23 de junho de 2015 - 14h49

O dia da CPI do Genocídio contra jovens negros em São Paulo


CPI do Genocídio contra jovens negros visita São Paulo CPI do Genocídio contra jovens negros visita São Paulo
No período da manhã, deputados, jornalistas e lideranças comunitárias se reuniram na Associação Jocris no bairro Jardim Rosana, região da chacina onde morreram 7 pessoas, entre elas o DJ Lah, do grupo Conexão do Morro, parceiro de mixagem do rapper Mano Brown.

DJ Lah tinha 33 anos e deixou quatro filhos, teve seu primeiro CD gravado em 1998 e um dos principais temas do grupo era o protesto contra a repressão policial. Os moradores evitam falar porque se sentem intimidados desde a execução de um pedreiro por policiais militares.


Segundo o deputado federal, presidente da CPI, Reginaldo Lopes (PT), “estamos na segunda fase da CPI, depois de já ter feito mais de 30 audiências, mais de três por semana, sendo que toda segunda-feira percorremos os estados. O objetivo é apurarmos os casos emblemáticos, como o que aconteceu nesse bairro”.

Orlando foi mediador da conversa que contou com relato de Rosângela Sales Santos Silva, mãe de Bruno Wagner, morto aos 18 anos por engano pela polícia, na região do Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo.

Segundo a mãe do jovem assassinado, muito emocionada, relatando quando viu seu filho baleado: “quando cheguei, nem pude ver os sinais vitais do meu filho, fui uma covarde, não consegui”, ela ainda relatou o descaso dos policiais no processo de salvamento do garoto, “eles jogaram o corpo do meu filho que nem um saco na viatura...”, “...hoje quando eu vejo um policial na rua, eu tenho nojo, tenho medo deles...”, “eu sei que toda profissão tem o mau e tem o bom, mas com eles não, para mim é tudo igual”, finalizou Rosângela, mãe do jovem morto por policiais.

A reunião também contou com a intervenção da deputada estadual do PCdoB, Leci Brandão, Gabriel Medina, secretário nacional de juventude, e outras lideranças nacionais e locais, tais como: Gustavo Petta, vereador de Campinas e Ângela Guimarães, presidenta do Conselho Nacional de Juventude.

A segunda etapa das atividades consistiu em visitar o Jardim Iracema, outro local de chacina, no entanto, os familiares optaram em falar reservadamente com os deputados. Neste local, aconteceu a chacina onde dois menores foram assassinados, no total de doze óbitos no final de semana.

Após as visitas, no período da noite, o presidente da Alesp, o deputado estadual Fernando Capez recebeu a comitiva para uma conversa sobre a questão e se comprometeu a levar o debate para dentro da Casa. Logo após, com o auditório Franco Montoro lotado, foi realizado uma audiência pública sobre a redução da maioridade penal. Toda a comitiva esteve presente e lideranças dos movimentos sociais puderam fazer suas intervenções.


Mais uma vez, o deputado Orlando Silva é convidado pelo presidente da CPI, deputado Reginaldo Lopes a coordenar a mesa. Orlando, ressalta o viés que alimenta a vontade de levar o debate para o máximo de pessoas possíveis. “A CPI, ela foi constituída para colocar um holofote e dar visibilidade para a maior tragédia que o Brasil vive nesse momento, que é o genocídio da juventude pobre e negra. O objetivo da CPI nesse momento, quando a gente abre para dialogar com a sociedade, é colher não só denúncias. Não só depoimentos de famílias. Porque para nós, não adianta olhar as estatísticas, porque pessoas não são apenas estatísticas, tem mãe, filhos e filhas, irmãos e irmãs por trás dos números analisados na sociologia. O que queremos é colocar um pouco de vida no debate sobre a violência que acontece hoje no Brasil”.


A audiência com aproximadamente 400 pessoas presentes contou com a participação de várias entidades dos movimentos sociais, além de uma intervenção contra a redução da maioridade penal realizada por jovens da UJS.

Os rappers Flávio Renegado, Thaíde e membros da Nação Hip Hop também deixaram suas experiências, críticas e opiniões na audiência que foi além das 23 horas.

Um documento da sociedade civil foi entregue ao presidente da CPI, com os dados coletados e o histórico das ações dos movimentos sociais ligados ao tema em São Paulo. Ao final, a jovem liderança juvenil negra, Wesley Machado, representante da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), deixou sua mensagem, parafraseando os Racionais, “Capítulo 4, Versículo 3”: 

“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais
já sofreram violência policial
A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras
Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros
A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”.


De São Paulo, Eder Bruno

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