu em uma fazenda da Carolina do Sul, mas cresceu em Rhode Island. Que Sarah Jessica Parker é de uma família grande de Ohio, enquanto Sarah Paulson foi criada por mãe solteira no Brooklyn. Amy Adams é italiano e Natalie Portman nasceu em Jerusalém, Ruth Negga é da Etiópia e foi criada na Irlanda, Ryan Gosling é canadense e Dev Patel nasceu no Quênia e cresceu em Londres.

"Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros. E se você expulsar todos eles [dos Estados Unidos], não terá nada para assistir além de futebol e artes marciais, que não são artes", concluiu.

Sem citar o nome de Donald Trump, a atriz disse que "houve muitas e muitas atuações poderosas este ano que fizeram trabalhos de tirar o fôlego, cheios de compaixão, mas teve uma atuação este ano que me chocou, que cravou um gancho no meu coração".

"Não foi nada boa. Mas foi eficaz e conseguiu o que queria, fez o público alvo rir e mostrar os dentes. Foi aquele momento em que a pessoa que estava pedindo para sentar na cadeira mais respeitada do nosso país imitou um repórter com deficiência, alguém sobre quem tinha superioridade no privilégio, no poder e na capacidade de ripostar. Ver isto partiu-me o coração e é algo que ainda não consegui esquecer, porque não foi num filme, foi na vida real."

A referência de Meryl Streep foi a um comício de Trump na Carolina do Sul, em novembro de 2015, quando o então candidato à Presidência dos Estados Unidos ridicularizou publicamente o jornalista Serge Kovaleski, do The New York Times, que tem dificuldades nas articulações por artrogripose.

"E esse instinto de humilhar, quando é feito por alguém em uma esfera pública, por alguém poderoso, é infiltrado na vida de todos nós, porque de certa forma dá permissão a outros para fazerem o mesmo", afirmou.

Ao concluir, a atriz norte-americana também defendeu a importância do jornalismo. "Precisamos de uma imprensa com princípios para fiscalizar o poder, para cobrar cada absurdo. É por isso que os fundadores colocaram a imprensa e suas liberdades na Constituição. E peço que a Associação de Jornalistas Estrangeiros de Hollywood e todos da nossa comunidade se juntem a mim no apoio ao Comitê de Proteção aos Jornalistas, porque vamos precisar deles para seguir adiante, e eles vão precisar de nós para proteger a verdade."

Antes de deixar o palco, Meryl Streep finalizou que "temos de lembrar uns aos outros, todos os dias, do privilégio e da responsabilidade de agir com empatia."

O discurso da atriz foi imediatamente criticado por Donald Trump. Nas redes sociais, publicou uma sequências de posts chamando a atriz de "superestimada". "Meryl Streep, uma das atrizes mais superestimadas de Hollywood, não me conhece, mas me atacou ontem à noite no Globo de Ouro", disse.

"Pela centésima vez, eu nunca zombei de um repórter deficiente (nunca faria isso), eu simplesmente o imitei rastejando quando ele mudou completamente uma história de 16 anos que ele havia escrito para me denegrir. Mas uma vez a mídia desonesta", retrucou.

Trump também publicou que a atriz "é uma lacaia", "puxa-saco" e "amante" de Hillary Clinton. No dia seguinte, o The New York Times conversou com o mais novo presidente dos Estados Unidos. Ao jornal, disse que não ficou surpreso com o discurso, lembrando que a atriz "participou de uma convenção de Clinton".

Assista à integra do discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro:




 Fonte: GGN

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