16 de dezembro de 2016 - 13h34

Chacina da Lapa: PCdoB reafirma compromisso com a democracia


Foto: Cesar Xavier
 Vereador Jamil Murad fala durante o ato na Cãmara Muncipal de São Paulo  Vereador Jamil Murad fala durante o ato na Cãmara Muncipal de São Paulo
Na terça-feira (13) o Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo foi ocupado pelos sobreviventes e herdeiros da resistência á ditadura militar. Foram lembrados os mártires da Chacina da Lapa, Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drumond, membros do Comitê Central do PCdoB, que participavam de uma reunião numa pequena residência na Lapa, bairro tranquilo da Zona Oeste de São Paulo. No dia 16 de dezembro de 1976, uma operação militar invadiu a casa e metralhou os dirigentes comunistas Pomar e Arroyo, sequestrando e torturando os demais em seguida, o que levou à morte de Drumond.

A chacina, prisão, tortura e assassinato daqueles militantes de esquerda revelou que a brutalidade da ditadura continuava, a despeito das manifestações e repúdio após as mortes de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho. Ainda que estivesse acuado pela opinião pública, o regime militar não poupou aqueles que comandaram a Guerrilha do Araguaia, encerrada dois anos antes, tendo envolvido dez mil soldados na maior operação militar desde a 2a. Guerra Mundial.

O ato foi realizado pela Fundação Maurício Grabois, com apoio dos mandatos do vereador paulistano Jamil Murad, o deputado federal Orlando Silva e a deputada estadual Lecy Brandão, todos do PCdoB. Participaram da mesa Murad, o historiador e diretor da Grabois, Augusto Buonicore, o vice-presidente do PCdoB, Valter Sorrentino, os dirigentes do Partido e sobreviventes da Lapa, Aldo Arantes e Haroldo Lima, a vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão e a presidenta da UNE, Carina Vitral.

Conforme apontou Buonicore, a Chacina da Lapa é um dos principais acontecimentos da história de resistência do povo brasileiro, no qual morreu três grandes revolucionários, representando três gerações do Partido Comunista do Brasil. “Sou de um tempo em que a historiografia conservadora quase apaga esse acontecimento da história de resistência do povo brasileiro. Muito se produziu dizendo que o último crime da ditadura foi o que vitimou Herzog, no máximo incluindo Manoel Fiel Filho. Como se depois daqueles assassinatos a democracia relativa estivesse estabilizada. O que é uma falsidade”, analisou ele.

A Chacina da Lapa ocorreu apenas um ano depois do assassinado de Herzog e Manoel. “A ditadura tinha o objetivo claro, naquele momento, de dizimar o que restava da esquerda brasileira, em especial, o Partido que havia dirigido a Guerrilha do Araguaia, que estava entalado na garganta dos setores mais reacionários dos militares brasileiros”.

Buonicore defende que é importante resgatar a memória deste acontecimento. “A luta pela memória é uma luta pela hegemonia. Povo que esquece sua memória está fadado a cometer os mesmos erros.”

Antes dos discursos, foi exibido um breve documentário produzido pelo Centro de Documentação e Memória da Fundação Maurício Grabois, com depoimentos de Aldo Arantes, Haroldo Lima, Dyneas Aguiar e Renato Rabelo, contando os detalhes daquele dia fatídico e rendendo suas homenagens aos dirigentes assassinados.

Veja abaixo:




A certeza da vitória


Murad destacou que, se este ato fosse apenas uma homenagem aos mártires e heróis da resistência à ditadura, já seria muito justo e merecido. “Mas tem o propósito de reafirmar que o PCdoB leva até as últimas consequências seus compromissos em defesa dos trabalhadores, da democracia e de um Brasil soberano”.

Através do exemplo desses heróis, afirma o vereador, “formamos dezenas de milhares de combatentes que tem obtido vitórias na luta do nosso povo”. O PCdoB é forjado na luta e no sacrifício, conforme ressalta Murad, e nunca se intimidou ou arriou suas bandeiras, como demonstram as muitas vidas de militantes comunistas tombadas nos anos anteriores à Chacina.

Murad também apresentou os filhos e neto de Ângelo Arroyo, presentes à homenagem, já que a esposa, Encarnação, faleceu recentemente. O vereador contou que Lenine Arroyo o procurou por volta dos anos 1990, na expectativa de resgatar o nome dado pelos pais, já que sua documentação mantinha o nome Antônio Cardoso. Encarnação também se tornou Camila Arroyo. O neto Fernando é filiado e militante do PCdoB.

“Nós talvez não consigamos ver, mas temos a certeza, como os camaradas Pomar, Arroyo e Drumond tinham, de que, aconteça o que acontecer, a nossa luta vai continuar e será vitoriosa. Esses covardes que sacrificam, exploram o nosso povo, que põem na fome e na miséria, serão superados. Vamos construir aqui uma pátria livre, alegre, de felicidade e progresso para o nosso povo”, concluiu Murad.

Lições do martírio da Lapa

Sorrentino lembrou que 13 de dezembro é uma data fatídica no Brasil. Se, há 48 anos, se proclamava o AI-5, que abriu o período do terrorismo de Estado na ditadura militar – aliás só encerrado com o episódio da Chacina da Lapa, por outro lado, neste ano se condena a nação e os interesses do povo pelos próximos 20 anos, com a aprovação da PEC 55 no Senado Federal. “Tristes e duros tempos estão de volta”.

Segundo o dirigente comunista, homenagear a memória dos que lá tombaram não é algo feito por saudosismo, mas para registro da imortalidade dos fatos da resistência democrática dos brasileiros e para extrair lições. “A lição de que a Justiça e a Liberdade, cedo ou tarde, acabam por se impor, mesmo que às custas de sangue. A lição de que não há vitórias irreversíveis nem derrotas definitivas. A lição de que o arbítrio tem muitas faces, mas são sempre as elites é que massacraram a democracia no Brasil, para implantar uma agenda antipopular e antidemocrática. A lição, cara para nós comunistas, de que à base de princípios, com justa e hábil orientação política, vingou mais uma vez o PCdoB”, pontuou ele.

Sorrentino atualiza o embate ao observar que “o golpe do impeachment desatou a marcha da insensatez que incuba os dramáticos acontecimentos da crise política e estimula intolerância fascista de setores da sociedade”. Para ele, uma nova ordem política vai sendo construída, de caráter antinacional, antipopular e antidemocrática.

Um poder paralelo vai se erigindo com base em setores do aparato burocrático do Estado (Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal) com apoio vigoroso da Globo, como outrora, e pretende fazer terra arrasada da política e do sistema político. “Os primeiros atingidos são os mesmos de sempre: a democracia, o Congresso, o povo em geral”.

Desta forma, Sorrentino avalia a necessidade de ampliar forças na sociedade para a disputa pela democracia. “A luta prossegue e nós, comunistas, herdeiros dos que tombaram na Lapa, combateremos à luz do exemplo que eles nos legaram”, afirmou.

Os discursos foram intercalados pelo canto de Railídia Carvalho, cantando “A louca”, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós. “… Dizem que eu sou, que eu sou uma louca desvairada / Eu fico louca se me chamam de louca / Pouca gente entende essa verdade: / Onde quer que impere a maldade / Loucura pouca é bobagem…”

Partido fênix

Haroldo Lima, preso após sair da reunião na casa da Lapa, e torturado nas prisões militares, sobreviveu para lembrar que a ditadura disse, à época, que tinha acabado com o PCdoB. “Passados 40 anos, quem acabou foi a ditadura. O partido não acabou, se revigorou e cresceu”, afirmou.

Ele também lembrou dos episódios dessa tarde de 13 de dezembro, no Congresso Nacional, em que o PCdoB consolida suas posições em favor do povo, como há 40 anos, e luta contra a aprovação da chamada “PEC da morte”, o projeto de lei que engessa o orçamento da União por 20 anos, implicando em perdas inestimáveis para a Saúde e a Educação.

Lima relatou as minúcias daquela reunião tão grave para demonstrar às novas gerações o nível de clandestinidade e risco de morte e violência que se precisava assumir para ousar discutir os destinos do país durante uma dura ditadura militar. “Passado tanto tempo, a memória de certos detalhes de como a reunião se procedeu vai ficando esmaecida, mas vai ficando mais nítido o significado histórico daquele acontecimento trágico”, diz ele.

“Rever esses fatos serve como uma advertência, principalmente ante a insensatez de grupos que hoje exibem faixas pedindo o retorno da ditadura”.

Lima lembra que a reunião visava uma avaliação da dura e recente derrota da Guerrilha do Araguaia. Mas diante do novo cenário de recuo da ditadura, a reunião também tinha como debate as bandeiras da anistia, da revogação dos atos de lei de exceção e de uma Constituinte livremente eleita, temas que mobilizavam a sociedade, desde 1975. A ditadura sofria com a impopularidade e a crise econômica, após o fim do milagre brasileiro proporcionado pela conjuntura internacional favorável, desde 1964.

Lima destaca que o general Geysel assumiu, em 1974, anunciando a abertura lenta, gradual e segura, mas computando mais de 40 assassinatos de dirigentes de esquerda até a Chacina da Lapa, com especial prejuízo para o PCdoB. “O PCdoB percebia que, com ou sem distensão, com ou sem abertura, a ditadura comportava-se como se tivesse uma conta especial a ser ajustada com o Partido. Um camarada era especialmente visado: João Amazonas, o homem do Araguaia”.

No momento em que tantos morriam, e a militância ficava acéfala e enfraquecida, Lima destaca a integração da quase integralidade de militantes de Ação Popular no PCdoB, em março de 1973. Esses também compunham a reunião na Lapa. Ele enfatizou que, apesar de toda a brutalidade, o Partido rapidamente se rearticulou em torno de seu planejamento estratégico. Hoje, as bandeiras daqueles tempos continuam hasteadas, de acordo com Lima, contra qualquer tentativa de retorno da ditadura.

A grande política

Aldo Arantes abriu seu discurso homenageando Dom Paulo Evaristo Arns, falecido no dia seguinte, por sua ligação com os fatos decorrentes da Chacina da Lapa. Ele diz ter ouvido o ódio dos militares contra o clérigo, xingando-o por sua coragem e ousadia na defesa dos direitos humanos de presos políticos. Arantes também mencionou a contribuição de Arns na interrupção de sua tortura, assim como a tentativa feita por ele de avisar os dirigentes do PCdoB da iminente ação policial na Lapa. Arns soubera por funcionário da Embaixada dos EUA do que ocorreria, mas não conseguiu encontrar os dirigentes que se encontravam na clandestinidade.

“Estamos aqui, por um lado, para homenagear, relembrar, para honrar, mas por outro lado para fortalecer as nossas convicções para continuar a nossa luta. No momento em que se combate os políticos e os partidos, estamos aqui homenageando aqueles que fizeram a grande política, fizeram a política por ideal, deram a sua vida. Precisamos mostrar à juventude que existem formas nobres de fazer a política para transformação da sociedade”, declarou Arantes.

Ele explicou que o neoliberalismo tenta despolitizar a juventude, transmitindo a falsa ideia de que as decisões devem ser técnicas e não políticas. A concepção econômica do neoliberalismo de menos estado de mais mercado, de acordo com ele, se expressa do ponto de vista político em mais decisões técnicas e menos participação popular. “Uma mentalidade que é favorecida por um sistema político degradado”, disse Arantes, reforçando a necessidade da bandeira da reforma política ganhar a juventude. Advogado e representante da OAB, Arantes é um dos principais militantes da reforma política.

A repressão continua

Envolvido na luta renhida que acomete o Congresso Nacional, em meio a uma violenta crise política, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), não se omitiu. Sua chefe de gabinete, Márvia Escárdua, leu uma mensagem de homenagem aos mártires da Lapa.

“A Chacina da Lapa, como ficou conhecida, foi mais um crime na lista de muitos outros praticados pelo regime. Uma execução que guardará lugar na história por seu requinte de crueldade, inspirado na ideologia de violência semeada na época. Lembrar da Chacina da Lapa é mais do que uma homenagem justa e necessária, é denunciar as marcas que aquele período deixou e que se entranharam em nossa história e sociedade. A violência policial e repressão testemunhada naquele episódio, que usurpou de nossos camaradas a vida e luta por um país livre e soberano, deixou herdeiros que repetem essa mesma violência pelas ruas de todo o Brasil. Tal como foi naquele período, hoje, testemunhamos a perseguição e repressão aos que, nas ruas, lutam por um Brasil soberano, livre e incluído. (...) É inspirado nos mártires de nosso Brasil que minha luta se renova. Pendo que ao olhar para o nosso futuro, nunca devemos esquecer do nosso passado. Ele nos inspira a crer que uma outra sociedade é possível, a qual acolha os sonhos de todos e todas que a longo da vida construíram nossa história.


Assista abaixo o ato:




 Fonte: Portal Grabois

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