Brasil

15 de dezembro de 2016 - 18h25

Novos documentos: EUA conheciam plano de golpe na Argentina


Télam
Entrega dos documentos desclassificados pelos EUA, em Buenos Aires Entrega dos documentos desclassificados pelos EUA, em Buenos Aires
Em 28 de fevereiro, agentes de inteligência dos EUA já haviam informado o presidente que um emissário do Exército argentino acabara de chegar em Washington “com instruções para o adido militar para prepará-lo para a tomada de poder em Buenos Aires”. O emissário também transmitiu orientações para responder à mídia dos EUA “sobre os eventos que ocorreriam” na Argentina. Esses textos fazem parte das mais de 500 páginas de novos documentos desclassificados pela administração de Barack Obama sobre a ditadura argentina.

“Isso adiciona provas documentais a uma verdade histórica que era conhecida na região: que os Estados Unidos estavam envolvidos no golpe de [Augusto] Pinochet no Chile e que, no mínimo, tinham conhecimento das rupturas institucionais nos outros países da região e não fizeram nada para evitá-los”, diz o diretor-executivo do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS), Gastón Chillier.

“Não há documentação que aponte para uma participação dos Estados Unidos no golpe, mas o presidente tinha todas as informações, e o poder se baseia nas informações”, disse por telefone Carlos Osorio, diretor do projeto do Cone Sul da National Security Archive (NSA), com sede nos EUA.

O material entregue ao Governo de Mauricio Macri, que está disponível on-line, mostra detalhadamente cada um dos movimentos do Exército argentino e da Operação Condor, o plano repressivo lançado por vários regimes militares do Cone Sul para perseguir e assassinar guerrilheiros e opositores políticos e sindicalistas fora de suas fronteiras.

Pela primeira vez, são reveladas provas que até mesmo ativistas de direitos humanos reconhecidos internacionalmente foram alvos da repressão regional. “O objetivo básico da missão das equipes enviadas ao exterior pela Operação Condor era liquidar terroristas de primeira linha. Os não terroristas também eram candidatos a serem assassinados. O político da oposição uruguaio Wilson Ferreira e alguns líderes da Anistia Internacional foram mencionados como alvos”, observa um relatório de 9 de maio de 1977.

Segundo o Governo dos EUA, os membros dessas equipes receberam um curso de capacitação em Buenos Aires” e os países participantes planejaram enviar uma equipe a Londres “disfarçados como homens de negócios, para monitorar atividades suspeitas na Europa”.

De acordo com a CIA, outro dos objetivos da Operação Condor “era coletar material sobre a adesão, localização e atividades políticas de grupos de direitos humanos para identificar e expor suas conexões socialistas marxistas e socialistas”. Os militares buscaram dados semelhantes sobre integrantes da Igreja Católica.

Um dos documentos mais chocantes é o depoimento de 14 páginas de Alfredo Bravo, copresidente e fundador da Assembleia Permanente de Direitos Humanos da Argentina. Bravo foi sequestrado por homens à paisana durante uma classe em setembro de 1977 e colocado em um carro sem placa em direção a um centro de detenção clandestino em La Plata (a 60 quilômetros ao sul de Buenos Aires), onde foi torturado por 10 dias.

“Aplicaram-lhe um aguilhão elétrico no peito, no pescoço e na cintura”, descreve o relatório enviado ao assessor de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski. “Bravo disse que, quando terminaram, estava ‘tão cheio de eletricidade’ que sua mandíbula e língua estavam paralisadas.” O ativista argentino também foi sistematicamente espancado, torturado com jatos de água gelada e fervente e submetido ao submarino, que consiste em submergir a vítima várias vezes até deixá-la a ponto de se afogar.

Este é o segundo lote de documentos desclassificados pelo governo Obama, como parte do compromisso assumido pelo presidente quando visitou a Argentina em março passado, em razão do aniversário de 40 anos do golpe de Estado. “Acredito que temos a responsabilidade de confrontar o passado com honestidade e transparência”, disse Obama.


Fonte: El País

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