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10 de dezembro de 2014 - 17h00

Palestina ocupada: opressão e morte são estratégias do regime sionista


Ministro palestino encarregado das colônias ilegais de Israel e do muro de segregação, Ziad Abu Ein foi morto por soldados israelenses durante um protesto, no Dia dos Direitos Humanos, próximo a Ramallah, na Cisjordânia.   Ministro palestino encarregado das colônias ilegais de Israel e do muro de segregação, Ziad Abu Ein foi morto por soldados israelenses durante um protesto, no Dia dos Direitos Humanos, próximo a Ramallah, na Cisjordânia.  
Em 1981, a Assembleia Geral das Nações Unidas emitiu uma de várias resoluções específicas sobre o caso de Abu Ein e uma das inúmeras relacionadas à causa palestina. Abu Ein era transferido dos Estados Unidos, onde ficou dois anos encarcerado, para Israel, onde cumpriu mais de 10 anos de prisão. A resolução 36/171 reafirmava a posição: a resistência palestina é justa. O documento, que lamentava a decisão dos EUA de entregar o palestino a Israel, reafirmava a "legitimidade da luta pela independência, pela integridade territorial, a unidade nacional e a libertação da dominação colonial e estrangeira ou subjugação estrangeira através de todos os meios disponíveis."

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Abu Ein, que tem um longo histórico na resistência palestina, foi nomeado ainda neste ano para a Comissão contra o muro e as Colônias ilegais israelenses na Cisjordânia. Antes disso, foi subsecretário do Ministério dos Prisioneiros, dedicado à luta contra as detenções arbitrárias e massivas por parte do regime israelense. Atualmente, há cerca de sete mil prisioneiros palestinos em cárceres israelenses, inclusive quase 200 crianças e mais de 15 parlamentares, de acordo com a Associação palestina de Apoio aos Prisioneiros e aos Direitos Humanos, Addameer.

O ministro foi morto por soldados israelenses que o agrediram e que mais uma vez reprimiram uma manifestação com bombas de gás lacrimogênio, balas de metal revestidas de borracha e outros métodos brutais frequentemente empregados pelos soldados, durante um protesto contra o muro (que corta e se expande pela Cisjordânia desde 2002), no Dia dos Direitos Humanos. As autoridades palestinas condenaram o episódio e alertaram: elaboram respostas às crescentes violações perpetradas pelo regime israelense.

O muro israelense já tem mais de 700 quilômetros e oito metros de altura em grande parte da sua extensão.
O projeto foi lançado por Ariel Sharon em 2002, com a tomada de mais terras palestinas e a consolidação
de um sistema de segregação e ocupação que contribui para a limitação da mobilidade dos palestinos. 

Ofensiva e ocupação em ascensão

Em agosto o presidente palestino Mahmoud Abbas havia apontado para o cinismo do regime israelense liderado pelo premiê Benjamin Netanyahu na escolha do Ano Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino para impor aos palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia novas “operações militares”. No primeiro território, completamente sitiado há oito anos, mais de 50 dias de bombardeios mataram cerca de 2.200 palestinos e deixaram Gaza outra vez devastada, na terceira ofensiva brutal em cinco anos. Na Cisjordânia, vários episódios de violência e repressão fatal já tinham antecedido a chamada “operação Guardião Fraterno”, lançada em junho. Quase dois mil palestinos foram presos e cerca de 100 foram mortos em protestos, em ataques dos colonos israelenses ou em outras ações em que a resistência é punida com a morte.

A solidariedade mundial aos palestinos, ainda que crescente, continua tendo de enfrentar a aliança inabalável do imperialismo estadunidense, que impede qualquer medida de responsabilização do regime israelense pelos flagrantes crimes de guerra cometidos pela “Potência Ocupante”, como é denominado Israel pelo Direito Internacional. A classificação, rechaçada pelos sucessivos governos israelenses de forma deliberada, pressupõe obrigações e garantias que Israel viola diariamente nos territórios palestinos que ocupa (Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental), estabelecidas pela Quarta Convenção de Genebra (1949) sobre a proteção de civis em tempos de guerra.

Segundo um relatório de agosto do Congresso norte-americano, desde que a ajuda militar estadunidense a Israel foi iniciada, os EUA já enviaram mais de US$ 100 bilhões, com um valor anual estabilizado em US$ 3 bilhões mais “extras” desde a década de 1970 (a entrada do pacote foi dada em 1979, quando os EUA enviaram US$ 15,7 bilhões como recompensa por Israel ter assinado um acordo de paz com o Egito). Além disso, por exemplo, o mercado financeiro, ou a economia de guerra, atrelados à indústria de armamentos, deu à Elbit, maior empresa israelense fabricante de veículos não tripulados (drones) usados por Israel na Cisjordânia e em Gaza para ataques e “vigilância”, um aumento de 6% nas ações durante os bombardeios contra Gaza, a sua “vitrine”.

Ainda assim, o primeiro-ministro israelense e seu ministro da Economia, de Assuntos Religiosos e de Jerusalém, o extremista e racista Naftali Bennett, foram mais uma vez convidados, como se fossem personalidades políticas dotadas de moralidade para a avaliação do chamado “conflito Israel-Palestina”, a darem suas opiniões no Fórum Saban, organizado pelo Instituto Brookings, nos EUA. Netanyahu voltou a culpar os palestinos e a dizer que a “paz” só seria possível se o Exército israelense continuasse presente na Cisjordânia palestina. Este foi um dos principais pontos, tacitamente respaldados pelos EUA, trajados de “mediadores”, que levaram mais um período de negociações entre a Autoridade Palestina e Israel ao fracasso. O Fórum Saban deste ano, que ocorreu na semana passada, foi intitulado "Mares revoltos: Os Estados Unidos e Israel em um Oriente Médio tumultuado", mas não contou com análises sobre o papel direto e primordial dos dois aliados na instabilidade regional, certamente. 

Racismo institucionalizado

No final de novembro, um projeto de lei aprovado e enviado ao Parlamento para votação definia Israel como o “Estado nacional do povo judeu”, cujo reconhecimento passou para a lista de exigências inaceitáveis feita pelo regime sionista aos palestinos (junto com a abdicação ao direito dos refugiados ao retorno, de Jerusalém Oriental como capital, de um Estado viável e livre da ocupação militar israelense, entre tantas outras, como o fim da resistência).

A medida foi firmemente questionada (por uns, como “contraproducente” em relação ao chamado "processo de paz", por outros, como um revisionismo retrógrado, racista e que confronta até mesmo os ideais do pai do sionismo institucionalizado em Israel, o primeiro premiê, David Ben Gurion). Também causou a turbulência na política da coalizão desenhada depois de muita negociata por Netanyahu com partidos como o de Tzipi Livni, nomeada ministra da Justiça (o Hatnuah, que se apresenta como esquerda, mas defende o sionismo, a ideologia colonizadora e racista que apresenta suas interpretações do Judaísmo como princípio) e o de Yair Lapid, ministro das Finanças (líder do Yesh Atid, de direita e também sionista).

A oposição de ambos à medida (devido à terminologia e ao momento, certamente não devido ao propósito) causou a ruptura interna e a convocação de eleições antecipadas em Israel, previstas para março de 2015, a mesma época em que deve sair o relatório da missão de inquérito enviada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU à Faixa de Gaza para averiguar as denúncias de crimes de guerra perpetrados pelas forças israelenses durante a “operação Margem Protetora”, entre 8 de julho e 26 de agosto.

Para os que enxergam na turbulência uma boa oportunidade, infelizmente, não é o caso. A ascensão da extrema-direita em Israel é preocupante, o apoio civil à própria ofensiva contra Gaza foi massivo (embora haja vários casos de oposição manifesta e também reprimida nas ruas israelenses) e o forjar constante de uma narrativa religiosa para justificar a violência contra os palestinos e a ocupação dos seus territórios volta a atingir picos. A era dos extremismos acha solo fértil em Israel, ainda que seus governantes vistam a fantasia de atores políticos racionais para participar de fóruns acadêmicos nos Estados Unidos.  

*Moara Crivelente é cientista política e jornalista, membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) assessorando a presidência do Conselho Mundial da Paz.


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