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24 de novembro de 2014 - 15h42

Marcos Aurélio Ruy: A superexploração do taxista de frota


CTB
Reportagem mostra a difícil jornada dos taxistas trabalhadores do serviço de frota Reportagem mostra a difícil jornada dos taxistas trabalhadores do serviço de frota
A revista entrevistou três taxistas em diferentes situações de vida. Como eles pediram para não serem identificados por medo de retaliações, serão aqui designados de João, José e Manoel.
Os trabalhadores contam que sentem medo principalmente por suas famílias. “Quem tenta fazer qualquer coisa para reivindicar direitos trabalhistas é ameaçado”, diz José. “Chegam até a ameaçar a família e aí a coisa pega para valer porque eles sabem onde moramos”, reforça Manoel. João concorda com seus companheiros e afirma que engole inúmeros sapos diariamente por sentir medo de fazerem algo com seus filhos.

João contou estar na mesma empresa há 2 anos, quando iniciou sua vida de taxista. “Quem está de fora não consegue imaginar a dureza que é dirigir todos os dias nesse trânsito louco de São Paulo. Quando iniciei nessa carreira pensava que iria ter um bom rendimento e conseguiria juntar um dinheirinho para me inscrever para o sorteio de alvará promovido pela prefeitura e comprar um carro em prestações para ficar independente”, relata.

Exploração extrema

“Mas logo caímos na real”, conta José. “A situação da categoria é bem pesada. Temos que ‘bater lata’ de domingo a domingo para conseguir um salário que dê para pagar as contas e manter a família”, reforça. Ele está na frota há 5 meses e reclama do estresse que passa pela obrigação de pagar uma diária de R$ 170 para a empresa. “Se ao menos os patrões cobrassem menos, talvez tivéssemos mais tranquilidade para trabalhar. Todos os dias já saímos de casa devendo R$ 170 para os donos da empresa”, reclama. Eles contam que precisam de uma autorização para trabalhar nessa área, chamada Condutax. “Temos que fazer curso onde aprendemos a lidar com o público, como se comportar, se trajar e direção defensiva” (sic), relata João.

Eles mostram suas carteiras profissionais registradas com o salário mínimo. “O complemento vem do serviço, por isso somos forçados a ralar tanto, porque com salário mínimo é impossível pagar aluguel, cuidar de filhos e conseguir abastecer o táxi todos os dias para conseguir o pão do dia”, realça Manoel. O trabalhador José lembrou do tiro que levou no ombro esquerdo num assalto, ficando afastado por 5 meses recebendo com base no salário mínimo somente.

Além de pagarem esse tipo de aluguel do carro para trabalharem, os taxistas de frota são responsáveis pelo abastecimento dos veículos. Segundo eles, já iniciam a jornada devendo R$ 250 “e isso de segunda a sábado”, diz João. “Temos que ralar muito para fazer a feirinha do dia.
Nunca trabalho menos de 14 horas de domingo a domingo. Principalmente porque no domingo não temos que pagar a diária. Já cheguei a trabalhar 20 horas seguidas para pelo menos conseguir cobrir os gastos do dia. É quando se pode ganhar um pouco mais para manter o leite das crianças”, ressalta Manoel, que é casado e tem dois filhos. “Fico muito estressado quando não consigo fazer dinheiro suficiente para pagar a diária. Muitas vezes fico rodando pela cidade, gastando gasolina e tenho que usar dinheiro da minha mulher para completar a diária e abastecer o carro no dia seguinte. Porque se atrasa o pagamento eles cobram multa de R$ 10”, reclama.

O mundo cor-de-rosa dos empresários

Segundo a Associação das Empresas de Táxi do Município de São Paulo (Adetax) existem na cidade 33.922 táxis, divididos em pessoas físicas, com o número de 30.362 taxistas autônomos, que contam com isenção de IPI, ICMS e IPVA. As pessoas jurídicas contam com um total de mais de 4 mil táxis divididos entre 58 empresas sem nenhum desconto nos impostos, segundo a Adetax. Em São Paulo há um táxi para cada 305 habitantes. Ainda segundo a entidade patronal existem três subcategorias de táxis na capital, divididas de acordo com as tarifas. Há 148 táxis de luxo na cor preta, 630 na linha especial nas cores vermelha e branca e os comuns com 33.145 táxis na cor branca. As empresas atendem somente na subcategoria comum.

Os números são grandiosos. Segundo a Adetax, os taxistas de frota rodam mais de 20 milhões de quilômetros em um mês, consumindo cerca de 2,3 milhões de litros de combustível e 12 mil litros de óleo para motor. Consomem mais de 1,5 mil pneus. Esses dados dão uma ideia da jornada a que os trabalhadores são expostos diariamente. “O nosso trabalho é um dia pelo outro”, afirma o Manoel, “porque há dias em que se consegue um bom dinheiro, mas não pode relaxar, pois no dia seguinte podemos não conseguir nada.”

A vida como ela é

“A minha esposa já anda reclamando muito da minha ausência em casa, quase não vejo meus filhos acordados e nem sempre consigo levantar o dinheiro para pagar a taxa cobrada”, ressalva Manoel. José também reclama de ficar tanto tempo longe da família. “Minha noiva já está quase me dando as contas”, lamenta.

Uma das reivindicações desses trabalhadores é para a Prefeitura realizar novo sorteio de alvarás. Os alvarás são autorizações públicas que começaram a valer a partir de 1988 para atuação na área como autônomo, mas a legislação permite a transferência de um motorista para outro. Os taxistas revelam, no entanto, que é muito comum a venda e o aluguel de alvarás. “Tem aposentado que aluga o alvará até por R$ 2 mil”, denuncia José. “No caso de vendas já vi casos de preços superiores a R$ 200 mil por um alvará. Dependendo da região, do ponto, o preço é um”, conta Manoel.

“O último sorteio ocorreu em 2011”, fala João. Segundo eles, a prefeitura distribui alvarás para as empresas de frotas e não favorece as pessoas físicas. “Gostaria que a Prefeitura olhasse mais pela gente. Só queremos trabalhar em melhores condições e ganhar o nosso pão de cada dia honestamente”, desabafa José. Segundo João “foram sorteados em 2012 dois mil alvarás com somente 1,2 mil contemplados. “Aí eu pergunto onde estão os 800 que sobraram?”. Manoel complementa: “Por que não teve novo sorteio ainda?”.

Além de toda essa situação, os taxistas reclamam da insegurança no trabalho. “Como somos obrigados a ficar rodando pelas ruas, por não termos direito a ponto fixo, corremos riscos constantes”, conta o João. “Eu fui assaltado faz pouco tempo por dois motoqueiros. Ainda agradeço por não terem feito nada comigo. Apenas levaram o dinheiro. Sempre carrego o que chamamos de ‘o dinheiro do ladrão’ para qualquer eventualidade”, explica. “Mas o medo é constante. Nunca sabemos quem estamos levando e a violência nas ruas de São Paulo são permanentes”, relata Manoel.

Insegurança total


José revela que foi assaltado e não deu a mesma sorte. “Levei um tiro no ombro esquerdo e precisei fazer cirurgia. Você acredita que a empresa queria me cobrar a diária desse mesmo dia?”, esbraveja. “Fiquei 5 meses afastado, recebendo com base no salário mínimo que consta na carteira profissional”. Por isso, “estou quase saindo dessa profissão, mesmo gostando de dirigir e sabendo que poderia ganhar bem melhor, o estresse está me matando”.

“Dificilmente você pega um taxista de frota que não seja estressado”, reforça Manoel. Além do medo de assalto, os motoristas precisam preocupar-se com acidentes e multas. “Se bater o carro, seja culpa sua ou não, tem que pagar”, diz João. “Nem multa eles perdoam. Se distrair e for multado, paga”, revolta-se. “Ninguém quer saber quantas horas estamos rodando, se o cansaço, o sono chegou. Tanto que muitas vezes entro no primeiro motelzinho que encontro e durmo”, revela João. “Isso quando o dinheiro ainda dá para pagar, senão paramos em algum posto de gasolina e pedimos para estacionar para tirar um cochilo”, sinaliza José.

A situação é tão periclitante que Manoel conta que já teve dias de iniciar com o táxi às 7 horas e só parar para almoçar às 17 e depois rodar até às 3, 4 da manhã. “Não podemos cair doente porque se não trabalhar não ganha e ainda tem que pagar a diária da mesma forma”, observa João. “Só podemos nos ausentar do trabalho se a situação for muito grave. E mesmo assim ainda duvidam da nossa palavra”, diz.

“Na verdade, esta é uma área que daria para ganhar bem se saíssemos de casa despreocupados, sem dever de cara R$ 170 ao patrão. Parece trabalho escravo”, sintetiza o João. “Sabe, no primeiro mês de trabalho aqui perdi 18 quilos de tamanho nervosismo. Não estava acostumado, não conseguia comer direito. Tanto que minha primeira mulher me deixou, não suportou ficar sozinha, não poder sair nos fins de semana, essas coisas”, segreda José.

Números grandiosos x condições péssimas

A Adetax diz que as empresas de frotas de táxi são responsáveis por 1,2 mil empregos diretos e por 5 mil indiretos na capital paulista. Esses taxistas, segundo eles, transportam 2 milhões de passageiros por mês. São responsáveis pela operação de mais de 70% do transporte de táxi à noite. “A insegurança é muito maior à noite. E nós não temos jornada de trabalho definida. Fica difícil aguentar tanta carga”, ressalta João. “A nossa responsabilidade é muito grande para tão pouco reconhecimento e remuneração”, reclama Manoel.

Eles se revoltam também com a discriminação que sofrem até por colegas de profissão. “Os frotistas são a ralé dos táxis”, lamenta João. “Se pararmos em algum ponto de táxi corremos sério risco de apanhar”, reforça José. “Geralmente os taxistas que possuem alvará conseguem cobrir eventos com mais facilidade. Para nós, apenas quando a empresa consegue e aí pergunta quem quer trabalhar naquele evento”, fala João.

“E quem tenta fazer alguma coisa é ameaçado. Até a família eles ameaçam. Isso é uma máfia”, alega Manoel. “Por isso temos medo de identificação”. Os três trabalhadores concordam sobre a questão dos alvarás, que criaria a possibilidade de se tornarem autônomos. Mas principalmente acreditam na necessidade de unidade dos frotistas para tentar mudar a situação. “A categoria é muito desunida porque todos precisam trabalhar e ficam com medo de enfrentar os patrões e ficarem sem emprego”, acentua Manoel.

"Em pleno século 21, a nossa luta é para termos dignidade no trabalho, será que é pedir muita coisa?”, pergunta José. “Gostaríamos de ter horário para entrar, horário para ir para casa, ter descanso remunerado, passar horas e dias com a família, essas coisas”, reforça João. Pelo que se vê, os taxistas de frota de São Paulo querem trabalhar e viver como outro qualquer do planeta.


*É jornalista


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