Brasil

8 de janeiro de 2016 - 15h24

A poesia de Edelson Nagues


Arquivo pessoal
Edelson Nagues Edelson Nagues
É autor dos livros Demasiado humano, de contos, e Águas de clausura, de poesia (vencedor do 10º Prêmio Literário Asabeça). Em 2013, participou do CD “Anand Rao música poemas de Edelson Nagues” e em 2015 organizou a coletânea Respeitável público: histórias de circo e outras tragédias (Editora Penalux).

Leia as poesias de Edelson Nagues:

Dialética do mal

Em memória das vítimas da “Chacina de Unaí/MG”

Um homem
ao sol,
sobre a terra.

O sol brilha
o suor
na cara
lanhada.

A mão,
a terra,
a enxada,

sob o sol.

A mão
a mover
a enxada.

A mão
a limpar
o suor da cara.

A semente,
o sonho,
a ameaça.

A semente
traz em si
o sonho
do alimento,
no moto-contínuo
da vida.

O homem
sonha a semente
a gerar o alimento.

A arma
arma
a armadilha.

O sonho
desfeito
no engodo,
na labuta pelo pão
para os filhos.

O sonho é livre.
O homem, não.

A mão –
peça central
na engrenagem
da exploração.

A mão
que move a enxada,

sob o sol.

A mão
que empunha
a espingarda,
que brilha ao sol,
(na “ameia”
da ameaça).

Enxada e espingarda
a gerar solidões
diferentes
(ainda que
tão próximas).

O dono da terra
sonha-se
senhor de um
(o da enxada),
sendo patrão
do outro
(o da espingarda).

A semente do mal,
em terra fértil,
cresce,
floresce,
frutifica.

O dono da terra
beija a boca sensual
da bela esposa,
com seu colar
de diamantes.

O dono da terra
beija os rostos
rosados
dos filhinhos
sorridentes.


O dono da terra
vai para trabalho,
feliz,
na Cia
Enxada & Espingarda
Ltda.

Na sala ampla,
suntuosa,
confere números
robustos:
saldo bancário,
impostos (sonegados),
aplicações na bolsa
de valores outros.

Aos domingos,
a missa,
os donativos,
a bênção.

Beija a mão
do padre
e os pés
do santo
(de barro).

Depois,
o passeio
e o jantar
com a família.

Na fazenda,
alhures,
a enxada nervosa
já não remove
a terra;
já não a move
a mão resignada,
mas o ódio
coagulado.

A mão
da espingarda
comete um vacilo;
e
num átimo,
a testa
conhece o brilho
do aço frio
da vingança.

Na rápida
reação,
o estampido
e o baque
de mais um corpo
ao solo,

sob o sol.

Longe dali,
o dono da terra
olha-se no espelho
dos olhos
do primogênito,
que traz em si
sua semente.

Sobre a temporalidade dos sonhos


Sonhos de uma época
banidos da pauta
da canção do mundo.

Mas o poeta sabe
que sonhar é força
que se impõe ainda.

Por detrás dos muros,
por sobre os escombros
de outros sonhos tantos.

Mesmo que obtusos
e infantis pareçam
aos olhos do míope.

Pois sonhar é fome
que a si mesma come,
para nutrir a vida.

Que explode, sêmen
de lucidez atávica,
a fazer-se bússola,

apontando o norte,
leste ou estibordo.
O rumo não importa.

O que vale, sempre,
é tanger delírios,
livres, fluidos, soltos.

Que o real se molda
a qualquer dos sons,
ainda que demore.

Pois também o tempo
é sonho sonhado
no tocar das horas.

E o homem mesmo
é tão só um sonho
que se sonha sempre.

Já ao poeta cabe
reescrever a pauta
de um novo tempo.

Palafitas


Sonhos plantados
na lama

(paisagem de aranhas
paralisadas)

– as sementes pecas.

A lama fecunda
a miséria ancestral,

gera
a memória de si,
por sobre.

No ventre do infortúnio
pulsa
a realidade pútrida.

Leveza há,
nas formas
e nos sonhos.

Tudo que é leve
se dissolve na lama.




Du/elo


O frio metal
rompe as fibras
do corpo
do outro.

O ato
perpetua o vínculo
entre
matador
e morto.

A vida
feita irmã
da morte.



Os homens ocos de Eliot

“Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!”
(T. S. Eliot)

Eles estão chegando:
os homens ocos de Eliot.
E trazem, em seus alforjes,
armas, munição e ganância,
e alguns projetos ocultos
de poder e de vingança,
nos vãos da subserviência.

Vêm em cavalos cansados
de um cavalgar errante
por abismos e florestas
e, sobretudo, desertos,
que se lhe incrustam ao ser.
Tanto, que os petrificam,
no refluxo dos sentimentos.

Esses tristes homens ocos
não sabem da minha dor,
que é tão só a dor do Homem
– a única e mesma e sempre.
A qual me consome aos poucos
e assim me mantém vivo
(como se vivo eu fosse).

Esses tolos homens ocos
não sabem sequer de si.
E tramam, uns contra os outros,
o mesmo aniquilamento
de que fogem, sem roteiro,
juntos, embora sozinhos,
no desencontro das tramas.

Os homens ocos de Eliot
não passam de homens comuns:
é você, sou eu, somos todos,
nesta busca, sem sentido,
de sentido para o nada,
do mundo em outros mundos,
do amanhã no ocaso.

Os homens ocos de Eliot
são mais ocos do que homens,
mais áridos que os desertos,
mais escuros que os abismos,
mais árvores do que florestas.
Esses tristes, tolos homens
são o ocaso do Homem.


Sobre a palavra

1
A palavra
é água
que escorre
indômita
pelos rios da fala
por entre as gretas
do silêncio.

Até o encontro
com outras
paláguas
no oceano
ora sereno
ora ruidoso
do diálogo.


2
Quando a palavra
gera na boca
(sobre o chão
rachado da língua)
o cascalho pedregoso
do silêncio
é que o momento
de pari-la
já terá se tornado
tempo de estio.


4
O surdo-mudo
é quem melhor
trata as palavras.

A relação é
interna
visceral
profunda.

É assim que a palavra brilha.


3
A palavra
fere o sábado
como um navio
recortasse o mar.

(Eu no cais
do abandono.)

Um blues
em mim
me divide
em ondas de
a/mar-
(a)g(r)uras.


Do Portal Vermelho

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