Cultura

2 de janeiro de 2017 - 12h46

Urariano Mota: O futuro neste ano que se inicia


   
Houve um tempo em que o futuro era a paz idílica, sentimental, onde todas as feras passeavam ao lado de mansas ovelhas. Esse futuro passou. Houve um tempo em que o amor era a resposta certa para toda baixeza humana. Passou. Houve um tempo ainda em que a simples visão da flor, da orquídea, da cornucópia de pétalas nos jardins, deixava o peito cheio de um sentimento de felicidade, a ponto de suavizar o semblante, de amolecer os músculos, de fazer úmidos os nossos olhos. Esse tempo se foi. Então, que futuro nos resta? Que paraísos são possíveis? Ou para que inferno o vento sopra?

Os jovens mais sensíveis e angustiados nos perguntam sempre: o senhor acha que ainda é possível uma ditadura de generais no Brasil? - Não sei, não sabemos, é o que nos vem. Quem sabe é o vento, dá vontade de responder. Mas só o dizer "não sei" para eles é motivo de espanto. Entendemos a razão. Os jovens confundem cabelos brancos com sabedoria. Talvez nem saibam que os idiotas também amadurecem, sem crescimento da experiência. Talvez nem percebam que esse pesadelo do golpe militar nos acompanha todas as noites, como uma amada de sinal invertido.

Quem sabe? As possibilidades por vezes se transformam por obra de um absurdo acaso. Dizem os incrédulos: nenhum homem é serpente, o animal que adivinha terremoto com antecedência de 5 dias. Pois lhes respondo, para melhor fortalecimento do diagnóstico de loucura: o homem é mais fino e arguto que as serpentes, até no veneno. Olhem por quê.

A depender do que se deseja no mundo, o futuro é bem conhecido. Por exemplo, um político esperto, pragmático, não se pergunta para que lado sopra o futuro. Ele se diz, “gozemos o presente”. Agora, carpe diem, porque o amanhã é hoje. Muito melhor dizendo, o futuro será aquilo que ele consiga arrancar do poder neste momento, em todos os momentos. Ou em linguagem mais vulgar, o futuro é a construção do seu patrimônio, agora.

Porém há os mais sensíveis que as melhores serpentes. Estes se perguntam qual a tendência, para que melhor se preparem e venham a subir na crista da onda. O futuro para estes - observem a medida do ofídio - varia no intervalo de breve tempo. Para onde vai o mar, que onda se anuncia ou se forma sob a superfície no horizonte? Que ideias e bandeiras estarão em voga nesse futuro? Eles se perguntam, perscrutam o tempo, e a resposta nem sempre é certa, porque o movimento que se apresenta aos olhos nem sempre mostra o subterrâneo, que virá com força adiante. Então vem esta lição. Lembram-se do cardeal Richelieu, que mandou dobrar os sinos ao fim de uma revolta, sem saber para quais vitoriosos tocava? O vencedor, não importava quem, pensaria que os sinos o saudavam.

No entanto nós, sem o talento dos adivinhadores das tendências do poder que virá, desejamos da realidade futura algo diverso e de menor peso. Queremos apenas saber como o nosso destino será inscrito no destino de toda a humanidade nos próximos dias. Se o futuro que se quis se faz no presente, se o futuro imediato se faz ao fim deste presente fugaz, então o mais longe, que bem desejamos, não será feito sem a intervenção da nossa vontade. Vontade ativa, que vai além do perguntar à rosa dos ventos para que lado sopra o futuro.

Nós já estamos na humanidade. Iremos para onde ela for. Para nossa desgraça ou felicidade, nem tão rápido, nem tão prematuro. Quem sabe, talvez com um sentimento de alegria a perturbar nosso íntimo, mais uma vez, se encontrarmos o perfume do jasmim em novo dia.


*Urariano Mota é jornalista e escritor

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