Brasil

20 de novembro de 2015 - 11h24

O legado de um guerreiro chamado Abdias do Nascimento


Reprodução
   
“Meus irmãos, eu invoco o poder e a força de Olorum, nosso pai. Eu invoco o poder guerreiro de Ogum. Eu invoco Xangô das tempestades. Eu invoco Oxum, a deusa do amor. Eu invoco aqui Iansã a guerreira. É com esses deuses e líderes que nós, os negros deste país, subimos de joelhos a sua terra, Zumbi. Subimos de joelhos nestas terras encharcadas do teu sangue. E é aqui, Zumbi, que nós te prometemos: a luta não vai parar. Os exploradores do negro não vão ter descanso enquanto a toda a nação negro-africana não for definitivamente livre”, profetizou.

Essa foi uma das marcas de Abdias do Nascimento. Bacharel em economia, artista plástico, ator e diretor teatral, parlamentar e, principalmente, um militante da luta pela igualdade racial, Abdias faleceu em 24 de maio de 2011, aos 97 anos, deixando um legado de conquistas.


Nascido em Franca, interior de São Paulo, em 1914, Abdias foi pioneiro do movimento negro no Brasil. Já nos anos 1930, entrou para Frente Negra Brasileira, uma das primeiras entidades de organização do movimento negro no país.

Mas numa de suas últimas entrevistas, Abdias afirmou que a sua atuação contra o racimo começou cedo. Ele conta que ainda menino, quando voltava da escola com a mãe, viu o colega de escola, chamado Felizbirno, ser agredido por uma vizinha.

“O garoto era negro e órfão de pai e de mãe e vivia quase da caridade pública porque não tinha casa, nem onde comer. Ele estava sendo espancado por uma vizinha. Aquilo revoltou tanto a minha mãe que ela, da condição de pessoa pacífica e pacata, saiu em defesa daquela criança. Aquela revolta dela passou para mim e eu também fui em defesa de Felizbirno. Dali para frente, dos meus sete ou oito anos, comecei a escrever essa história”, contou.

20 de novembro para Abdias

Numa entrevista concedida ao Brasil de Fato, Abdias destacou a importância do 20 de novembro. “O dia 20 de novembro simboliza a resistência dos africanos contra a escravatura. Essa resistência assume diversas expressões táticas e perpassa todo o período colonial. Durante esse período, em todo o território nacional, havia quilombos e outras formas de resistência que, em seu conjunto, desestabilizaram a economia mercantil e levaram à abolição da escravatura. Esse é o verdadeiro sentido da luta abolicionista, cujos protagonistas eram os próprios negros. Eles se aliavam a outras forças, mas, muitas vezes, foram traídos por seus aliados. Mais tarde, entretanto, a visão eurocêntrica da história ergueria os aliados como supostos atores e heróis da abolição. A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro tem como objetivo corrigir esse registro histórico e reafirmar a necessidade de continuarmos, nós, os negros, protagonizando a luta contra o racismo que ainda impera neste país”, disse.

Abdias era incansável nessa luta. Nos anos 40, criou o Teatro Experimental do Negro, numa ação para romper as barreiras de inserção do negro nos espaços artísticos e sociais. A inciativa revelou talentos da dramaturgia nacional, como as atrizes Ruth de Souza e Léa Garcia.

Ao mesmo tempo, fundou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro e advogou por direitos para as empregadas domésticas e políticas afirmativas para a população negra.

As ações culminaram no 1º Congresso do Negro Brasileiro, realizado em 1950. Com a promulgação do Ato Institucional nº 5, Abdias foi perseguido pelos militares e foi obrigado a exilar-se nos Estados Unidos, em 1968, de onde só retornou dez anos depois, em 1978.

De acordo com documento de 24 de outubro de 1979 do IV Exército de Recife, revela com detalhes que o regime considera a movimentação das organizações negros como foco de “problemas”.

O relatório revelou ainda que os agentes se infiltraram em entidades dedicadas ao estudo da cultura negra, por meio de palestras em reuniões e simpósios, como a IV Semana de Debate sobre a Problemática do Negro Brasileiro, em abril de 1978 na Bahia. Segundo os militares, o evento tratava de temas como “a tão falada democracia racial não passa de um mito”, “o racismo no Brasil é pior do que no exterior, porque é sutil e velado”, “a existência da Lei Afonso Arinos, contra o racismo, é prova de que ele existe”, “a Abolição da Escravatura foi imposta pelas necessidades da economia capitalista e não por uma preocupação sincera com a situação do negro”.

Ainda de acordo com o relatório, os arapongas relatam o ciclo de palestras do Núcleo Cultural Afro-Brasileiro, em Salvador, do qual participaram lideranças como o deputado federal baiano Marcelo Cordeiro e o paulista Abdias do Nascimento, professor emérito na Universidade de Nova York.

Parlamentar

Militante do PTB e, posteriormente, fundador do PDT, Abdias teve grande influência na fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978. No PDT, criou no início dos anos 1980 a Secretaria do Movimento Negro, que fortaleceu sua atuação como parlamentar.

Ele foi o autor do projeto que pede que o dia 20 de novembro seja feriado nacional pelo aniversário da morte de Zumbi dos Palmares. Também apresentou projeto de lei que previa a criação de uma cota de 20% de vagas para mulheres negras e de 20% para homens negros na seleção de candidatos ao serviço público, hoje aprovada pelo Supremo Tribunal Federal. .

Seus projetos e a atuação do movimento negro levaram a questão racial para o debate durante a Assembleia Nacional Constituinte garantindo, por exemplo, que a prática de racismo torna-se crime inafiançável e determinou-se pela primeira vez a demarcação das terras dos remanescentes de quilombos. Abdias também foi um dos responsáveis pela instituição da Comissão do Centenário da Abolição em 1988, que resultou na criação da Fundação Cultural Palmares.

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Kabengele Munanga, congolense especialista em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, afirma que uma das grandes contribuições de Abdias foi a introdução do ensino de história da África e dos negros nas escolas, a partir da publicação das revistas Sankofa e Thoth – Escriba dos Deuses – Pensamento dos povos africanos e afrodescendentes, enquanto era senador.

“As duas revistas oferecem textos, imagens e ilustrações que enfocam uma África autêntica e suas contribuições na civilização universal, além de apresentar uma história do negro brasileiro que rompe com a historiografia colonial e racista que até agora permeia muitos livros e materiais didáticos. A Lei 10.639, de 2003, que torna obrigatório o ensino da história do negro e da África no ensino básico brasileiro, pode ser considerada uma consagração das propostas do senador Abdias nas revistas Thoth e Sankofa”, enfatizou.


Do Portal Vermelho, com informações de agências

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