Brasil

24 de dezembro de 2016 - 10h45

Opositores ao acordo de paz mentiram no referendo, diz líder das Farc


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O ex-presidente Álvaro Uribe, opositor de governo de Santos, foi o principal porta-voz do "não" no país O ex-presidente Álvaro Uribe, opositor de governo de Santos, foi o principal porta-voz do "não" no país
“[O acordo] Contou com uma propaganda muito bem planejada por aqueles que se opunham a ele. Do ponto de vista midiático, houve manipulação. Por exemplo, é um testemunho que vi: uma senhora tinha sete vacas, e disseram a ela que, se ganhasse o sim, pegariam cinco e ela ficaria com apenas duas. Veja, então, o tipo de coisas que se fizeram neste sentido”, afirmou.

Timochenko falou também sobre o processo de paz, a vitória do ‘não’ no referendo, suas expectativas em relação ao governo de Donald Trump, nos EUA, e a crise política no Brasil.

Leia a primeira parte da entrevista feita pelo jornalista Fernando Morais:

Fernando Morais: Em sua opinião, por que o “sim” [ao acordo de paz] foi derrotado no plebiscito?

Timochenko: Primeiro porque essa figura do plebiscito foi mal colocada. O governo Santos vem fazendo uma política desastrosa do ponto de vista político e social. Há grandes setores e camadas sociais colombianas que estão muito descontentes com as políticas sociais e econômicas [do presidente]. Alguns setores pensaram que votar pelo “sim” era aplaudir a política econômica de Santos, não separaram uma coisa da outra.

Outdoors com mentiras foram espalhados por todo o país
 
E também, o governo, que era encarregado de promover o “sim”, não o fez como deveria. Não explicou às pessoas no que consistiam os acordos. São 310 páginas, é uma quantidade de coisas que precisam ser explicadas. O acordo no tema agrário, por exemplo. Tinha mais de três anos que fora concluído. O governo não fez um trabalho sistemático, pedagógico, para que as pessoas os entendessem e vissem que os favoreciam realmente.

Além disso, [o acordo] contou com uma propaganda muito bem planejada por aqueles que se opunham a ele. Do ponto de vista midiático, houve manipulação. Por exemplo, é um testemunho que vi: uma senhora tinha sete vacas, e disseram a ela que, se ganhasse o sim, pegariam cinco e ela ficaria com apenas duas. Veja, então, o tipo de coisas que se fizeram neste sentido.

FM: Quem mais colaborou e quem mais criou dificuldade para os acordos de paz?

Timochenko: Uma das coisas que conseguimos neste acordo, e com a qual nos pusemos de acordo com o governo, é que no centro deste acordo estão as vítimas. Em função da verdade, da justiça, da reparação e da não repetição.

A estrutura de campanha do "não" também era maior que a do "sim" 
 
Porque as milhões e milhões de vítimas que houve neste conflito, consideramos que devem ser ressarcidas. Fundamentalmente, contando a verdade. E uma das coisas que ficaram acordadas é que será constituída uma comissão de esclarecimento da verdade.

E esses setores, que empurraram para a guerra, que fomentaram a guerra, e que não têm uma explicação lógica de seus porquês, porque tudo foi em função de seus interesses particulares, têm temores, têm medo que pode acontecer. Esses são os setores que, com força, se opuseram ao processo de paz, e estão se opondo, e vão continuar se opondo.

FM: Que garantias têm a população colombiana de que as Farc irão de fato abandonar a luta armada, para além da palavra de vocês?

Timochenko:  A primeira coisa é a palavra, a certeza. No fracasso de outros processos, sempre nos acusaram de que estávamos jogando duplo, o que não era verdade, e também não é correta neste momento: ‘Estamos aqui conversando calmamente e, aqui embaixo da mesa, temos umas armas e tal.’ Não! Estamos, sim, fazendo acordos, uma série de instrumentos que tem de ser implementados em função de garantir a nossa segurança e da população em geral.


Fonte: Opera Mundi

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