21 de agosto de 2015 - 18h32

Transposição do São Francisco: Os campos de concentração no Ceará


Luiza Pereira, dona Lô, uma das últimas sobreviventes do campo de concentração de Senador Pompeu, em 2011. Ao fundo, as ruínas de uma instalação. Luiza Pereira, dona Lô, uma das últimas sobreviventes do campo de concentração de Senador Pompeu, em 2011. Ao fundo, as ruínas de uma instalação.
Os retirantes, acossados por fome e sede, não tinham outra saída a não ser rumar para o litoral ou para a beira de rios perenes. No caso dos cearenses, a migração se dava no rumo de Fortaleza ou de Crato, no sul, por causa da Chapada do Araripe, um oásis no semiárido nordestino.

Os "homens de bem" fortalezenses não queriam por perto aquela gente faminta, doente e que cometeria qualquer despautério por um copo de água ou um naco de pão. Fortaleza vivia um bom momento econômico. A cidade era relativamente limpa, arborizada. Sua elite vivia em padrões bastante confortáveis, mesmo comparados aos da capital da República, o Rio de Janeiro.

A resposta do governo da província ao número cada vez maior de migrantes que chegava à capital foi confiná-los em "instalações" cercadas por mourões e arames farpado, à moda de gado, próximos à linha do trem. Uma placa acima da entrada indicava o campo de concentração. É importante lembrar que apenas um ano depois, em 1933, os fascistas inaugurariam seu primeiro campo de concentração, na longínqua Alemanha, para alojar neles seus inimigos, principalmente os comunistas.

Menos de um mês depois de abertos, os campos construídos em seis cidades do Ceará contavam com mais de 70 mil pessoas. Muitas eram levadas a trabalhar de graça para a administração municipal ou governamental. A maioria ficava ao relento, à própria sorte. Os campos ficavam em Cariús, Crato, Fortaleza, Ipu, Senador Pompeu e Quixeramobim. Dezessete anos antes, durante a seca de 1915, Fortaleza já havia sediado num lugar chamado Alagadiço um ensaio do que viria a ser esses campos de concentração. Cerca de 8 mil pessoas foram amontoadas ali, em uma área de 500 metros quadrados.

Nestas cidades há inúmeras histórias de como os flagelados sofreram nestes campos. Morriam mais rápido que moscas, não só por causa da desnutrição ou da sede, mas das doenças às quais ficavam expostos. Valas comuns foram cavadas para sepultar os mortos. Por todo o Ceará surgiu a lenda, ainda hoje vívida, do papa-figo, um monstro que rouba o fígado do transeunte descuidado que viaja à noite pelos caminhos de terra. Há também o desprezado feijão do cabo, que é o feijão duro, que não serve para alimento, apelidado assim por causa da rudez dos guardas que vigiavam um dos campos, onde um feijão rochoso era servido aos flagelados.

A lenda do papa-figo surgiu na cidade de Senador Pompeu, onde um médico legista era obrigado a retirar amostras de fígado dos flagelados que faleciam no campo local, para enviar a Fortaleza para análise clínica. Ainda resiste ali as ruínas do campo de concentração. Essa lenda é comum em várias partes do estado, inclusive no sul, em Juazeiro do Norte, que teve na vizinha Crato um grande campo de concentração.

A cidade não guardou muitas memórias do seu campo, apenas relatos dos mais velhos. Segundo os historiadores, Crato recebeu 20 mil flagelados em um campo projetado para apenas 5 mil. Hoje no seu lugar há uma fábrica de papel, que produz um cheiro ruim e peculiar.

Engana-se quem pensa que os campos recebiam os flagelados à revelia. Eles foram levados para lá com falsas promessas. De acordo com a professora Kênia Sousa Rios, do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC),"os sertanejos eram atraídos por promessas de trabalho, alojamento, alimentação e serviço de saúde". A multidão que aparecia era concentrada em espaços precários. As pessoas tinham suas cabeças rasgadas, suas vestes eram apenas sacos velhos de farinha com três buracos, para passar a cabeça e os braços.

Os homens relativamente sãos eram obrigados a trabalhar com marcenaria e construção de tijolos, as mulheres na fabricação de sabão e as crianças, que não tinham escola, podiam trabalhar e aprender artes e ofícios. Faltavam comida, água e remédios. Soldados armados detinham aqueles que tentavam fugir. Os campos mantinham locais para punir e encarcerar os rebeldes. "Atestados de óbito mostram que no campo de Ipu a fome e doenças como cólera chegavam a matar oito pessoas por dia", destaca a historiadora.

Registros oficiais contabilizam mais de 60 mil cearenses mortos nesses campos. Estudiosos creem que morriam mais pessoas em função deles que da seca.

Em 1933, quando as chuvas voltaram a cair, os campos foram desativados e os sobreviventes deveriam ser encaminhados de volta aos locais de origem. Nem todos, porém, retornaram. Em Fortaleza, a maioria ficou e deu início a uma das maiores favelas, a Moura Brasil, em Pirambu. "A violência desses campos reflete os primeiros anos da República, a crueldade com os pobres e com os negros", diz Kênia Rios, autora do livro Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e Poder na Seca de 1932.


Do Portal Vermelho, Humberto Alencar, com informações da Rede Brasil Atual, em matéria assinada por Cida de Oliveira

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