29 de novembro de 2015 - 9h42

A vitória da direita na Argentina e o ciclo progressista


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Construíram para Macri um personagem que apresentasse a imagem de uma direita repaginada, leve e dinâmica Construíram para Macri um personagem que apresentasse a imagem de uma direita repaginada, leve e dinâmica
Com a vitória na Argentina a direita obtém a sua primeira vitória eleitoral desde a eleição de Sebastián Piñera, no Chile. E não foi qualquer vitória. Ela ocorre na segunda economia da América do Sul, um país de larga extensão territorial e forte peso político na região. Foi neste país onde, há 10 anos, decretamos o enterro da Alca (projeto integracionista dos EUA) na Cúpula das Américas, em Mar del Plata.

Diante do nariz de George Bush, a esquerda comemorava a derrota do projeto de integração imperialista. Macri aponta para um giro na política internacional argentina aproximando este país daqueles governados por forças conservadoras e próximas a Washington (Colômbia, Peru e México, por exemplo) e, por conseguinte, da Aliança do Pacífico e Tratado Trans-Pacífico. A sua postura agressiva contra a Venezuela o posiciona como liderança no bloco dos países mais alinhados à Casa Branca e contraponto ao “bolivarianismo”. No plano econômico, Macri já anunciou o tom de sua política.

Independência do Banco Central, ajuste das contas públicas, cortes de gastos e investimentos estatais, abertura comercial, etc. Isso tudo sob o discurso de trazer a Argentina “de volta ao mundo”. Discurso muito parecido ao do consórcio golpista brasileiro quando diz que o Brasil, ao não se alinhar ao TTP e às políticas de integração capitaneadas pelos EUA, estaria isolado do mundo. Assim, a direita já inclui Macri no time das “novas” lideranças da direita latino-americana juntamente a Peña Nieto, do México, Henrique Capriles, da Venezuela, Mauricio Rodas, do Equador, Aécio Neves, do Brasil, entre outros.

A Argentina que Macri encontra em 2015 não é a mesma que a encontrada por Néstor Kirchner em 2003. Hoje o país está longe de ser o mesmo de 2001 e a quebradeira generalizada onde presidentes não duravam sequer uma semana no governo. Com uma economia mais sólida, com Nestor e Cristina, a Argentina reduziu as desigualdades sociais e o desemprego. O país avançou também nos aspectos democráticos através da revisão da Lei de Anistia e a punição aos torturadores da ditadura, bem como com a Lei de Meios que permitiu democratizar os meios de comunicação e fortalecer o sistema público de comunicação. Ainda, a firme postura de Cristina com relação aos chamados Fundos Abutres (especuladores que vivem de títulos da dívida dos países) rendeu grande notoriedade ao campo democrático e popular. Esse curso político e histórico constituiu uma força real na sociedade que aprova o governo de Cristina (a presidenta sai do governo com índices de popularidade superiores a 50%) e que deu 48% dos votos ao candidato dela. Além disso, a Frente para a Vitória tem maioria na Câmara dos Deputados (107 de 257 deputados) e no Senado (45 da Frente para a Vitória).

Também, venceu as eleições na maioria dos estados tendo eleito 11 dos 24 governadores que o país possui, embora a direita tenha saído vitoriosa nos mais populosos e de maior peso econômico. Assim, Macri terá trabalho para consolidar-se como o queridinho da direita latino-americana.

Para a campanha eleitoral construíram para Macri um personagem que apresentasse a imagem de uma direita repaginada, leve e dinâmica. Entretanto, agora que terá que pisar no barro e trabalhar em um cenário de aprofundamento da crise econômica internacional, o presidente terá que dar respostas à população. Ao que tudo indica Macri aplicará sem muitos rodeios à receita neoliberal do FMI e Banco Mundial, a mesma que levou a Argentina a quase falência em 2001. Se for por esse rumo, Macri poderá ter o mesmo destino de Piñera no Chile. Entretanto, isso dependerá dos rumos que os setores democráticos, progressistas e populares assumirão frente ao novo contexto argentino, sobretudo seu nível de unidade. E, da capacidade da própria direita em repetir erros.

A nível regional a proposta de expulsão da Venezuela do Mercosul parece uma jogada para demarcar um lado no contexto geopolítico, mas pouco hábil na relação com os países. Há pouco mais de um mês a Venezuela foi eleita, com o apoio de 131 países membros da ONU para o Conselho de Direitos Humanos deste organismo. O sistema democrático venezuelano é reconhecido mundialmente destacando a manifestação de Jimmy Carter, ex-presidente norte americano, ao afirmar que este era mais confiável e transparente que o dos EUA. Além disso, Macri nem sentou na cadeira da presidência e o primeiro que busca é criar um conflito regional em um momento onde predomina na região a construção da integração e o diálogo entre os países. Vale lembrar os reiterados elogios de Juan Manuel Santos, presidente colombiano, ao governo da Venezuela por sua ajuda no processo de diálogos de paz na Colômbia.

Desse processo uma questão fundamental a refletir é: Por que perdeu? Essa derrota poderia ter sido evitada? Esse mesmo resultado poderia ter ocorrido no Brasil, em 2014, onde a vitória veio após um segundo turno que logrou mobilizar e unificar os mais diversos setores do campo democrático, popular, de esquerda, progressistas e patrióticos. Além da convicção de que era preciso continuar para avançar e avançar para continuar. Com essa vitória na Argentina a direita vai babando para as eleições na Venezuela.

O fato é que a ascensão das bandeiras da direita em um cenário onde se fortalecem as saídas conservadoras à crise mundial tem colocado as forças progressistas na defensiva. A direita ataca o Estado como indutor da economia e todas as suas derivações (políticas sociais, valorização do trabalho, investimentos públicos em áreas sociais, etc.). Em torno a isso constrói saídas liberalizantes. No contexto da crise, aqui entendida como crise do capitalismo financeiro, o contraponto se mantém em torno ao papel do Estado na economia. Este, como força propulsora de um desenvolvimento de caráter nacional e regional, inclusivo socialmente, de elevação dos direitos sociais, soberania e valorização do trabalho representa uma alavanca para o desenvolvimento soberano. Assim, as oligarquias financeiras lançam-se numa jornada contra o papel protagonista Estado.

Nesse sentido, a construção da unidade em torno da defesa de um modelo de desenvolvimento baseado no papel central do Estado, a defesa da democracia, da justiça social e da soberania devem ser elementos de unidade para enfrentar e construir saídas que permitam aprofundar e inaugurar um novo ciclo progressista na região de mudanças estruturais nas nossas sociedades.


*Mateus Fiorentini é estudante de história da PUC-SP e diretor de Solidariedade Internacional e Formação da UJS

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