Brasil

9 de outubro de 2016 - 12h35

Conviver com a seca é aprendizado constante do povo do semiárido


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Conviver com a seca Conviver com a seca
Essa melhoria vem de um fator já conhecido: a luta e a resistência popular. Soma-se a isso as diversas iniciativas da sociedade civil organizada.

João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, aponta que, neste momento, o que mais pesa é o fato de ser o quinto ano consecutivo de seca. “Não temos água nos açudes. O açude de Jucazinho (PE), que abastecia muitos municípios, por exemplo, secou. A forma imediata de resolver esse problema foi levar caminhões – pipa. Mas, a tendência dessa seca é piorar. Pois a quadra chuvosa da nossa região só acontece a partir de fevereiro”, observa o pesquisador.

Apesar desse cenário crítico, a população tem conseguido lidar com esse fenômeno de forma mais positiva. “Estamos vivendo um dos maiores períodos de estiagem do Semiárido brasileiro e observamos que não houve morte humana e que não houve forte processo de migração campo/cidade. Muitas políticas que incidiram no Semiárido permitiram que as famílias ficassem”, reflete Glória Araújo, coordenadora da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) na Paraíba.

Diante disto, Glória afirma que a seca não é um problema. “A seca é um fenômeno natural e precisamos conviver com ela. O problema está nas desigualdades sociais, na concentração da terra e da água. Isso é um problema. É possível conviver com o Semiárido e um conjunto de experiências de organizações mostram comprovam isso.

João Suassuna compartilha dessa visão e traz o exemplo do Programa 1 Milhão de Cisternas, desenvolvido pela ASA. “Essa é uma saída muito interessante e que fornece água para o povo nordestino beber. As cisternas, enquanto tecnologia social, conseguem captar e armazenar água da chuva e permitir que as famílias tenham água também para cuidar da produção em períodos que não chove. Por isso podemos dizer que o cenário no Semiárido está mudando”, ressalta.

No Rio Grande do Norte, onde cerca de 75% dos municípios passam por escassez de água, a família de Dona Fátima e Seu Manoel tem conseguido produzir alimentos para consumo e ter água para beber. A filha do casal, Macioneide Lopes, 34 anos, conta que a chegada da cisterna há oito anos e a produção por meio do quintal produtivo tem sido uma experiência importante. A propriedade tem 2,4 hectares e produz uma diversidade de alimentos.

“As cisternas são nossa fonte de água e garantem que a gente possa produzir os alimentos para nosso consumo e que a gente possa fazer as coisas de casa e ter água para beber. Antes era bem mais complicado conseguir água. Mas a gente fica preocupada também, porque se não chover até o final do ano, vai ficar mais difícil. Sem água a gente não planta e não come”, afirma Macioneide.

Na comunidade de Cabaceira, município de Canhotinho, em Pernambuco, as agricultoras e agricultores também tem conseguido passar por essa estiagem abastecidos de água e produzindo, apesar das dificuldades. Ednilza Santos, 49 anos, afirma que está faltando água nos açudes, mas que as cisternas tem conseguido assegurar a comunidade. “Temos conseguido plantar verduras e outros alimentos para nossas famílias. É um período muito crítico, pois estamos a mais de 90 dias sem chuva, mas as cisternas tem nos abastecido. Antes eu pegava carro de boi emprestado para ir buscar água num poço longe da minha casa”, conta a agricultora.

Transposição

Apesar de ser um fenômeno antigo e conhecido, como já apontado, as formas de lidar com a seca tem encontrado divergências entre povo, poder público e pesquisadores. A transposição do Rio São Francisco, iniciada em 2007 e com nova previsão de entrega para 2016, tem sido questionada. “Tenho restrições fortes sobre essa transposição. Há 20 anos estudo essas questões e sempre me posicionei contrário. O Rio São Francisco está limitado e serve para múltiplos usos. 95% da energia do Nordeste vem dele, serve para irrigação de cerca de um milhão de hectares e fornece água para uma centena de municípios. Por isso, teremos problemas muito sérios quando essa obra for inaugurada”, reflete João.

Glória Araújo pontua que a transposição não trará impactos positivos para a agricultura familiar, tampouco para o próprio rio. “O rio está perdendo a sua vida. Penso que para trazer qualquer inovação, é necessário que olhar para a natureza daquele lugar. A vazão do Velho Chico já reduziu muito. Ele está ficando assoriado e precisa ser cuidado. O velho Chico está morrendo. Não se cuida dele, precisa ser cuidado”, coloca.

“Esse alto investimento não vai para as famílias dessa região. Beneficia diretamente o agronegócio, sabendo de todos os prejuízos que isso traz para o meio ambiente e para a população. O Semiárido brasileiro é o que mais chove no mundo. Desenvolver tecnologias sociais que se esparramem pela região de forma descentralizada é um caminho possível e eficaz”, conclui Glória.

“Nós temos que fazer uma nova avaliação das possibilidades hídricas do São Francisco. Uma possibilidade é juntar os volumes possíveis do Chico, dos açudes, poços e cisternas e criar uma infraestrutura, na qual o São Francisco seja usado de forma complementar. Esse é um planejamento para médio e longo prazo. A transposição como resolução do abastecimento, é o menor caminho para matar o rio”, explica João Suassuna.

O pesquisador conclui que a situação atual é resultado de uma falta de planejamento e da crença da infinitude da água. “Não há planejamento do uso dos recursos hídricos no Brasil e muito menos no Nordeste. Colocaram na cabeça que o rio tem volumes infinitos e pode ser usado a bel prazer. Dão muita importância as vontades políticas, mas elas não podem estar em hipótese alguma acima das possibilidades técnicas de se resolver as coisas. Água é um bem natural finito e tem que ser usado com muita cautela”, finaliza.


Fonte: Brasil de Fato

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