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28 de julho de 2016 - 9h38

Festival debate falta de diversidade na mídia tradicional


Foto: Agencia Brasil
Festival Latinidades debate democratização da comunicação em Brasília Festival Latinidades debate democratização da comunicação em Brasília
A democratização da comunicação no país, marcos regulatórios relacionados à comunidade afrodescendente e a inserção do negro nas mídias tradicionais foram temas discutidos no Festival.

Morando no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, há seis anos, a jornalista Thamyra Thâmara disse que descobriu logo na graduação a falta de diversidade na mídia tradicional e precisou pensar em outras narrativas para comunicar a realidade da periferia.

Para Thamyra, a história de grupos marginalizados, como negros, mulheres e LGBTs, é sempre “contata de cima”. “A mídia tradicional acaba criando estereótipos a todo momento. Estamos tentando contar a nossa história, temos que ocupar os espaços e colocar os nossos códigos ali, dizer que o que fazemos também é cultura e inovação, que temos muito a ensinar”, disse.Thamyra é idealizadora do Gato Mídia, um projeto de convivência e aprendizado em mídia e tecnologia para jovens de espaços populares. O termo gato vem de gambiarra e, segundo ela, a brincadeira com o nome tem relação com a criatividade de quem vive na favela e não é representando pelos grupos oficiais. “É uma forma de resistir e criar”, disse.

Ela explicou, entretanto que a dificuldade de todos que trabalham com mídia periférica e alternativa é o financiamento para continuar produzindo. “O jovem de classe média consegue viver daquilo que ele cria, o jovem preto da favela, não. Esse é um grande desafio do comunicador popular, ser reconhecido como comunicador e viver da sua criatividade”, disse.

A cantora Thabata Lorena, do Distrito Federal, contou que vive de bicos e do seu trabalho como arte-educadora. Ela é cantora de RAP, mas disse que é um cenário ainda muito machista. “Todos os espaços de poder estão acostumados com a presença masculina. Mas o cenário é muito mais favorável hoje do que já foi”, disse.

Para ela, o cenário musical também é “embranquecido”. “O mundo foi comunicado de uma forma que não é pra gente. A população negra tem produzido nesse contexto da diáspora em vários lugares do mundo, são os maiores produtores do século 21. O jazz, o rock, tudo que a gente vê embranquecido é porque quando chega lá é alguém branco que vai mostrar. A cultura negra está na moda, mas o negro não”, disse.

Thabata falou sobre a riqueza de informação que é a música negra, indígena e contemporânea brasileira. “Aí tem essa história da resistência. Mas se passar tanto tempo resistindo, não vamos existir. Não queremos estar sempre no duro, no osso, queremos a abundância que vida tem”, afirmou.

“Mas tem coisas que não conseguimos pautar. E vi que poderia usar meu bom humor para dar o recado. No veículo tradicional, não vão falar de relacionamento abusivo, às vezes o cara pratica um relacionamento abusivo, ele não vai pautar isso. Porque são eles mesmos que estão no comando da mídia tradicional, são homens brancos”, disse.A jornalista baiana Maíra Azevedo também falou no Festival Latinidades sobre a Tia Má, sua personagem nas redes sociais, que fala sobre empoderamento feminino e relacionamentos abusivos. Maíra é repórter de mídia tradicional de um dos jornais mais antigos do Nordeste, A Tarde.

Segundo Maíra, entretanto, existem os critérios de noticiabilidade. “Nós não estamos em nenhum deles. Estamos sempre morando à margem, até quando morremos em quantidade é só para virar dado estatístico. Nossas mortes não chocam tanto, não geram mais notícia, já fazem parte do cotidiano”, disse, destacando que é preciso usar os meios alternativos para pautar a mídia tradicional.

“Por isso, as redes sociais são fundamentais, quando a gente consegue fazer com que um assunto entre nos trending topics, de fato a mídia tradicional vai ter que falar sobre isso. Precisamos criar mecanismos para burlar o boicote que existe na mídia tradicional. A população negra não se vê porque historicamente nunca foi interessante que a gente falasse”, argumentou.

Democratização

Na mesa de abertura do Latinidades, na última terça-feira (26), o tema debatido foi sobre a democratização da mídia. A jornalista e âncora do jornal Repórter Brasil Tarde, TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Luciana Barreto, ressaltou a importância do protagonismo negro dentro do jornalismo no Brasil e o impacto dessas referências para a juventude do país. A jornalista destacou ainda a importância do papel da cobertura jornalística na desconstrução de estereótipos da identidade negra.

“A televisão reproduz estereótipos e viola nossa identidade”, disse. Para Luciana, é necessário que haja ocupação dos espaços na comunicação por minorias para que as temáticas sobre esses grupos não sejam retiradas do noticiário nacional ou veiculados de forma equivocada. “Os meios de comunicação estão destruindo, massacrando a nossa identidade. Temos que brigar para ocupar esse lugar porque é uma forma de resistir a essa cultura”.

Políticas afirmativas

As políticas afirmativas voltadas para afrodescendentes, como sistema de cotas, foi um dos aspectos abordados pela jornalista e secretária executiva do Conselho Curador da EBC, Juliana Cézar Nunes. Para ela, a articulação do movimento negro ajudou a potencializar o uso das redes sociais como instrumento de conexão e empoderamento da comunidade negra.

Festival

Criado em 2008, o Festival Latinidades marca as celebrações do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. A 9ª edição do evento tem como tema a comunicação e as atividades se concentram no Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios.

Organizado pelo Instituto Afrolatinas e Griô Produções, o evento deste ano tem a parceria das Nações Unidas no Brasil e patrocínio do governo do Distrito Federal.Na programação, estão previstos debates, conferências, lançamentos de livros, oficinas, cinema, exposição de fotos, feiras e shows, entre outras atividades. O festival ainda tem atrações para crianças no Espaço Infantil, com brincadeiras, roda de conversa e bailinho. A programação completa está disponível no site www.afrolatinas.com.br.


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