13 de novembro de 2015 - 17h41

A poesia de Jorge Lucio de Campos


Arquivo pessoal
Jorge Lucio  poeta, ensasta e professor Jorge Lucio poeta, ensasta e professor
Alm de poeta, Jorge ensasta e professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Esdi/Uerj).

Leia na ntegra os poemas:

Perna

Perna que se esconde
estica, de borracha
chocolate, desejos
secos, rasgados
instigantes

Perna reflexiva
ps-moderna
que gruda na parede
como aranha saciada

Perna pstuma
longe dela alguma
forma

Perna desenhada
comovente em seu
passo de lagarta
tatuada, mutante

Perna que observa
cmplice: como
l-la, sugeri-la se
no fundo, ela
s quer ser perna?

Perna exposta e
datada, incontvel
verme retrado
na ponta do joelho
que no ousa
numa cala curta
incapaz de despertar
desejos na leveza
diamantina da
manh

Perna-perna (se
que existe uma)
a ser lida antes
que esta histria
acabe



Perna colorida
mais pop do que
perna, mais perna
do que nunca

Perna que passeia
nos arredores de
Paris e traz consigo
a civilizao

Perna fora de
domnio, que ameaa
com tormentas,
estereotipada, prototipada
inconsequente, inclume
dentro e fora, soft e hard
analtica, cinzenta

Perna perversa
com dedos e unhas
que fazem perguntas
sem respostas

Perna desviada,
criminosa, zooflica
penitente, ptrida

Perna-mrtir
disentrica, rebelada
que soobra no
esterco da runa e
no monturo da
desgraa

Quis t-la ao meu lado
t-la comigo
fiquei sozinho
horrorizado j
quase sem perna

Perna de Gring
Celine, genocida
esquizoide




Perna suicida
que me engole
enraba e cospe
toda vez que
tento am-la
Perna-sogra, confinada
hstia j mordida
que lastima a
inocncia, que se
inclina, desumana
que me lambe e
joga no lixo


O Homem de Areia

E. T. A. Hoffmann

Se uma prece eu
pudesse na mesura
do fogo eu diria:
“arrepios” de gua
e luz; eu diria
“locomotivas”
com rodas negras
de enxovia

Se uma prece eu
pudesse e em mim
coubesse uma grei
de brilho acerbo
eu diria: “labirintos”
de rouco alcance

Poria a cabea
entre lenis de
sombra − nada
dela − um monstro
sob a cama com
ares de eremita
e uma boca que
petisca − uma

batida na porta −
um vulto que se
encolhe atrs de
um velho garfo
a comida carcomida
sobre a mesa, a
casca de batata
esquerda da grinalda

quando grito:
“crocodilos” e os
lenis se abrem e
minhas pernas
evaporam


Se uma prece eu
pudesse na floresta
ressequida
chuparia cada dedo
e meu sonho ento
se iria, reluzente –
com um grunhido
eclipsado, eu diria:
“Peguem logo a
minha alma antes
que eu morra de
acordar”


O Caminho do Campo

a Martin Heidegger

1

Na chamin baldia
brinca a fumaa
sua margem de neve
solta no tempo

Bem que eu queria
com os ps descalos
perfurar a cena, ter
da noite um luto

sem estrelas, merc
da loua branca do
luar atrs de mim

2

Um relgio aninhado
no mago brinca
atrs de mim

Velo sozinho
a poa mais pura

Digo sozinho
o derradeiro atrs
de mim


3

Apesar de tudo, do
luto da aranha
que, selvagem, rilha
o abismo da escada

Gosto que no gosto
a frase corta meu
cabelo, o rudo vivo
coalha de

fuligem o assoalho
em que a aranha no
me segue, no me
deixa amar o ser


Depois do Meio-Dia

1

No importa o toque. Pensar o que est fora, a delicadeza do mundo. Nas costas das coisas persiste a lngua, no muito quente.

2

Em primeiro lugar, no se achar til. No ter cena alguma a oferecer, com tons azulados, exatos, livres. No cabe um exlio.

3

Fora da terra, em voz crua e lapidada. Eis a regra: no o sagrado. Abrir mo, mesmo assim.

4

uma alegria profunda. Uma aleluia se funde com o escuro. Ningum se prende a nada. Ter um pouco de medo. Faz-lo na ofegncia de um toureiro.

5

De to fugidio, o instante-j no mais porque agora se torna um que-. Cada coisa tem um instante em que-. Quero apossar-me do que- da coisa, dos fogos de artifcio que espocam em seu vazio. Quero tocar os tomos do tempo. Serei sempre eu no meu j.

6

A alegria matria do tempo. No instante-j est o que- do outro. Eu canto aleluia para o ar, como faz o pssaro. Meu canto de ningum. No h paixo que siga a aleluia.

7

A vida refulge no corpo tangvel.

8

O tema o instante.


Os Dias Gigantescos 

(Segunda verso)

a Ren Magritte

1

Verdade seja dita: devo continuar oculto. S um buraco me separa das meias espalhadas pela cama. Continuo suscetvel quilo que me faz funcionar. Preciso afiar as unhas e, depois, apar-las. Tenho que fazer isso para que no cresam. Ser possvel? Quero misturar-me com a moblia do quarto, mas sinto medo. Posso gostar de fazer isso e depois de arrancar a pele, a fcula, o pndulo, o sndalo, ficar balanando, perfumando, alimentando a fome de solido que me alimenta.

2

Reconheo: por me achar to s que escrevo este texto emaranhado que me faz ficar to s e a o que escrevo tambm fica s e, ao meu redor, se forma um paraso pitoresco de lascas, luvas mundanas com cores que me lembram gestos que se queimam se me tocam sem que me aproxime. Cada meio uma passagem se o que vemos aparece e some. Gostaria de sangrar a todo instante, pois o tempo capaz de tornar meu mundo infalvel. Gostaria de exibir seus atributos. De contar as peas que o compem. Em pelo, me amontoo, a cabeleira suspensa, os ps descascados pelo encanto de verdades sem demora. como um fluxo em que me solto e torno qualquer coisa infinda no canto sujo dos olhos, um duplo morfolgico. Queria ser um simples ssia de mim mesmo. Queria ter um rebordo acinzentado antes que fosse tarde para eu querer algo alm disso. Antes que fosse tarde, eu queria, eu queria, eu queria.

3

Uma segunda voz me avisa e emana um ponto calmo que me leva algures. Depois do encontro, redesenho minhas dobras finas. Possibilito-me, antes de sumir de vez. Mas no me afasto da conciliao – j no perteno alegria.

4

Escrevo-te e sinto um sabor-em-ser que tambm o corpo com que eu pinto quadros. No se entende msica: ouve-se. Ouve-me, ento, com teu corpo inteiro. Quando vieres me ler, perguntars por que no me restrinjo pintura, j que escrevo toscamente. que agora sinto vontade de dizer e novo para mim o que eu disse. A palavra minha quarta dimenso.


Do Portal Vermelho

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