8 de agosto de 2016 - 10h06

Canecão reúne Chico, Zélia Duncan e artistas no coro "Fora Temer"


Divulgação Ocupa MinC
Chico Buarque Ocupa MinC Chico Buarque Ocupa MinC
Artistas como Júlia Lemmertz, Chico Buarque, Zélia Duncan, Andrea Beltrão, Tico Santa Cruz, Gregório Duvivier, BNegão, Chico Chico e Duda Brack se uniram ao movimento Ocupa MinC para o coro recorrente entre a classe artística de “Fora Temer”.

A plateia, que parecia ter ensaiado o grito de guerra por semanas, pedia a saída do presidente interino do poder, além de acender visibilidade para questões culturais do nosso país. Sempre atentos aos movimentos da urbe carioca, nós, da coluna HT, fomos até a icônica casa de shows, que nasceu no final dos anos 60, para acompanhar todos os detalhes desse marco na história nacional.

Assista abaixo Caetano declarando aberto o "Fora Temer":



A casa de shows estava fechada, decorrente de uma briga judicial que se enrola há mais de seis anos. O processo envolve a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e os donos da casa de show. 

Sobre o Movimento Ocupa MinC.

Para não perder nenhum detalhe: o movimento nasceu em maio deste ano, logo após a presidente Dilma Rousseff ser afastada de seu cargo pelo processo de impeachment e o então vice Michel Temer ser empossado e extinguir em seguida o Ministério da Cultura – decisão que reconsiderou posteriormente, por causa da repercussão negativa do caso. No entanto, mesmo com o retorno da pasta, o movimento se firmou como foco permanente de protestos contra o então novo representante nacional. Após 73 dias ocupando o Edifício Capanema, no Rio, o grupo formado por 150 pessoas migrou para a antiga casa de shows, na madrugada da última segunda-feira, em Botafogo, e garantiu que não tem data para deixar o local.

De acordo com Bia Lessa, diretora do evento, é fundamental que a população entenda que o manifesto vai muito além da crise política instaurada no Brasil. “O desejo da saída de Temer é um ponto de partida, mas o que está acontecendo vai muito além. É uma ideia estética e ética de ocupação de espaços públicos. E conduzida de uma forma que é mais até do que democracia. Eles decidem as coisas não por votação, mas por consenso”, ressaltou ela, que já realizou shows de artistas como Maria Bethânia no palco do Canecão.



Apesar de todos os embargos, a noite seguiu favorável para os fãs da democracia brasileira. Além dos representantes famosos, grupos feministas, indígenas, LGBTs e anti-racistas deram um show à parte, mostrando que é possível o convívio entre todas as formas e estilos de vida. De acordo com a cantora Zélia Duncan (foto acima), o país passa por um momento de estagnação. “O meu patriotismo me trouxe aqui. Ver esse lugar tomado por belezas como ele sempre foi, além de ver a cultura no lugar onde ela merece, conforta nossos corações. A cultura de um povo é a cara desse povo. Eu espero que a gente consiga mostrar a face bonita do Brasil novamente. A gente está vivendo uma situação ilegítima. Nesse momento, eu estou totalmente apartidária e lamento muito a situação que nós estamos. A gente não tem mais para onde correr. O governo do Temer é ilegítimo e infelizmente a Dilma perdeu o prumo. A gente precisa tomar as rédeas e saber exatamente o que a gente quer. Nesse momento nós estamos à deriva”, avaliou ela, que já recebeu diversas críticas em suas redes sociais por seu posicionamento.

Atuante em diversas manifestações, Tico Santa Cruz (foto abaixo) já arrumou muita treta na web. Sem medo de retaliações, o vocalista da banda Detonautas, escolheu três músicas de Cazuza (“O Tempo Não Para”, “Blues da Piedade” e “Ideologia”) para a ocupação. Em determinados momentos das canções, o cantor brincava com versos usando as palavras “golpistas” e o já clássico “Fora Temer”. “Eu tenho participado das ocupações e tenho acompanhado o movimento desde o início. Eu fiquei até um pouco chateado com a reintegração do Capanema, mas faz parte também dessa questão da luta e da resistência. Achei genial a ideia de terem vindo para o Canecão. Eu fico arrepiado de estar aqui dentro por ser um espaço onde assisti muitos shows e tive a oportunidade de fazer um show muito importante para a minha carreira. É um local que não poderia estar lacrado e morto. Apesar da resistência política, essa ocupação oferece ao Canecão voltar a ser o que sempre foi: uma referência cultural e artística importantíssima”, avaliou ele, que também comentou o processo de impeachment.

Tico Santa Cruz (Foto: Página Pessoal no Facebook)

“Ficou claro que isso não passa de um julgamento de caráter político. O próprio Michel Temer assumiu isso. As características jurídicas que deveriam ser relevadas para se levar à diante esse processo foram jogadas no lixo. Ninguém pode usar o parlamento para tirar uma presidente legitimamente eleita. Eu não votei na Dilma, mas eu não aceito que as pessoas façam essa movimentação de retirada da democracia como está sendo feita. O impeachment está na lei, mas com artifícios que devem ser respeitados, coisa que não está acontecendo. Eu fico feliz por não apoiar esse movimento golpista . Vai ser vergonhoso explicar isso no futuro”, disse o cantor.
Pouco antes da meia noite, quem pegou todos de surpresa foi Chico Buarque. O intocável artista fez uma aparição relâmpago ao entoou a canção “Apesar de Você”, composta nos anos 70s, ao lado do deputado federal Jean Wyllys eJandira Feghali. A música, banida das rádios na época da Ditadura Militar, fez com que os presentes cantassem em uma só voz o icônico refrão “apesar de você amanhã há de ser outro dia…”. Ao final da música, o compositor levantou o coro de “Fora Temer”e se despediu da plateia que se manteve esfuziante com a presença do artista.

Desde de sua criação, o objetivo da ocupação é reativar o espaço com uma série de atividades culturais, artísticas e pedagógicas, aos moldes do que ocorreu ao longo dos 73 dias em que o Ocupa MinC se manteve no Palácio Capanema. Na primeira manhã de interação no Canecão, os integrantes do Ocupa MinC realizaram um mutirão de limpeza no espaço, que está fechado e inativo desde outubro de 2010, retirando animais que já habitavam no local, removeram entulhos e consertaram encanamentos e fiações em curto-circuito.

Afastada da telinha desde sua divertida passagem pela série “Tapas & Beijos”, a atriz Andréa Beltrão recitou um texto de Paulo Leminski e garantiu a coluna HT que faz parte da turma de artistas que pede a volta da presidente afastada Dilma ao poder. “Eu acho até bom essas coisas todas estarem acontecendo para gente ver bem as pessoas que a gente elege. Espero que rapidamente tudo se restabeleça e que a presidente que foi eleita volte ao cargo, porque esse governo não foi eleito. Eu não quero o impeachment. Eu quero que o governo que foi eleito termine o seu mandato normalmente. Não importa que partido seja”, disparou.



E a noite entrou madrugada a dentro sem perder o espírito de revolução. Tanto nos espaços da casa de show, quanto no palco, gente de todo o tipo circulava pelo Canecão. Homens vestidos de mulher, mulheres cobertas apenas por purpurina, travestis, negros, brancos, héteros e índios se misturavam em uma celebração única pela cultura nacional. Segundo Gregório Duvivier, esses movimentos são fundamentais para reforçar a nossa história. “A vontade de perpetuar o Ocupa Minc, que foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram esse ano, certamente a mais significativa em termos de cultura, me traz até aqui. Participei muito lá no Capanema, mas fiquei muito abalado pelo fim e fiz questão de estar aqui nesse primeiro dia com eles. Achei excelente a escolha do Canecão, por ser uma das casas de show mais importantes do nosso Brasil. Aqui que durante 40 anos nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa lançavam seus trabalhos. É urgente reabri-lo, é um local mágico”, revelou.

Como não poderia ser diferente, o ator, humorista e colunista se mostrou otimista em relação à postura que a sociedade vem retomando com sua inquietude e indignação contra governos que, segundo ele, não representam ninguém. “Esses movimentos são importantíssimos neste momento em que o país assiste um golpe de Estado. O nosso sistema político é nojento. Mas tem me dado uma impressão de que há uma saída para a crise. E não é uma saída pela austeridade ou institucional. É uma solução participativa e popular. Existe uma crise da democracia representativa. Não temos que ficar reclamando que não existe ministério da Cultura, devemos na verdade fazer o nosso próprio ministério de uma forma ainda melhor que o original”, completou."



Fonte: Jornal do Brasil

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