Brasil

25 de setembro de 2015 - 18h05

A negação da política: Disseminação do ódio e intolerância


   
Apesar da questão política, a principal motivação do assassino de Jean Jaurés foi a intolerância, que é a mesma que amealha o sentimento de alguns que têm tomado as ruas em atos convocados por grupos da direita conservadora no Brasil.

Em 30 anos de vida democrática do país, palavras de ordem e faixas pedindo o golpe militar contra o mandato legítimo da presidenta Dilma Rousseff e a volta da ditadura se destacam nesses atos.

Baseado em preconceitos e valores fundamentalistas, os crimes de ódio – sejam por questões religiosas, de classe, étnicas ou políticas –, são um fenômeno global e histórico. O Brasil tem assistido a ascensão das ações de intolerância e do preconceito que geram práticas deploráveis de violência que afrontam a democracia.

O professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, Francisco Foot Hardman, disse em entrevista ao Estadão: “A intolerância é a antessala da violência e a violência é a negação da política”.

Mal informados

Recentemente, o diretor gaúcho Jorge Furtado disse que que voltou a escrever sobre política para se manifestar contra o crescimento do fascismo, citando especificamente as agressões sofridas pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e as ameaças ao jornalista Jô Soares, após entrevista com a presidenta Dilma Rousseff.

“Os sinais de intolerância crescem, tornam-se mais frequentes e mais violentos, é de se esperar que a ignorância dos mal informados covardes que andam em bando logo produza vítimas. Silenciar é ser cúmplice deste fascismo crescente”, defendeu o cineasta.

Para o intolerante, quem discorda do que pensa ou age de maneira diferente deve ser atacado, não no campo das ideias – este deveria ser o campo de debate –, mas com rancor, desrespeito e agressão. Tudo isso move uma engrenagem de ações que tenta impor que o outro tenha a mesma conduta, ou pior, exterminar o que para eles se tornou uma “ameaça”.

Discurso da oposição

Esse discurso de intolerância é ódio tem ocupado o debate político. Em evento realizado no Instituto Fernando Henrique Cardoso, em março deste ano, o senador tucano Aloysio Nunes (PSDB-SP) disse que queria ver a presidenta Dilma Rousseff "sangrar" nos quatro anos de mandato.

Esse tom se reflete nas ruas com ações ainda isoladas, mas que colocam em risco a democracia e revelam o grau de intolerância da direita conservadora brasileira. Um caso emblemático foi do jornalista e blogueiro Ênio Barroso Filho, que sofreu uma agressão covarde dia 14 de outubro de 2014, porque usava uma camisa do PT.

Ênio, que é cadeirante, foi cercado pelos agressores que exigiam que ele tirasse a camisa vermelha com adesivos pró-Dilma. Como não foram obedecidos, deram um tapa e tentaram derrubá-lo da cadeira de rodas.

A vítima mais recente de ação criminoso foi João Pedro Stédile, o membro da coordenação nacional do MST, e ao próprio MST. Stédile foi insultado por um grupo de aproximadamente 30 pessoas no aeroporto de Fortaleza, no Ceará, no último dia 22 de setembro.

Ameaça à presidenta da República

Outro caso que revela que a intolerância não tem limites é o do advogado e militante do PSDB Matheus Sathler Garcia, do Distrito Federal. Por meio de um vídeo divulgado na internet, Matheus ameaçou decapitar a presidenta Dilma se ela não renunciasse.

A Polícia Federal indiciou o advogado tucano pelo crime de incitação. O inquérito foi encaminhado à Justiça Federal nesta quarta-feira (23). Se condenado, o militante tucano pode pegar pena de 3 a 6 meses de prisão, além do pagamento de multa.

"Vivemos em um Estado de Direito e não podemos permitir que o direito ao exercício da livre expressão dos indivíduos sirva de escudo para a incitação de crimes", disse a delegada da Polícia Federal Fernanda Costa de Oliveira, responsável pela Delegacia de Inquéritos Especiais.

O agravamento da crise política e a adoção da estratégia catastrófica do “quanto pior, melhor” por parte da oposição, levou a situação ao ponto de lançamento de explosivo contra a sede do Instituto Lula e invasões de sedes municipais do Partido dos Trabalhadores.

Povo é a vítima

A campanha de ódio também atinge o cidadão comum, que não é militante ou liderança social. Após sair de um jogo no complexo de futebol society Playball Ceasa, em São Paulo, a dubladora Mariana Zink, foi agredida por vestir um moletom com estampa de estrelas.

“Sofri provavelmente a maior opressão e humilhação pública que eu possa me lembrar. Tudo porque cometi o terrível e grande crime de usar esse moletom ‘comunista’ da Adidas”, ironizou a jovem em matéria publicada no site Dibradoras.

"Estamos vivendo um momento de acirramento do debate político, decorrente de um processo eleitoral que terminou mas parece continuar", afirma Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).


Do Portal Vermelho

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