20 de novembro de 2015 - 15h17

A poesia de Susanna Busato


Arquivo pessoal
Susanna Busato é é poeta e professora de Poesia Brasileira Susanna Busato é é poeta e professora de Poesia Brasileira
Deixou suas pegadas no livro Corpos em Cena, que lhe valeu figurar como finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014. Publicou seus poemas em alguns periódicos como a Revista Cult, Revista Brasileiros e nos portais Zunái, Aliás, Mallarmagens e Revista Pessoa, além de revistas no exterior.

Já participou de diversos trabalhos como os do Sarau lítero-musical Chama Poética, em várias ocasiões, da realização do Recital Multitudo Haroldo de Campos, no Itaú Cultural, em São Paulo, em 2011, do Recital Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. (homenagem a Oswald de Andrade), na Flip em Paraty em 2012, e também foi curadora e realizadora da Cena Artística “Quem tem medo de Hilda Hilst?” (homenagem a Hilda Hilst) no I Congresso Nacional de Poesia “Quem tem medo de Hilda Hilst?”, na Unesp em Rio Preto, que coordenou em 2014.

Leia na íntegra as poesias de Susanna Busato:

De luxe

O luxo é importado
não importa de onde
vale preço etiqueta
no ombro na bolsa
no sapato fincado
em cartão dividido
a crédito e ansiolítico.

Cravo vermelho

Cravo.

Dor certa e reta
navalha na testa
agulha na têmpora:
ósculo cor
rupto abrupto.

Vermelho.

Rompe surta
dor cor
rompida
por dentro:
cápsula
ínsula
de vida.

À paisana

Eles eram muitos. Eles eram fortes. Eles eram belos.
Carregavam na ponta do fuzil das línguas a morte.
Guardavam balas na boca e cuspiam
sonhos que afogavam na terra
com uma pisada de pé
sujo de terra.
Era para reprimir a vida, diziam. Para a dispersão do mundo. Para a mordaz vingança. Engatilhavam a foice negra do tempo real como uma arma serena.
Eles eram o inferno. Eles eram o centro. Eles eram
o seu próprio intento.
Sua astúcia e repúdio: lance de guerra.
Contra si mesmos os dados
rolavam dos copos.

Aquilo bulia
aquilatava
aqui lá
aquilo
calava.


Ostra

Estronda da rocha o grito
de dentro da bronha o grave.
(A renga roga tua mão)
A cada volta o falo aéreo e honesto
se embrenha. Alcança célere o reto
objeto a sorte. Encontra
na cona o cume.
Ronda e arreganha a que antes era
incerta e agora
bem correta
pérola.

A cidade desejante

As lojas estão fechadas
Os passos sumiram das escadas
Os carros desalojaram as ruas
Não se respira no caule das torres envidraçadas

(A poesia pura
perpendicula
nos varais e fios de alta tensão
A poesia grita
na pausa dos postes
sussurra
ouvido colado ao chão )

Corpos desejantes na cidade muda
assistem à lenta morte como um arrebol.
Emulam a gama de gritos e cores
como se deles fossem
as gargantas decepadas dos dias.

A cidade grafita encena
nos muros
seu desejo de fêmea:
que a última
foda venha
queira
seja
a posse do
poema.


Nascimento do olhar

O pôr do sol avermelha o horizonte.
O sol se põe no vermelho do horizonte.
O vermelho se horizontaliza no sol.
O pôr do sol orienta o vermelho.
O horizonte deposita vermelhos no sol.
Um sol se põe na vermelhitude ortogonal do horizonte.
Um horizonte avermelha ao sol.
Em decúbito dorsal o sol do sol
avermelha.
Horizontalizam vermelhos de sol.
Solarizam rubros horizontes vergéis.
Vertem vermelhos espelhos de sol.
Horrorizontes vesgos vergam-se ao sol.
Horrorizontes velhos vertem vespas de sol.
Horrorizontes vermelhizam sendas de sol.
Vertem rubros vergéis em horizontes de fel ao sol.
Um pôr de sol depõe contra o horizonte.
Vermelhorror: o sol se consome.


Cutuco a carne do poema

cutuco a carne do poema
escancaro
mostro os dentes
lanço a cuspe
a sibilância
a fricativa chispa
a indiscreta chama

vagabunda
a carne se
poema


Ícaro do asfalto

se tudo ainda é pouco
se tudo ainda é lento
se tudo quanto calo raro arrebento

se tudo é partida golpe buzina
se tudo é café com pão ao meio-dia
se tudo o mais é filé com aspirina

na poça d’água do meio-fio
eu ao meio partida ouso

o impossível:

um fio de futuro na janela
entre o pôr do sol e a lua
esgarça a fina camada do dia

(e isso ainda é pouco
o mais ainda me alucina)

no vidro fosco da janela
o sorriso de Ariadne me vigia
nas suas níveas mãos a noite
e nas minhas
às minhas
expensas
apenas
ases e copas
asas de janela
e o sol


Do Portal Vermelho

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