América Latina

22 de junho de 2016 - 16h44

Golpe no Paraguai: 4 anos de devastação social e econômica neoliberal


Divulgação
Horácio Cartes, presidente do Paraguai Horácio Cartes, presidente do Paraguai
O presidente Horacio Cartes foi eleito pouco mais de um ano depois do golpe. Com margem estreita frente aos golpistas do Partido Liberal Radical Autêntico, o Partido Colorado voltou ao poder, depois dos quatro anos de Lugo. Era o fim do curto ciclo progressista e uma volta triunfal do neoliberalismo, com toda a legitimidade que um Estado democrático garante.

O economista paraguaio Gustavo Codas, que ocupou a diretoria geral da usina hidrelétrica Itaipu Binacional no período de 2010 a 2011, conversou com o Vermelho sobre como está seu país quatro anos após o golpe de Estado. “O golpe foi dado, supostamente, com o argumento de que o governo Lugo estava ‘pisoteando’ as instituições da República. Mas hoje, quatro anos depois, o país está entregue em um quadro muito preocupante. O contrabando, o narcotráfico e o crime organizado não somente têm penetrado nas instituições, como parecem completamente fora de controle. Obviamente isso não é de hoje, mas o descontrole completo é uma novidade”.

O governo de Lugo foi marcado por pequenos avanços sociais, mas que em um país dominado por mais de 60 anos consecutivos pelos Colorados, significavam muito. Em pouco tempo, todas as conquistas desapareceram e o novo presidente escancarou as portas para a exploração estrangeira sem nenhum pudor. Em reunião com investidores no Brasil, Cartes usou o infeliz slogan da marca de departamento C&A “use e abuse” para apresentar as beneficies de seu governo: “usem e abusem do Paraguai”. E para deixar claro que não estava enganado sobre o que disse, em outra ocasião, no Uruguai, não teve nenhum receio em afirmar que o Paraguai era como uma “mulher linda e fácil”.

Fernando Lugo assiste à sua destituição em seu gabinete no Palácio do Governo | Foto: Rafael Alejandro Urzúa

Codas acredita que um dos principais impactos negativos do golpe foi este retrocesso. Ele afirma que “o país voltou a experimentar as políticas neoliberais mais duras”. Piores até que o projeto anacrônico dos anos 90. Porém, mesmo com o apoio do Congresso e do Senado, as políticas econômicas e de segurança pública de Cartes são desastrosas. O narcotráfico atingiu o ápice do descontrole e os tão prometidos empregos não foram gerados.

Recentemente um dos grandes chefes do tráfico foi assassinado em Pedro Juan Caballero, região de fronteira com o Mato Grosso, com uma metralhadora capaz e derrubar aviões. O crime organizado agiu de forma espetaculosa. Em seguida, a polícia despreparada promoveu mais uma das tanta ações desastrosas, já características da Era Cartes, invadiu uma fazenda no interior, aparentemente sem muito preparo tático, e assassinou uma criança de três anos de idade. Além de deixar outra pessoa gravemente ferida. Não se sabe os motivos. Este é só um retrato da politica de segurança pública do presidente que oferece o país para ser usado e abusado.

Estes casos levaram o ministro secretário da Secretaria Nacional Anti-drogas, Luis Rojas, a pedir exoneração. A imprensa local anunciou que o novo ministro será indicado Pela DEA o órgão de polícia federal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, tamanha é a influência norte-americana no governo Colorado.

“Então nós encontramos um país que voltou ao passado não só porque o governo impulsiona um projeto neoliberal, mas também porque a polarização social com o empobrecimento de muitos e o enriquecimento de poucos e o enfraquecimento das instituições do Estado frente ao crime organizado são elementos muito presentes. Talvez como poucas vezes aconteceu, ou nunca, desde a redemocratização, em 1989. Isso mostra que um golpe de Estado, como sofreu o presidente Lugo, desestabiliza, polariza e coloca o país numa zona de risco muito acentuada. Um golpe de estado nunca é normalizador. É uma anormalidade que deve ser combatida”, afirma Codas.

O neoliberalismo devastador de Cartes

Segundo Codas, a estratégia do governo neoliberal de Cartes é oferecer as difíceis condições do país como se fossem uma vantagem ao investidor estrangeiro. “Houve uma atração de investimento, mas tem a ver como oferecer o Paraguai como o país onde se paga poucos impostos, baixos salários e benefícios e baixas taxas de energia elétrica. São supostas ‘vantagens competitivas’, mas que na verdade são os problemas que o país sofre”.

As políticas públicas impulsionadas por Lugo foram enfraquecidas ou extintas e não foram substituídas por um processo de investimento em larga escala, como prometido durante a campanha presidencial de Cartes. O presidente planejou transforar o país em uma imensa “fábrica de produtos de baixo valor agregado”, para o investidor estrangeiro interessado em vender no Brasil. Isso porém, em troca de abrir mão de todos os direitos sociais. “Estes investimentos não vieram em quantidade importante, e os que vieram são com a condição de que não tenha sindicatos, isso cria novos focos de conflito”, explica Codas.

Ele denuncia que o Ministério do Trabalho tem mais de 200 pedidos de criação de sindicatos não reconhecidos para que os empresários possam demitir e controlar os funcionários sem restrições. Afinal, se não há um sindicato da categoria, não há proteção trabalhista. É como se o Ministério do Trabalho fosse uma grande agência do empresariado.

A Operação Lava Jato e o Massacre de Curuguaty


Para Codas, a Operação Lava Jato está para o Brasil como o Massacre de Curuguaty está para o Paraguai. “No caso brasileiro foi uma operação muito mais sofisticada para gerar oportunidade [para o golpe]: a manipulação das informações da Operação Lava Jato”.

O Massacre de Curuguaty foi um episódio trágico que chocou o Paraguai exatamente sete dias antes do golpe e impulsionou a opinião pública a exigir o impeachment de Lugo. Trata-se de um conflito no campo, na região de Curuguaty, onde uma emboscada policial com o objetivo de expulsar camponeses de um terreno resultou em 17 mortes. Até hoje o crime não foi elucidado.

Manifestação de camponeses no lugar onde aconteceu o massacre | Foto: Mariana Serafini 


Codas explica que a direita precisa de tempo e oportunidade para voltar ao poder e nem sempre é possível fazê-lo por meio da via eleitoral. Por isso quando o cenário não é favorável, é preciso cria-lo. “Obviamente há uma ascensão da direita porque ela tem força. Foi derrotada nas urnas, mas na sociedade continua viva, na economia continua viva e na globalização continua viva. Além disso, a esquerda e seu projeto progressista encontra contradições a serem resolvidas e é necessário criar condições para o golpe. A oportunidade do imperialismo pode surgir ou pode ser provocada. No caso do Paraguai, hoje faz 4 anos do golpe e 4 anos e 7 dias do Massacre de Curuguay”.

Codas explica que tanto no Brasil, como no Paraguai, a imprensa hegemônica teve papel fundamental para construir o cenário do golpe. Nos dois casos um episódio foi manipulado e veiculado incessantemente até gerar comoção social e justificar a “necessidade de um impeachment”. “Basta pegar um evento e torna-lo um escândalo através da manipulação e da insistência. É um ambiente que se cria. Nós vimos aqui no Brasil como se criou em torno da Operação Lava Jato”.

Tanto aqui como lá, os objetivos dos golpes são parecidos: “interromper um governo democrático popular e impor uma agenda neoliberal”. Para Codas, o governo de Temer é uma volta completa ao passado. “É tão à direita que está revertendo inclusive conquistas que não são do ciclo progressista, mas dos anos 80. É uma regressão completa”.

O peão do xadrez imperialista no continente

“Aquilo que o governo dos Estados Unidos gostaria que fosse dito, que fosse colocado, o governo paraguaio está sempre à disposição para tomar a iniciativa”. É assim que Codas define o papel do Paraguai no Mercosul e nos outros organismos de integração. Um Estado pronto para “fazer o jogo sujo” a serviço do imperialismo contra a integração e a democracia.

Gustavo Codas é economista paraguaio, ocupou o mais alto cargo de Itaipu durante o governo Lugo 


O economista deixa claro que apesar do pouco peso político e econômico de seu país no cenário internacional, o governo de Cartes não tem nenhum pudor em ser quem fica “queimado” diante dos outros Estados porque “é o peão do jogo de xadrez da direita continental”.

Codas explica que mesmo a direita latino-americana tem sido “ponderada” em alguns aspectos, coisa que não passa nem perto da cabeça de Cartes. O Paraguai é o pivô da política anti-Venezuela no Mercosul, enquanto isso, o presidente Argentino, Mauricio Macri, se passa por “democrático” e “equilibrado”.

“No Paraguai as vertentes mais retrógradas da direita são ainda muito expressivas. É como um museu vivo da direita do século 20”, finaliza Codas.



Do Portal Vermelho

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