Brasil

14 de novembro de 2016 - 12h38

O que muda no mundo com a vitória de Trump?


Foto: Tom Pennington / Getty Images
   
Não durou muito tempo depois do anúncio, para que “articulistas” e “analistas políticos” dos jornais golpistas do império passassem a dizer que os eleitores estadunidenses são imbecis porque votaram em Trump. A mesma coisa ocorreu por aqui nas eleições municipais, em especial no Rio e em São Paulo onde venceram outsiders da política ou venceu a antipolítica. Cabe a nós aprofundar a análise desses resultados e verificar o que esteve em jogo e quais são as perspectivas para o nosso já combalido mundo.

Houve como que um pânico, até entre muitos de nós da esquerda, com a vitória de um direitista para a Casa Branca. Devemos nos perguntar, com relação à boçalidade de Trump: qual a diferença mesmo dele para o ator canastrão que foi Ronald Reagan ou do border line Bush Filho? Absolutamente nenhuma.

Em primeiro lugar quero registrar que em tempo algum eu torci para que a Hilária vencesse as eleições como forma de “mal menor” para barrar o “louco” do Trump. Tampouco jamais torceria por ele. Todos nós por aqui que somos de esquerda torcemos para que Sanders ganhasse o direito de disputar pela legenda Democrata. Ele era de longe o mais preparado e progressista de todos os candidatos Democratas da história desse Partido desde Carter, para ficarmos nos últimos 40 anos. Se fosse eleitor nos Estados Unidos, provavelmente votaria em alguém da terceira via ou anularia meu ou voto ou nem votaria (lá o voto é facultativo). Feito esse registro, temos que caminhar para a análise.

A candidata Hilária

Acompanho de perto a política estadunidense desde pelo menos o governo do democrata Jimmy Carter. Arrisco a dizer que ele possa estar entre os melhores da história daquele país, ao lado do visionário Wilson e do keynesiano Roosevelt. Todos os outros depois de Carter foram no máximo medianos, mas, sem exceção, fazedores de guerra. Na história americana os democratas fizeram muito mais guerras que os republicanos.

No entanto, com a vitória da Hilária na convenção Democrata que venceu mesmo foi o stablishment, a corrupção no Partido e os oligopólios da mídia, além, claro, dos endinheirados e o maior dos quatro grandes lobbies que existe por lá, que é o judaico da AIPAC (The American Israel Public Affair Commite, Escritório Público de Interesses Americano-Israelense). O outro lobbie poderoso é o do complexo industrial militar. Os EUA não vivem sem guerra. Pelo menos uma a cada quatro pessoas tem alguma relação com a guerra, seja como veterano, militar da ativa, trabalhador na indústria etc. e Hilária defendia os interesses desse grupo. Recentemente veio a público uma carta que ela enviou a um magnata judeu onde diz que “se for preciso matar cem mil em Gaza, que assim seja”!

Provavelmente, a pior candidata escolhida pelos Democratas na história desse Partido. Ela é a caricatura exata de um modelo de político que tem se mostrado completamente superado. Ela é produto exato de um modelo que está na sua fase final, exaurido e esgotado. A chamada democracia representativa está com seus dias contados.

Ela sempre foi a “Senhora da Guerra”. Passou a campanha inteira dizendo apenas uma coisa: é preciso fazer mais e mais guerras. Seria preciso completar o serviço sujo contra a Síria e seu presidente Bashar que Obama e o chefe do terror, o rei da Arábia Saudita, não conseguiram. Seria preciso destruir o que restou da grande República Árabe da Síria.

A atriz Susan Sarandon, das mais progressista no plantel de artista da indústria de Hollywood ao ser indagada se não votaria em uma mulher à presidente deu a melhor resposta: não voto com a minha vagina. Ou seja, perdeu-se a oportunidade real de que, de fato, o 45º presidente norte-americano pudesse ser uma mulher. Nesse sentido, nosso Brasil está muito à frente.

Não podemos esquecer jamais que foi a Hilária, quando era secretária de Estado, que barrou a proposta de acordo nuclear do Irã de Ahmadinejad que foi apresentado pelo Brasil, com Lula e a Turquia, com Erdogan. Um belo acordo que, posteriormente, foi feito com a chancela de Obama. Isso para não dar uma “colher de chá” para países em desenvolvimento.

O candidato Donald Trump


Tornou-se lugar comum chama-lo de “sexista/racista/xenófobo”. De fato, ele é tudo isso e apoiado abertamente por grupos da supremacia racial e misóginos. Parte do seu eleitorado vê as mulheres apenas como simples incubadoras de seus filhos machos. Tudo isso é verdade. Como também o é o fato dele ser na história americana o candidato mais rico a concorrer à presidência.

No entanto, é preciso dizer outras coisas dele. Sabemos que os Republicanos são muito mais protecionistas que os Democratas. O que não sabíamos, ou a mídia deu pouca importância, é que ele passou a campanha atacando o livre-comércio e a globalização. Nós da esquerda também o fazemos. Ele faz os ataques pelo campo da direita. No entanto, é extremamente corajoso, uma voz dissonante, em meio a um coral uníssono de uma só voz que pede mais globalização, mas abertura total para o comércio e o trânsito de capitais, mas tratados de livre comércio que impõe sofrimentos para países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

Ele representava a turma do WASP, na sigla inglesa White Anglo Saxon and Protestant (branco, anglo-saxão e protestante). É a parte do eleitorado mais de direita dos Estados Unidos. Gente que um dia fundou a Ku Klux Kan. Gente do Tea Party. É verdade. Ele foi apoiado pela maioria desses segmentos. No entanto, angariou apoio no operariado branco, elitizado que sempre votava nos Democratas. Sua virada em alguns estados chaves fez com que ele, mesmo perdendo nos números absolutos de votos ou ganhando por pouco, levaria a maioria dos delegados ao colégio eleitoral (lá as eleições para presidente são indiretas).

O significado da vitória de Trump

Mesmo a quase totalidade da grade mídia tendo batido na tecla diariamente que ele seria o pior para os Estados Unidos e a Hilária o melhor, grande parte do eleitorado votou nele, dando de ombros para a imprensa-empresa. Aliás, tanto os grupos de mídia quanto os institutos de pesquisas podem ser classificados como grandes derrotados.

Ainda que tudo isso possa ser verdade, ainda não explica o porquê da vitória desse direitista que beira o fascismo. Temos que buscar algumas respostas também na economia. Dois dados interessantes. No governo Carter, um operário médio recebia 48 mil dólares ao ano (mais ou menos hoje no Brasil 153 mil reais ou 12,8 mil ao mês). No governo Reagan isso já caiu para 43 mil dólares, chegando hoje com Obama a míseros (para os padrões deles) 33 mil dólares (R$105 mil/ano ou R$ 8,8 mil/mês). Uma queda de poder aquisitivo de quase 50%.

Outro dado significativo é o do salário mínimo. Lá eles não têm um valor mensal como aqui no Brasil. Lá paga-se por hora de trabalho. Pois bem. Em 1968 o valor da hora/trabalho mínima era de US$ 10,86 (atualizado para os dias de hoje e sendo nesse ano o maior da história americana). Hoje, o mínimo paga apenas U$7.25 por hora/trabalho, quase 30% menos. Não por acaso Bernie Sanders em sua campanha batia na tecla de 15 dólares do mínimo por hora.

Vários autores têm dito que essa vitória pode ser comparada à do Brexit na Inglaterra, que também levou pânico aos mercados no mundo com a decisão do povo de sair da União Europeia (a Inglaterra já não fazia parte da zona do euro, tenho preservado a sua moeda, a Libra Esterlina). Tem lógica isso. É o voto de protesto dos excluídos em geral e mesmo dos incluído que vem sendo marginalizados na sociedade, nas decisões e vendo seu poder de compra ser reduzido todos os dias.

Uma das questões mais fundamentais que temos que responder, para sabermos o significado real da vitória de Trump, é a seguinte: essa vitória ajuda ou atrapalha a construção de um mundo multipolar? Hoje, a questão central é quebrar a unipolaridade a que o mundo vem sendo submetido desde janeiro de 1991 com a vitória de Bush (pai) contra o Iraque e com o fim da URSS no final desse ano.

Desde a criação dos BRICS em abril de 2011, já vínhamos dando passos acelerados para a construção de um mundo multipolar. Nesse sentido o nosso Brasil jogou um grande papel. E foi na cúpula desses países, em julho de 2014, em Fortaleza, Ceará, sob o comando de Dilma, que se criou o Banco de Desenvolvimento dos BRICS, chefiado por um indiano e com capital inicial de 100 bilhões de dólares. Isso pode ter sido a sentença de morte da presidente que seria derrubada por golpe parlamentar dois anos depois (agosto de 2016). Nunca é demais lembrar que no ano seguinte, fevereiro de 2012, pela primeira vez em décadas, Rússia e China vetam uma resolução apresentada pelos EUA que faria com a Síria o mesmo que fez com a Líbia, que destruiu o país e matou seu líder, Muamar Khadafi.

Vi muitos comentários, artigos, postagens em redes sociais, de elevada indignação com a vitória de uma pessoa que seria contra os gays, contra os imigrantes e que levaria de volta as mulheres à condição de subordinação aos homens. De fato, Trump falou imensas bobagens na campanha. Do ponto de vista moral e de valores humanos, ele expressa o que se tem de pior em uma sociedade, de mais atrasado.

No entanto, devemos nos perguntar: desde quando devemos usar o “metro” de valores morais para medir e avaliar um governo ou um candidato? Acaso não devemos ter como principal a questão de seu programa político? Costumo lembrar um episódio da história que é emblemático e até os dias atuais rende indignação de muita gente.

Em 23 de agosto de 1939, pouco antes do início da II Guerra Mundial (na Rússia chamada de Grande Guerra Patriótica), o chanceler da jovem e socialista União Soviética assina um pacto de não agressão com a Alemanha de Adolf Hitler (no poder desde 1933), através de seu chanceler Ribbentrop. Claro, sob orientação pessoal do próprio Stálin. Já se vivia perseguições internas da Alemanha. Seja contra judeus, comunistas, sindicalistas, o clima era de franca restrição às liberdades políticas. No entanto, a decisão de assinar esse acordo não foi tomada com base em valores morais, mas sim para ganhar algum tempo precioso para que a URSS pudesse se preparar para o que inevitavelmente viria, que seria o ataque com vistas à sua destruição. Foram três preciosos anos onde a indústria armamentista soviética trabalhou freneticamente para enfrentar os nazistas (Stalingrado foi atacada a partir de julho de 1942).

Quem ganha e quem perde com Trump

Não se pode fazer previsões em artigos internacionais. Até porque não somos profetas, mas analistas de política internacional. Nesse sentido, apontamos possibilidade e construímos cenários, avaliando as chances de que ele venha a ocorrer.

Nesse sentido, podemos estar sim, às vésperas de vermos uma alteração de paradigma com relação à política externa dos Estados Unidos. Não que Trump vá chamar todas as tropas de volta e desmontar as suas quase mil bases espalhadas pelo mundo. No entanto, só o fato dele não fazer nenhuma nova guerra já seria um grande passo.

Aqui, nesse sentido, os que mais ganharam com a sua vitória, indiscutivelmente, foram a Rússia de Vladimir Putin e a Síria de Bashar Al Assad. Aliás, Putin foi o primeiro chefe de estado a cumprimentar Trump. Também pediu publicamente a imediata suspensão das sanções impostas por Obama à Rússia. É muito possível que um novo Oriente Médio venha a ser construído com o Oriente Médio não sionista. Aqui ficaria mais forte o Islã sunita não jihadistas.

Como dissemos, crescem as chances de termos um mundo onde existam, de forma harmônica e pacífica, os vários polos regionais de influência. Os Estados Unidos, mesmo sendo uma potência econômica decadente, seguirão jogando importante papel. Quiçá a OTAN diminua seu papel e, por questões de economia doméstica, bases militares fechem em muitas localidades e outras nem sequer sejam abertas (Trump na campanha chegou a anunciar dúvidas com relação ao papel da OTAN e 200 generais da ativa assinaram um manifesto em apoio à sua candidatura, fato inédito na história).

Do ponto de vista econômico, é possível supor algum tipo de controle ao fluxo de capital e mesmo de mercadorias. Irá crescer o protecionismo aos produtos estadunidenses, ainda que o comércio com a China possa crescer ainda.

Por fim, os que perdem. O conjunto do stablishment estadunidense e todas aas redes de mídia (TVs e jornais). Vai com eles em termos de desmoralização completa, os institutos de pesquisa que, mais uma vez, erraram feio nas suas sondagens e pesquisas. Os terroristas e seu principal financiador, que é a Arábia Saudita e seu rei decadente, Abdullah bin Abdul Aziz Al-Saud. A Casa de Saud poderá ter que se adaptar aos novos tempos e reabrir sua embaixada na Síria e se aproximar de Moscou.

Perde drasticamente o sunismo jihadistas e com ele o Estado Islâmico e a rede de terror Al Qaeda e suas subsidiárias espalhadas no Oriente Médio, como a Frente Al Nusra na Síria.

Por fim, a globalização como vinha sendo implantada no mundo, em detrimento de países inteiros, deve sofrer profundas modificações. O livre mercado e mesmo o modelo neoliberal podem ficar em cheque. Aqui o paradoxo é que governos reacionários o implantaram na década de 1970, como Reagan e Thatcher e outro governo reacionário como o de Trump poderá alterá-lo.

Esse paradoxo de governos reacionários e de partidos conservadores tomarem medidas que a esquerda teria mais dificuldades em tomar. Não nos esqueçamos que foi Nixon que se aproximou da China e Rabin que assinou os acordos de paz de Oslo de 1993.

Sabemos que o Trump candidato será diferente do Trump presidente. Costumo dizer que ao ser eleito presidente dos Estados Unidos qualquer que seja a pessoa, ele passa a ser chefe de um império e sofre pressões de toda natureza. Sabemos que esse nosso combalido mundo vai mudar. Só esperamos que não seja para pior. Vamos conferir.




*Lejeune Mirhan é Sociólogo, Analista de Política Internacional. Foi professor de Sociologia da Unimep. Presidiu a Federação Nacional dos Sociólogos e o Sindicato de São Paulo. Foi Vice-Presidente de Relações Internacionais da Confederação Nacional das Profissões Liberais. Possui nove livros publicados nas áreas de Política Internacional e Sociologia. É colaborador dos portais Fundação Grabois, Vermelho e da revista Sociologia da Editora Escala.






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