27 de novembro de 2015 - 17h53

A poesia de Ricardo Portugal


Arquivo pessoal
Ricardo Portugal é escritor e diplomata Ricardo Portugal é escritor e diplomata
Entre outras obras, publicou A Face de muitos Rostos, Antologia da Poesia Clássica Chinesa - Dinastia Tang (com Tan Xiao, 56º Prêmio Jabuti em tradução), Dois outonos – haicais, Zero a sem – haicais, Poesia completa de Yu Xuanji (com Tan Xiao, finalista do 54º Prêmio Jabuti em tradução), DePassagens

Letras Vermelhas desta traz diversas obras de Ricardo Portugal na íntegra:

Mito espúrio, ou: “os gregos fizeram melhor...”

Desde o limbo à terra
cresceu a cidade,
avultou a herdade
e viçaram hera,
choupos e açougues,
choças e logradouros.

Ao pútrido húmus
fermentaram homúnculos,
e vieram os servos
de céus e infernos,
seus deuses a soldo,
bezerros de ouro.

Avolumou-se a falta
à ignota falácia,
Aviltou-se a vida,
e mais viçam à vila
torpor e fascínio.

Em toda freguesia
do “ó!” veio o ovo
da massa rendida
à falsa pepita:
todo ouro é de tolo.

Entrementes a gente
habitou todos os ermos,
habituou-se aos erros
de sua comédia amena,
à econômica pertença.

Em regozijo as cifras
gozam, engordam, fervilham
em folhas; falam, farfalham
papeis e registradoras,
batem palmas à fanfarra.

E à terra, que tudo devora
às falhas sísmicas, Sísifo
interpela a História,
velha senhora;
responde-lhe a Esfinge: “decifra-me
ou te vomito”.

Grafito para Lacan

também a poesia
deveria ser
recusada aos canalhas

e por fim sabe-se
ela mesma se
recusa às tralhas
da society e trava-se
a sócios pretensos
de birinaites

na verdade
trata-os aos talhos
rejeita-se aos pretendentes
mais preclaros
vende-se caro
mas não entrega

e tanto dá-se às falhas
da língua e escoa-se às calhas
dos alterosos edifícios
da gente fina
tal chuva de sentidos
vulgos excessivos
esta vulgívaga

desenvolta às margens
de todo o discurso vazio
repleto de bens-viveres
e víveres linguísticos bem
dispostos ao mercado

e locupleto de vivas vivas
morras modorras esta
linguiça de significantes
muito úteis e desde
sempre isto apenas cisco de
vivas tu e digo eu

afinal a poesia
não se porfia
nas rodas avaras
dos fariseus
e nem às falas
sobejamente embasadas
bocejadamente em nadas
de édens embalsamados
entre prosaísmos

não, ela brota ferina
ri-se zomba e dissente
sobre falatórios cerebrinos
ou chororôs sentidos
recortados aos cêntimos
de tecido sígnico

(“tudo isso é
encolhido a centímetros
escolhidos à matéria plástica
depróteses de significados
que sobram ou
sossobram”, diria ela
se algo dissesse)


Do “Canto longo para flauta e moren-kur

(V)

Próximos ao meio-fio nos sentimos juntos
ao eixo metálico de toda a trama
ao centro das estradas que se derramam
cinzentas à borda do céu de chumbo
ab imo corde contemplamos a cidade
ao fino tecido do dia acordamos
para dentro deste outro sonho vívido
e conjunto de rijas exterioridades
nosso conjugado duplex com vista
para este mar de leito ressequido
em megalitos o mar morto infinito
de Sua Majestade o Grande Rei
O Real Primeiro Múltiplo e Único
o sempre certo incontornável indiferente
reticente repetido retido repisado
entretanto repousamos os olhos enfarados
sobre o traçado das sombras azuladas
admiramos o arranha-céu cor-de-rosa
enquanto penetra os prenhes cúmulos
da tormenta


(VI)

Assim nos reencontramos
a repartir esta rara forma
íntima de glória
única (indiferente ao mundano
mas dentro de sua fanfarra),
assim guardamo-nos a salvo
ao abrigo das luzes gritantes
claras escancaradas

Escaras não cicatrizadas
de intensas queimaduras
deixa a incauta busca
das ingratas luzes
Being in the limelight
fortuna e/ou fama
on the glaring lights
é tudo para tantos

Porém nós, neste oculto
anímico círculo somos,
amiga, sagrados
por nossos olhos e mãos
ao tempo do encontro
e neste profano templo
tão longe estamos
quanto próximos
do chacoalhar estulto
ao espalhafato dos plásticos

Pois a todo dia findo
despedimo-nos e rimos
dos afetados espasmos
ao fausto dos adornos falsos
– que todos o são –
ao espanto das reputações
impecáveis dos fariseus –
publicamente sempre tão
tementes a seus
publicanos deuses


Ao céu e à terra

Ao céu e à terra ostento minha glória
forjada em descampados irrisórios,
histórias de batalhas e os sintomas
que as suplantaram, véu de mansas sombras.

Persegue-me este ocaso que avermelha
o fim da tíbia tarde em que me alheio,
alegre ou triste, ao sulino desígnio
que alenta minhas noites, dias, vidas –

que muitas houve ao tempo que se elude –,
pois quis largar-me ao mar mais do que tudo,
náufrago intento, pródigo à desdita.

Poeta fui, ao léu, nuvem de calças,
léxico em punho, sempre aos céus assalto
e até o fim dissipo-me em sentido.


Do Portal Vermelho

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