Brasil

30 de novembro de 2016 - 15h05

Secundaristas mineiros relatam os momentos de desespero em Brasília

Mídia Ninja
   

Foto: Arquivo Pessoal
Daniela Moura a caminho de Brasília
“Estávamos no meio gramado em frente ao Congresso Nacional quando a polícia cercou a Esplanada e começou a jogar bombas contra nós. Foi um momento de desespero. Pessoas gritando, chorando, caindo no chão e correndo para lados diferentes. Vivemos cenas de guerra”, relata a presidenta do Grêmio Abra Alas, do Colégio Estadual Central, Daniela Moura.

Ela conta que os estudantes mineiros chegaram a Brasília por volta das 9 horas da manhã. Eles se dirigiram ao Ministério da Educação (MEC) onde foram realizados pequenos atos organizados por entidades estudantis nacionais e depois seguiram juntos para o Congresso Nacional – sob palavras de ordem como “Educação não é mercadoria”.

Por volta das 16 horas da tarde o Batalhão de Choque da Polícia Militar do Distrito Federal começou a se posicionar próximo aos prédios dos ministérios encurralando os manifestantes no centro da Esplanada.

“Nossa intenção era permanecer no gramado para acompanhar a votação. Estávamos fazendo um ato pacífico como sempre fizemos. De repente percebemos que estávamos cercados e a orientação foi que saíssemos de lá. Então a polícia militar começou o ataque. Era muita bomba e spray de pimenta. Eles jogavam bombas até dos helicópteros na gente”, diz Daniela.

O estudante secundarista, Glauberth Reis, da Escola Estadual Dom Cabral, conta que em meio ao clima de pânico eles tentaram manter a todos juntos. “A solução naquele momento era manter a calma. Fizemos um cordão com os estudantes que não haviam corrido e começamos a caminhar de mãos dadas para o Estádio Mané Garrincha. Andávamos um pouco, depois parávamos e catávamos ‘Uai, uai, uai, Minas Gerais’ – na tentativa de reunir os quem haviam se perdido”.

Em meio ao efeito do gás lacrimogêneo e do medo, a preocupação era encontrar os desaparecidos. A presidenta do grêmio do Estadual Central disse que depois de chegarem a um local seguro quatro estudantes – que já participaram de outras manifestações – foram em busca daqueles que ainda estavam sumidos.

“Só conseguia pensar na responsabilidade que eu tinha com os estudantes. São quase todos menores de idade e eu tive que ir pessoalmente conversar com os pais deles para conseguir a autorização para a viagem. Estávamos sem celular e sem notícia deles. Foi muito estressante, mas nossa deliberação era encontrar todos. Não íamos deixar ninguém para trás”.

Foto: Arquivo Pessoal
Glauberth Reis durante atividade no Estadual Central
“Nessas horas é preciso pensar rápido e agir como uma liderança mesmo. Tentei passar tranquilidade para todos. Eu falava para eles respirarem fundo, para manterem a calma. Nosso pensamento naquela hora era sobreviver a todo aquele horror e trazer todos de volta para Minas”, ressalta Glauberth.

Para muitos secundaristas (a maioria com menos de 18 anos) esta foi a primeira experiência em um ato nacional. Daniela acredita que alguns colegas não vão mais querer participar. “Tenho um amigo que disse que não vai mais. Eu entendo porque a primeira experiência dele foi realmente traumatizante. Essas coisas são muito ruins porque criminalizam os movimentos estudantis e sociais. Eu vou continuar. O movimento de ocupação vai continuar”.

Para Glauberth a situação política atual do Brasil exige cautela. “Hoje vivemos um momento em que não se pode confiar na Constituição. Se tiraram do poder uma presidenta legitimamente eleita com mais de 54 milhões de votos o que podem fazer com o cidadão comum e com os estudantes?”

Antes de encerrar a entrevista Daniela Moura desabafa: “O que mais me deixa triste é que em momento algum a Rede Globo e outros veículos da grande mídia disseram que os estudantes estavam em Brasília lutando por educação e saúde. E é isso que estamos fazendo. Estamos lutando pelo nosso país, pelo povo brasileiro”.


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