7 de agosto de 2015 - 16h55

Poetas fazem antologia em homenagem a professores do Paraná


Brunno Covello
A arte da capa do livro é de Bruno Palma e Silva e Silvana Guimarães A arte da capa do livro é de Bruno Palma e Silva e Silvana Guimarães
A antologia foi organizada pelos escritores Domenico A. Coiro, Mar Becker, Priscila Merizzio e Silvana Guimarães, tem apresentação do poeta e historiador Daniel Faria e conta com a participação de nomes expressivos da literatura brasileira, que demonstraram – via poesia – sua revolta contra ato tão autoritário do governo do Estado.

Além disso, há 12 depoimentos de professores, funcionários públicos e estudantes, que participaram da manifestação. Eles foram organizados e apresentados pela jornalista e escritora paranaense Célia Musilli. Entre eles, está o relato da poeta Alice Ruiz. Fotografias de cenas do manifesto, por Brunno Covello e Lina Faria, ilustram a edição.

O livro, com mais de 200 páginas, foi lançado na rede social onde nasceu a ideia, não tem fins lucrativos e poderá ser adquirido pelo valor de R$ 15,00 + frete, em sua página no Facebook, a partir do próximo sábado (15).

Letras Vermelhas recebeu, com exclusividade, uma série de poemas da antologia, leia na íntegra:

Artesania verbal
(Adelaide do Julinho)

rincha o superego no palácio
no quartel superéguas no cio

quatro três dois um
bê-á-bá-bum!

pela cabeça feudal
pelo cacete fodal

palácio & polícia
tomaram bomba no final

Medidas oficiais
(José antônio cavalcanti)

Vinte anos de magistério
vinte turmas
três turnos
duzentas redações na sacola
de supermercado
três chutes na perna direita
chave de braço
mata-leão
dois tapas na cara
quatro cacetadas na calva
um dente quebrado
soco no nariz
spray no olho
do furacão
buquê de bombas
processo por desacato
inquérito administrativo
suspensão de contrato
formação de quadrilha

Em “abril”,
professor que sangra,
“o mais cruel dos meses”,
sempre é suspeito.

Vamos investigar
os livros que levam nas veias.

Dia nacional do pit bull
(Luiz Roberto Guedes)

“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”.
Darcy Ribeiro dixit
era uma vez um país bovinamente agrícola que
|apesar de sua cartilha republicana| não fazia
lá muita questão de instruir seus subcidadãos |pra
quê 1 zé-povinho fadado ao cabo da enxada
carecia de 1 luxo como ler, escrever & contar?|
fundamental era fazer da terra 1 vasto cafezal
já que a meritocracia tapuia tinha por tradição
mandar desasnar suas crias no Quartier Latin

1 século mais tarde, o projeto de país-fazendão
continua in progress pros neobarões colonizados
enquanto a dindinha mídia |fluente em economês|
gorjeia orgulhosa as supersafras recordes de grãos
mas eis que professores do Paraná ocupam a praça
clamando por salário & 1 amanhã menos precário &
são varridos pelo braço armado do Estado que semeia
balas de borracha, bombas de gás & dentes de pit bull

1 helicóptero desova bombas sobre os rebelados
enquanto lacaios palacianos aplaudem com frisson
o massacre eficiente das cabeças pensantes |pois
onde a polícia é militar, o inimigo é o cidadão|
& uma vez mais, as cabeças falantes da televisão
dirão gravemente que houve confronto, baderna &
darão voz |ora como não?| aos brutocratas da hora
com sua ordem de ontem |já de volta pra caverna|

mas os professores hão de seguir na batalha, em sala
de aula |Quem de vocês aqui tem 1 papai que é PM?|
e a garotada levará 1 trabalho pra casa |pra ser
copiado & acatado pelo cidadão fardado|

|Copiar 100 vezes|

“eu, juca brasuca, prometo nunca mais levantar meu
cassetete pra espancar 1 professor que luta |à revelia
da Casa Grande| pra educar meu filho, pra ser 1 dia
1 cidadão digno de 1 país mais gentil com sua gente”

por ora, a mão enorme do mercado tange o gado
& o noticiário oculta essa inovação estúpida —
o uso do cão pit bull |máquina de triturar ossos| no
controle da turba & na manutenção da pax bovina

A palavra interdita
(Maíra Ferreira)

equação de segundo grau no quadro-negro
sangue que bate e volta
palavra de ordem não é mais
palavra se a ordem for anular
a palavra
a ser dita
a palavra interdita
a via pública
vinte e três anos dando aulas
bomba na cara é o que
eu mereço
camões está de ouvidos abertos
aguardando notícias dos que foram
e não voltaram
mas não para a métrica
mas não para a réplica
será agora que os livros queimam
em praça pública?
palavra de ordem só é palavra
se anula a ordem que impede
a palavra
de andar


29 de abril
(Waldo Motta)

ano de marte, deus da violência
patrono dos estúpidos
final de abril, o mais cruel dos meses

no agourento dia vinte e nove
(número de erro, falha
e consequências nefastas)

eis que a besta se apossa do bestunto
de um dos seus tantos cabeças tontas

que ordena à legião de cérberos sem cérebro
ferozes servos do senhor das trevas
atacar, em pleno dia
o escol de homens e mulheres
que cultiva e dissemina a luz

&

preferiu arrocho e rixa
— racha fora, beto richa!

que o povo te escrache
pelo torpe esculacho
contra os que portam fachos!

que o povo te despache:
— racha fora, passa a faixa!

xô, fantoche do diacho!
chispa já com tua chusma
de capachos e cupinchas!

a tua glória já murcha
o teu sol já se abaixa
o teu poder estrebucha
e o teu reinado micha

— racha fora, beto richa!


Do Portal Vermelho, com assessoria

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