20 de novembro de 2015 - 18h26

Futebol: o negro no esporte mais praticado no Brasil


Francisco Carregal, com a bola nas mãos, é o primeiro negro a jogar por um time brasileiro, o Bangu, do Rio de Janeiro
O esporte foi trazido na virada do século 19 para o 20 por ingleses e foi recebido com entusiasmo pela elite brasileira, embora fosse um esporte de operários em seu berço. Charles Müller (em São Paulo) e Oscar Cox (no Rio de Janeiro), estudaram na Inglaterra e voltaram de lá com bolas e livros de regras.

Havia menos de 20 anos da abolição oficial da escravidão, os negros estavam largados pelo sistema à própria sorte e lutavam pela sobrevivência em um regime hostil. Embora não houvesse segregação tão forte como nos Estados Unidos, eles não eram bem recebidos em vários lugares. Um deles, o estádio de futebol.

O jogo da bola entusiasmava. Intensamente praticado, várias equipes foram pipocando nos diferentes clubes da elite brasileira. Além dos negros, estavam distantes desses clubes os brancos pobres. O futebol tinha um sentido aristocrático. Era “coisa de bacana”.

Assim, em São Paulo, existia o Paulistano (da burguesia agrícola e industrial e de parte da pequena burguesia), o Germânia (da colônia alemã e atual Pinheiros), o São Paulo Athletic Club (da colônia inglesa), A Associação Atlética das Palmeiras (de burgueses do café e que não tem nada a ver com a atual Sociedade Esportiva Palmeiras), somados a outro elitistas como o Internacional da capital.

No Rio de Janeiro havia o Paissandu, o Rio Cricket, o Fluminense, o Botafogo, o América e mais tarde o Flamengo, que teve até duas sedes distintas, para os ricos e para os pobres.

Com a vitória da equipe brasileira no Campeonato Sul-Americano em 1919, a imprensa e alguns escritores, como Coelho Neto, passaram a dar grande destaque ao futebol.

Ficou famosa na História a recomendação feita pelo presidente Epitácio Pessoa, em 1921, que o Brasil não levasse jogadores negros à Argentina, onde se realizaria o Sul-Americano daquele ano. Era preciso, segundo ele, projetar no exterior uma “outra imagem” nossa, composta “pelo melhor de nossa sociedade”.

Era esse o reflexo da política do Estado brasileiro em relação ao negro, no âmbito do esporte. Mas, por força de uma condição bastante peculiar, alguns times começam a escalar jogadores negros em suas formações. Essa condição é simples: os negros jogavam muito melhor que os brancos.

Exemplo simbólico

O exemplo mais simbólico é o do Bangu Atlético Clube, time fundado por ingleses, mas formado, em grande parte, pelos operários da Fábrica de Tecidos Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro. O clube foi o primeiro no então Distrito Federal a escalar um atleta negro, Francisco Carregal, em 1905. O feito fez com que, em 1907, a Liga Metropolitana de Football publicasse uma nota proibindo o registro de "pessoas de cor" como atletas amadores de futebol. O clube, então, optou por abandonar a Liga e não disputar o Campeonato Carioca.

Outro símbolo é o Vasco da Gama, o clube do Rio de Janeiro fundado em 1898 para competições de remo e regatas, mas cujo futebol nasceu do povo. Em 1905 já havia eleito um presidente mulato, Cândido José de Araújo, e foi campeão carioca em 1923, seu ano de estreia na Primeira Divisão, despertando a ira da elite.

Alinhava onze jogadores negros, alguns deles oriundos do Bangu. Campeão de 1923, a burguesia local logo impôs uma condição para que o time participasse dos campeonatos: que não escalasse negros. O Vasco não se submeteu. Os ricos tiveram de criar sua própria liga. Flamengo, Fluminense e Botafogo foram jogar na recém criada Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (Amea).

O primeiro herói mulato do futebol brasileiro foi um atacante de cabelos crespos, filho de pai alemão e mãe negra. Friedenreich, do Paulistano (SP), se tornou ídolo em 1919, depois de fazer um gol contra o Uruguai. “O povo descobria, de repente, que o futebol deveria ser de todas as cores, futebol sem classe, tudo misturado, bem brasileiro,” escreveu o jornalista Mario Filho, em seu famoso livro "O Negro no Futebol Brasileiro", de 1947.

Em uma passagem do livro, Mario lembra de como Friedenreich lutava para se disfarçar de branco antes de entrar em campo pelo elitista Paulistano. "Friedenreich, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar se não fosse o cabelo. O cabelo farto mas duro, rebelde. Friedenreich levava, pelo menos, meia hora, amansando o cabelo".

"Primeiro untava o cabelo de brilhantina. Depois, com o pente, puxava o cabelo para trás. O cabelo não cedendo ao pente, não se deitando na cabeça, querendo se levantar. Friedenreich tinha de puxar o pente com força, para trás, com a mão livre segurar o cabelo. Senão ele não ficava colado na cabeça, como uma carapuça".

O pente, a mão não bastavam. Era preciso amarrar a cabeça com uma toalha, fazer da toalha um turbante e enterrá-lo na cabeça. E ficar esperando que o cabelo assentasse.

Levava tempo. Embora principiasse quando estava jogando o segundo time, só terminava quase na hora da saída do jogo do primeiro time. O juiz impaciente, ameaçando começar a partida sem Friedenreich, e Friedenreich lá dentro, no vestiário, a toalha amarrada na cabeça, esperando, ainda desconfiado de que não chegara a hora de tirar o turbante".

Chega a profissionalização

Com a grande depressão de 1929, a crise chega ao futebol. Equipes grandes da elite têm cada vez mais dificuldades em manter seus quadros, já que o esporte custava dinheiro e o amadorismo tinha ficado para trás, com os jogadores rateando as rendas das partidas.

Algumas equipes, como o Fluminense, compreendem o momento e, para contornar a crise técnica que vivia, com títulos escasseando e deixar de presenciar reclamações cada vez mais frequentes de seus sócios contra os jogadores negros da equipe (que tinham de entrar nas dependências do clube pelo mesmo acesso dos associados), passa a lutar pela profissionalização.

Isso permitiria ao clube contar com negros em seu quadro principal sem entrar em conflitos maiores com os associados. Além, naturalmente, de fortalecer um time que só vinha perdendo terreno para os rivais. Não evitou, claro, o racismo.

Em São Paulo a situação não era tão diferente. Os clubes da elite, cada vez mais inconformados com a distância que iam ficando dos clubes mais populares, se tornam recalcitrantes em relação ao profissionalismo. Dependiam das rendas dos barões do café e, com estes na pindaíba, passaram a depender das rendas dos jogos. E como os clubes mais populares é que levavam grandes públicos aos estádios, os da elite começaram a definhar.

Sem exagerar, é por meio da luta de classes que o negro conquista seu lugar no futebol brasileiro. Antes relegado à condição de espectador, passa a ser cada vez mais relevante, já que tem muito mais técnica que os brancos "bem nascidos". Se torna imprescindível inclusive para as seleções nacionais.

Essa mesma crise, de 1929, precipita o fechamento do futebol de clubes da elite, que alegavam defender o amadorismo e o "verdadeiro espírito do esporte" em lugar de alguém que ganhasse a vida jogando bola. É desta época que surgem algumas expressões que refletem o pensamento conservador contra o profissionalismo: "Futebol não dá camisa a ninguém" é a que mais perdurou.

A mídia, na época, lutou ferozmente contra a profissionalização, como tinha feito também nos primórdios do século contra a presença de negros e pobres nos times de futebol.


Do Portal Vermelho

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