Cultura

24 de junho de 2016 - 15h30

Setenta e cinco noites frias: Joo Carlos Haas Sobrinho


Arquivo
Joo Carlos Haas quando trabalhava como mdico em Porto Franco, GO Joo Carlos Haas quando trabalhava como mdico em Porto Franco, GO
Prosa Poesia e Arte homenageia sua memria neste So Joo em que ele completaria 75 anos de idade com um texto de Snia Maria Haas, irm do mdico do Araguaia.

Leia na ntegra o texto de Snia Maria Haas: 

Rio Grande do Sul, So Leopoldo, 1941. Noite fria de So Joo. Nossa me, ansiosa, enfrentava a madrugada espera da chegada do segundo filho.

Na rua Primeiro de maro, nmero 514, a janela e entreabria e os raios da lua banhavam a sala pequena do sobrado dos Haas. Nosso pai, Ildefonso, catlico que sempre foi, rezava para que a esposa Ilma Linck tivesse uma boa hora do parto. Contou-me ele, nos idos de 1980, quando conseguiu expor seus sentimentos em relao histria do filho desaparecido na ditadura, que nos primeiros momentos do ecoar do choro de Joo Carlos, uma luz forte entrou pela vidraa embaada do quarto alertando: “Cuida bem deste teu filho, pois ele especial.”

Joo Carlos foi um menino alegre, tinha no olhar o brilho da liderana. Jogava futebol, organizava festas, brincava com os animais, ajudava a me a cozinhar, escrevia poemas e artigos no jornal da escola - um aluno nota dez, cheio de medalhas no peito. Fez-se homem e seguiu firme em busca de seus ideais, atitude difcil para a famlia entender. Joo Carlos escolheu a Medicina e ao longo do curso percebeu que esta escolha poderia conduzi-lo a algo maior: dedicar sua vida ao prximo. E assim seguiu, se afastando das ruas de nossa cidade. Ficamos ns, familiares e amigos, navegando em um vazio de obscuridade.

Em 1966 ele deixou o nosso convvio, rompeu os limites de seu horizonte e pisou firme nos trilhos de um novo mundo, onde o homem estaria no centro, como majestade, livre e forte. Assim ele quis, assim sonhou e lutou, at tombar em 1972, na regio do Araguaia.

As noites de 24 de junho sempre foram frias, porm, para nossa famlia, aps 1966, foram ficando glidas, carregadas de saudade e tristeza.

Na infncia da rua Primeiro de maro, havia bandeirinhas e fogos na noite de So Joo: era a comemorao da vida. Recordo o profundo silncio que ficou aps termos cincia de seu desaparecimento, em 1979, 7 anos aps a sua morte. Em cada canto da casa parecia haver uma orao a acalentar a esperana de que era tudo um sonho, no era verdade. Mas a realidade veio batendo nossa porta aos poucos, a cada notcia: o reencontro no aconteceria. Nossa me silenciava sua dor na tristeza do olhar, em todos estes aniversrios passados. At 2001, quando nos deixou, sempre fazia uma encomenda: “J mandei rezar a missa para o Joo, vamos?”, com voz embargada me ligava sempre, a cada ano, numa nostalgia ritmada pelo vazio sem respostas.

24 de junho de 2016: 75 anos de nascimento de um amigo do povo que no mediu esforos para cumprir sua misso. Seu Ildefonso e Dona Ilma partiram sem poder sepultar o filho que tanto amaram. Talvez porque, na verdade, ele esteja mais vivo do que nunca, entre ns. No s na memria dos que com ele conviveram, como tambm em tantas homenagens que vieram depois.

Joo Carlos Haas Sobrinho: Presente!


Do Portal Vermelho

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

ltimas Mais