Movimentos

6 de janeiro de 2017 - 9h00

Enquanto reina a intolerância, religiões afro resistem ao preconceito


Lúcio Távora | Ag. A TARDE
   
Uiara Lopes é diretora da União de Negros pela Igualdade (Unegro), praticante do Candomblé e Vondunsi¹ da Roça do Ventura, um terreiro da tradição Jeje Mahi localizando na Bahia. Ao Portal Vermelho ela faz um relato do momento de retrocesso que o país enfrenta.

"Nós conseguimos avanços no enfrentamento à intolerância religiosa, a partir de algumas ações intensificadas em 2001, realizadas pelo movimento negro em parceria com muitos terreiros, contribuindo na desconstrução da imagem satanizada que foi criada sobre as religiões de matrizes africanas. Essa perseguição tem um cunho racial, criada pelos judaicos-cristãos em estabelecer que tudo é do bem ou do mal, e nós não possuímos tal concepção. Nunca vamos dizer que, por exemplo, que Exu é o diabo, mas sim um guardião que transita na esfera celestial. O candomblé dialoga com os elementos da natureza. As religiões de matrizes africanas são politeístas e, somado ao cunho racial, é uma crença essencialmente negra e muitos adeptos de outras religiões não compreendem isso", explica.

Preconceito 

A Roça do Ventura é considerada partrimonio pelo Iphan ( Mila Cordeiro)
A diretora da Unegro enumera algumas das políticas públicas que foram realizadas nos últimos anos que foram fundamentais para o combate à intolerância religiosa. "Do governo Lula pará cá tivemos mães e pais de santo podendo opinar sobre as políticas públicas, a criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa -celebrado no dia 21 de janeiro- e a constituição da Secretaria de Igualdade Racial. Essas ações foram importantíssimas na luta pela conquista de direitos", ressalta. 

"Entretanto, com o recrudescimento recente do fundamentalismo, vemos, por exemplo, o sacrifício de animais ser criminalizado em Projetos de Lei, nós não consideramos essa prática como sacrifício, mas uma sacralização religiosa feita dentro de um terreiro, o que é algo completamente diferente de matar um animal e jogá-lo no meio do caminho, porém, considero hipócrita debater essa questão e não discutirem, por exemplo, o crescimento indiscriminado do consumo de carne e o tratamento dado aos animais no abatedouro, mas, claro, tem muito dinheiro envolvido na pecuária, não é mesmo?" questiona Uiara.

Onda conservadora 

Uiara Lopes (imagem à direita) considera como o regresso da ditadura militar, a nociva ligação entre o Estado e a religião exercida no Brasil. "Alguns parlamentares são tão reacionários, que as vezes eu questiono: até quando poderemos sair todos de branco nas ruas? Estamos vivendo um momento tão radical que até a palavra gênero foi suprimida da Base Nacional Curricular", lembrou.

"Enquanto religiosa, eu não farei um aborto, mas eu não acho que minha religião e a minha escolha de ordem individual possam interferir na lógica do Estado. Tais representantes neopentecostais tornando-se vereadores, deputados, senadores, prefeitos ou governadores, operam para transformar o aparelho do Estado na instituição mais repressora que nós vamos ter nos últimos anos. Todas as minorias serão afetadas, a partir do momento que a Constituição é trocada pela Bíblia", justificou.

Redação do Enem: Conscientização dos jovens

O presidente da Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (Acbantu), Tatá, considera um passo importante no combate ao preconceito racial, a abordagem sobre "intolerância religiosa" na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano. Para ele, "a porta de entrada da intolerância é o racismo, por isso, o tema do exame foi importante, principalmente para os jovens, pois ninguém nasce ignorante, mas existe uma influência cultural na formação do cidadão. Se dez estudantes foram conscientizados com essa prova, nós já estamos no lucro, é um trabalho de formiguinha o combate ao preconceito, esses jovens serão os senhores do amanhã", enfatiza.

Povos de terreiros 

Tatá (imagem à direita), que lidera um trabalho em defesa do patrimônio de terreiros e quilombos, afirma que o termo "religiões de matrizes africanas" não é aceitável, "o adequado seria povos de terreiro, que abrange o candomblé, umbanda, jurema, todas as culturas afro-brasileiras, então, quando falamos de 'matrizes africanas', a umbanda está fora, pois ela é 100% brasileira, é uma contradição. Com o nome 'povos de terreiro', conseguimos inúmeras conquistas sociais, como por exemplo o Bolsa Família para terreiros e quilombos. Não basta apenas combater a intolerância, é preciso garantir direitos para esse povo", argumenta.

Dados da intolerância 

Segundo a Agência Brasil, de acordo com o Disque 100, canal criado pelo governo Dilma para receber denuncias que ferem os direitos humanos, de 2011 – quando o canal começou a receber denúncias de discriminação religiosa – a 2014, foram feitas 504 denúncias e 597 pessoas foram vítimas do preconceito (uma mesma denúncia pode envolver mais de uma vítima). Entre as 345 vítimas que declararam a cor, 210 são pretas ou pardas. O número representa 35,2% do total de vítimas e 60,8% do total de vítimas que declararam a cor da pele.

Por tanto, os adeptos da religião acreditam que a falta de conhecimento sobre o tema, aliada à ignorância, o preconceito e à intolerância, levam à violência. Por isso, é importante que o debate sobre o tema possa esclarecer que, fundamentalmente, as religiões devem preservar a paz e o amor entre todos. Enquanto isso, eles resistem ao preconceito e pedem respeito.

1- Pessoa iniciada no camdomblé 


Do Portal Vermelho 

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais