Brasil

9 de março de 2015 - 17h55

Palestina ocupada: O desafio à justiça e os mediadores fajutos


Palestine News Network
Palestinos do campo de refugiados de Aida, na Cisjordânia, fazem funeral simbólico em 28 de julho 2014 em homenagem aos até então 1.100 mortos na Faixa de Gaza, vitimas dos bombardeios israelenses. Palestinos do campo de refugiados de Aida, na Cisjordânia, fazem funeral simbólico em 28 de julho 2014 em homenagem aos até então 1.100 mortos na Faixa de Gaza, vitimas dos bombardeios israelenses.
No apagar das luzes após o espetáculo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu no Congresso dos EUA e a torrente de análises midiáticas que o permearam, o presidente estadunidense Barack Obama retomou contatos para tentar outro período de negociações entre israelenses e palestinos, de acordo com a Casa Branca. 

Já o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que seria novamente a figura da mediação norte-americana em um “processo de paz” fantasioso e inócuo – garantindo apenas um manto diplomático à ocupação israelense dos territórios palestinos – criticou recentemente o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas pela investigação das ofensivas israelenses contra Gaza e contra a Cisjordânia, lançadas a partir de junho de 2014. O direito internacional e a responsabilização das autoridades israelenses são os recursos dos palestinos, que ainda enfrentam obstáculos abissais neste sentido.

Para Kerry, que de “neutro” não tem sequer a pretensão, o Conselho de Direitos Humanos tem “obsessão e parcialidade” contra Israel. O chanceler estadunidense repetiu no início do mês, em Genebra, as alegações feitas em rompantes raivosos pelo governo sionista – de ideologia racista e colonizadora – para rechaçar a investigação das suas ações contra os palestinos.

A estratégia não é inédita, mas desta vez, além das 2.200 mortes na Faixa de Gaza, dezenas também foram denunciadas na Cisjordânia, assim como mais de mil detenções arbitrárias e demolições de lares como "medidas punitivas", desde junho de 2014, em outra “operação militar”

Em dezembro passado a Associação palestina de Apoio aos Prisioneiros e Direitos Humanos "Addameer" contabilizava 6.200 palestinos presos, inclusive 156 crianças e adolescentes e 465 sob a arbitrária classificação de "detenção administrativa". A situação agrava-se e há quem esteja na expectativa de outro levante popular palestino nos moldes das “intifadas” que eclodiram 1987 e de 2000, quando a ocupação agudizava-se e as representações teatrais do “processo de paz” evidenciavam-se como verdadeiras sentenças contra o Estado da Palestina.

Para os integrantes da comissão de inquérito do Conselho de Direitos Humanos, já desfalcada pela retirada do jurista canadense William Schabas, perseguido pelo governo israelense, a questão é demasiado importante e complexa para que um relatório seja entregue em março. Na carta divulgada pelo departamento de imprensa do Conselho, o grupo promete justiça às vítimas que enviaram seu testemunho - majoritariamente por e-mail ou correio, devido à falta de acesso aos territórios palestinos ocupados - e pede ao presidente do Conselho a extensão do prazo. 

Aliança EUA-Israel garante a ocupação

Na alternância entre o achaque e a deslegitimação das vozes críticas e a propaganda para a autopromoção enquanto a parte moral da história, o governo israelense conta com a aliança dos Estados Unidos. Mesmo enquanto mostrava-se insatisfeita pela aparição de Netanyahu perante o Congresso dos EUA para criticar as negociações com o Irã sobre o programa nuclear persa, a Casa Branca divulgou uma lista intitulada “Cinco coisas que você precisa saber sobre as relações EUA-Israel no governo Obama”, para assegurar que essa aliança apenas se fortalece. Leia a tradução da lista caricata a seguir:


Mesmo assim, são estes os que se apresentam enquanto mediadores de um “processo de paz” comprovadamente falido. Às vésperas das eleições, em que pode ser desbancado pela lista encabeçada pelo Partido Trabalhista, também sionista, Netanyahu é personagem central de uma reportagem no jornal israelense Yiedioth Ahronoth sobre “concessões secretas” supostamente feitas aos palestinos há alguns anos, mas rechaçadas durante o último período de negociações, entre julho de 2013 e abril de 2014. O premiê teria aceitado a condução dos diálogos com base nas fronteiras de 1967, anteriores ao seu avanço na ocupação, com a Guerra de Junho daquele ano. Embora a mídia israelense desvincule da ocupação as eleições do dia 17, o governo estadunidense, de acordo com funcionários da Casa Branca, espera pelo resultado para promover negociações. 

Entretanto, em resposta à reportagem, publicada pelo Yiedioth Ahronoth na sexta-feira (6), e aproveitando a agressiva empreitada estadunidense contra os monstros do "terrorismo" encarnados no chamado "Estado Islâmico", Netanyahu afirmou nesta segunda (9) que não pretende "entregar territórios", ou seja, retirar-se das vastas porções ilegalmente ocupadas para que o Estado da Palestina seja viabilizado.

Representantes palestinos, porém, já demonstram cada vez mais seu descontentamento com o desempenho do aliado de Israel. O apelo é pela inclusão de novos atores no processo diplomático, que se vê num impasse estrutural desde a década de 1990. Após a assinatura dos Acordos de Oslo, a partir de 1993, os números da ocupação e do massacre dos palestinos ascendem. Além disso, a situação nacional, após a reconciliação entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o Hamas, que governa a Faixa de Gaza, continua enfrentando desafios. 

O Hamas foi incluído na lista de organizações terroristas pelo governo do Egito e a Autoridade Nacional Palestina – “órgão de autogoverno” criado pelos Acordos de Oslo – sofre pesadas e acumuladas sanções tanto de Israel quanto dos Estados Unidos, onde uma Corte responsabilizou arbitrariamente a OLP e determinou que pagasse mais de US$ 650 milhões em indenizações por seis atentados durante a segunda intifada. Enquanto isso, milhares de palestinos continuam desabrigados na Faixa de Gaza após a devastação da terceira ofensiva militar em cinco anos, e outras famílias perdem suas casas na Cisjordânia.

O enviado da ONU para o Oriente Médio Robert Serry, que realizou sua última visita antes de deixar o posto, pediu uma “trégua” de três a cinco anos para que Gaza pudesse ser reconstruída – já que até materiais de construção são barrados –, mas a repetição fatal das ofensivas e as consequências do bloqueio imposto ainda em 2007 são evidências de que a solução só pode ser o fim da ocupação israelense e a soberania do Estado da Palestina.
 
*Moara Crivelente é cientista política e jornalista, membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) na assessoria à presidência do Conselho Mundial da Paz.


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