Brasil

3 de outubro de 2016 - 15h17

Importar plataformas é parte do desmonte do setor naval brasileiro


Patrícia Santos / Banco de Imagens Petrobras
   
No Brasil havia em 2015 um total de 32 estaleiros marítimos instalados e em funcionamento, sendo 15 estaleiros no ERJ. Depois do ERJ, se destacam as bases de construção naval, na região Sul com 7 estaleiros e o Nordeste com 5 estaleiros.

No total 10 estados possuem bases de construção naval o que evidencia a expansão do setor pelo país, na década entre 2005 e 2015, quando a grande maioria atendia a demanda de embarcações ligadas aos serviços de apoio à exploração de petróleo offshore.

Em junho de 2014, o secretário estadual de Desenvolvimento do ERJ, Júlio Bueno disse, em seminário promovido pela Firjan e pelo Sindicato Nacional da Indústria Naval e Offshore (Sinaval): “saímos de sete mil empregos no país e quatro mil no Rio para 78 mil postos de trabalho, sendo 30 mil apenas em nosso estado”.

Estes dados fazem parte das investigações da minha tese de doutoramento no PPFH-UERJ — em fase de redação — que analisa o que passei a chamar da Tríade: Petróleo–Porto–Indústria Naval, como um dos eixos do Desenvolvimento Nacional.

Como praxe adotei durante toda a fase de pesquisas e investigações parte daquilo que vem sendo levantado e analisado.

Assim, eu tenho trazido para este espaço contribuições para um debate mais amplo, entendendo que não faz sentido esperar a conclusão de uma tese para que as contribuições da pesquisa sirvam para além das discussões acadêmicas.

Assim, no dia 26 de julho passado este blog trouxe aqui um texto que analisava os problemas da tríade e o desemprego na indústria naval, diante da fase de colapso do “ciclo petro-econômico”. Na ocasião já se falava na perda de mais de 12 mil empregos em Niterói e quase 40 mil em todo o país.

Pois bem, é com este propósito, que ao ler na mídia, a matéria do jornalista Nicola Pamplona, da Folha de São Paulo com o título “Petrobras quer trazer do exterior plataforma para área do pré-sal”, depois comentada no blog Conversa Afiada e Tijolaço, respectivamente, dos jornalistas Paulo Henrique Amorim e Fernando Brito, eu resolvi ampliar o debate do tema, como é também praxe na mídia alternativa e de atuação colaborativa.

Assim, há que se lamentar a decisão da direção da nossa estatal do petróleo, seguindo orientação deste governo Temerário, em acabar com todo o resquício que ainda possa existir, da ideia de construção e adensamento da cadeia produtiva da indústria naval nacional.

Ela foi fruto da ideia e do planejamento de uma política de conteúdo nacional, sustentada no que eu chamo do nosso modelo tupiniquim Tríade: Petróleo-Porto-Indústria Naval. Esta tríade tem nesta “mercadoria especial” que é o petróleo, um enorme poder de arrasto sobre a demanda dos sistemas portuários e do sistema marítimo, em que está inclusa a indústria naval com os estaleiros.

Os criminosos desvios de recursos verificados nestes projetos devem ser rigorosamente punidos. Porém, os projetos nacionais de engenharia e tecnologia do conjunto da tríade não podem ser achatados e transformados em terra arrasada. Isto é um crime maior que o primeiro que lhe deu origem.

Ao observar no mapa abaixo como espacialmente a indústria naval foi se espalhando pelo litoral brasileiro, se tem uma breve noção do porte do atual desastre, decorrentes das medidas que estão se sucedendo nos três e interligados setores.

A partir deste desmonte, também como cadeia – só que destrutiva e não produtiva -, se destituiu uma presidenta que sonhou e ousou tentar impedir novos esquemas e assim corrigir os desvios.

Porém, como a emenda e o soneto fazem parte de um único e uníssono coro, agora se enterra de vez o objetivo de fazer o Brasil competir nesta complexa cadeia de valor global.

Em todo o mundo (especialmente os mais capitalistas) a indústria naval é fortemente apoiada e sustentada por políticas e regulação pública, não apenas através de demandas em embarcações para as suas marinhas e seu comércio internacional, mas de forte financiamento e proteção.

Desde 2013/2014 eu insistia no debate de que em meio aos erros e às confusões, se travava um debate e uma disputa entre dois projetos e visões: de um lado o social nacional desenvolvimentismo e de outro, a neo-dependência liberal de mercado. O golpe tirou o poder de um lado e entregou ao outro, sem votos.

Enfim, em nosso Brasil, restou ao povo o desemprego, enquanto a nação retorna ao retrocesso neoliberal da dependência consentida e subordinada de outrora. Haverá resistências!

* Engenheiro, professor do Instituto Federal Fluminense e pesquisador do Programa de Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).




 Fonte: Blog do autor

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