Brasil

14 de dezembro de 2016 - 13h25

Aldo Arantes: D. Paulo Evaristo Arns, homenagem à coragem do Cardeal


Acervo Memória da Democracia Anistia
Dom Paulo Evaristo Arns, em 1974; no Natal daquele ano, o arcebispo de São Paulo sugeriu a várias organizações a articulação de uma campanha pela anistia. Dom Paulo Evaristo Arns, em 1974; no Natal daquele ano, o arcebispo de São Paulo sugeriu a várias organizações a articulação de uma campanha pela anistia.
Destaco sua coragem pessoal. Sua atitude era uma afronta ao regime militar. Isso ficou claro quando, depois da Chacina da Lapa, em 1976, fui preso. Na tortura os carrascos xingavam o cardeal de todos os nomes imagináveis. Manifestavam um ódio imenso ao se referir à figura dele.

D. Paulo Evaristo Arns teve papel importante na vida, e na defesa da integridade pessoal, de incontáveis militantes democráticos.

Quando eu estava sendo torturado, minha mãe esteve comigo no DOPS. Estiveram comigo em momentos diferente os advogados Luiz Eduardo Greenhalg e , Marcelo Cerqueira.
Constatada a tortura minha mãe visitou o cardeal, a quem fez as denúncias sobre a situação minha situação.

Na oportunidade o Cardeal informou que o comandante do II Exército, General Dilermando Monteiro ao assumir o posto após os assassinatos Manoel de Fiel Filho e Vladimir Herzog, o procurou afirmando que enquanto estivesse no comando não haveria tortura.
E, quando tivesse indícios disso, autorizaria que um representante do cardeal visitasse o DOI-CODI.

Face aos acontecimentos minha mãe perguntou ao Cardeal o que deveria fazer ao que ele afirmou que ela deveria denunciar à imprensa – na época estava iniciando uma cera abertura à liberdade de imprensa. Mas alertava que poderia acontecer com ela o que aconteceu com seu filho. Ela afirmou que faria qualquer coisa em minha defesa.
Tomei conhecimento dessa conversa mais tarde, depois da anistia, ao falar com d. Paulo, quando fui a ele agradecer seu empenho.

Soube também que, logo depois – em 1977 – o general Dilermando o procurara; queria que o cardeal celebrasse a missa em 31 de março, pelo aniversário do golpe militar.

O cardeal não aceitou. Após várias tentavas o general resolveu falar pessoalmente com D. Arns. Na conversa insistiu que a celebração da missa seria muito importante para ele. Diante da insistência d. Paulo afirmou: vamos inverter os papéis – o senhor é o cardeal e eu o general. Quando assumiu o comando, o senhor me visitou e, sentado nessa mesma cadeira, diante do crucifixo que está na parede atrás de mim, o senhor me garantiu que não haveria torturas. E que daria licença, se houvesse indícios, para que um representante meu visitasse o DOI-CODI. Mas o Aldo Arantes e seus amigos foram torturados. E uma Delegação Internacional de Juristas Católicos, a meu pedido, foi proibida de visitar os presos.

Diante dessa situação, eu sendo o general e o senhor, o cardeal, pergunto: o senhor celebraria a missa? E o general Dilermando abaixou a cabeça nu sinal de que não celebraria.

Hoje, nos 50 anos de sua ordenação como bispo, presto homenagem a d. Paulo por sua coragem pessoal; por seu destemor. Pela luta que travou, contra as torturas, os assassinatos políticos, contra a repressão da ditadura e pela democracia.




Artigo publicado originalmente em 2 de agosto de 2016, pro ocasião das homenagens aos 50 anos de bispado de D. Paulo Ecaristo Arns.



*Membro do Comitê Central do PCdoB; foi preso pela ditadura em 1976, por ocasião da Chacina da Lapa.

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