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4 de novembro de 2014 - 19h30

Nasrallah: Estado Islmico maior distoro do Isl


Al-Manar
O secretrio-geral do Hezbol O secretrio-geral do Hezbol
Leia a seguir trechos do discurso proferido na emissora de televiso Al-Manar, da organizao libanesa:

"O que vivemos atualmente no mundo islmico e em particular na nossa regio, luz dos desenvolvimentos dos ltimos anos, e do crescimento em poder, na expanso e na rea que controlam, de uma das correntes que chamamos "takfiri", com territrios j muito extensos em alguns pases rabes e islmicos, e com suas prticas horrendas, brbaras, ultrajantes, s quais assistimos e das quais ouvimos falar dia e noite, tudo isso nos convoca para que tomemos posio com coragem, e, tambm, para que definamos claramente a natureza do perigo que a est, com a tomada do controle por corrente takfiri de um ou de outro pas rabe ou muulmano, ou, mesmo, de vrios pases.

Meus irmos e irms! Com toda a franqueza – e meu objetivo ser simples e claro; e tambm sero simples e clara as provas que lhes exporei – e, como hbito meu, evitarei qualquer terminologia erudita ou complexa. Assim, com plena franqueza, sem exagerar coisa alguma, sim, se pode dizer que os perigos que hoje ameaam o Isl so comparveis queles que enfrentamos nos anos 60-61 da Hgira [martrio do Im Hussein, num momento no qual o Isl esteve ameaado de extino].

Primeiro, h a ameaa que aquela corrente impe sobre o Isl, como religio, como mensagem, como valores e princpios. Como? Vou-lhes demonstrar que, sim, h perigo real.

Para comear, essa corrente reivindica o Isl, no discurso; reclamam para eles o Coro, e como preveem algumas profecias, para a nossa poca, esses indivduos conhecem de cor o Coro. Decoram o Coro e o invocam guisa de prova, recitam versculos no discurso pblico deles. E, isso, mesmo quando invadem, degolam, matam ou consumam uma daquelas atrocidades deles, que retransmitem pela televiso ou pela internet, invocam Deus em tudo que dizem: "Deus Todo-Poderoso disse, etc."

Evidentemente, compreendem mal os versculos cornicos e baseiam-se em simulacros. Cometem erros graves na compreenso e na interpretao do Coro - mas essa pesquisa exegtica parte, que no cabem aqui e agora.

O que preciso ter em mente que para cada um de seus atos, eles invocam a autoridade de versculos cornicos ou de hadiths falsificados e falsamente atribudos ao Profeta (Que a Paz Esteja com Ele). Inventam que o Profeta teria dito uma coisa ou outra."

Implica dizer que no justificam seus crimes por atribu-los a um pensador, a um professor, ao xeique, ao mestre ou ao movimento do qual so adeptos, e cujas pegadas e voz eles seguem com os atos deles. Mas procuram atribuir aqueles crimes diretamente ao Livro de Deus o Todo Poderoso e ao Seu Profeta - paz e bnos de Deus sobre ele e sua famlia.

Evidentemente, esse procedimento muito perigoso. O que querem obter com isso? Trata-se de implantar no esprito das pessoas, caso aps caso, dia aps dia, ano a ano, que isso seria o Isl! Querem divulgar a ideia de que o Isl aquilo que eles fazem, no que o que eles fazem ao de alguma seita desviante ou rejeitada pelo Isl, e que nada tem com o Isl, no. Querem fazer crer que o Isl o que eles fazem!

Por isso que comeamos a ouvir, em alguns pontos do Ocidente, mas tambm em nossa regio, gente que diz que no que estejamos diante de interpretao diferente do Isl - porque h escolas diferentes e divergentes no Isl, correntes diferentes de pensamento -, mas sim, que o Isl , mesmo, o que aqueles takfiri dizem que o Isl seria! "A religio de vocs isso! O Coro de vocs esse! Esse o Profeta em que vocs creem!" Evidentemente, a est algo muito, muito perigoso.

Com o tempo, essa ideia se enraizar nos espritos e essa compreenso errada, falsa, infame do Isl, do Livro do Isl, o Coro, e do Profeta do Isl, paz e bnos de Deus sobre ele e sua famlia.

No tenho dvidas ao afirmar que o que estamos vendo hoje a maior distoro do Isl, em toda a histria. E digo-o com toda a convico.

Em primeiro lugar, a natureza dos eventos que se desenrolam hoje tm poucos exemplos na histria, embora haja precedentes e, sim, se encontrem um ou outro exemplo assemelhado, aqui e ali.

Mas o mais grave a segunda razo que lhes exponho agora, a saber: vivemos hoje uma poca em que h muitos e muitos meios de comunicao, a mdia, que distribui vdeos, imagens, sons, ideias, palavras e falas, para dentro de cada casa e de cada orelha, pelo mundo todo.

No passado, atrocidades semelhantes podiam at acontecer, mas no eram to insistentemente divulgadas, no eram convertidas em imagens e som, em alta definio e detalhadamente. Antes, atrocidades semelhantes s foram reveladas bem depois de terem sido cometidas.

Mas hoje tudo se faz online. Hoje se degola online. Massacres em grande escala so transmitidos ao vivo. H profuso de sons e imagens para cada crime que se comete pelo mundo.

E todos sabemos que imagens e sons so muito mais marcantes para espritos, coraes e sentimentos, que a fala ou a palavra escrita.

Por isso que o que se passa hoje a maior ameaa que o Isl jamais enfrentou, no que tenha a ver com degradar valores, ensinamentos, o pensamento e a reputao do Isl.

Consequncia disso tudo, , em primeiro lugar, que os no muulmanos afastam-se do Isl.

Hoje, em muitos pases do mundo, h quem no seguia religio alguma, seja por que lhes faltasse algo no plano do pensamento, do dogma, da espiritualidade, da moral. E muitos, quando comeam a saber mais sobre o Isl, convertem-se a ele.

H adoradores de dolos no mundo. H muitos princpios e dogmas variados. Muitos, em dado momento da vida aceitam o Isl, acolhem o Isl, e em muitas partes do mundo.

O que porm est acontecendo hoje? Aquelas pessoas esto sendo expostas a algo que se faz passar pelo Isl e, ainda mais grave, fazem-se passar pelo nico Isl autntico, pelo Isl verdico - porque aquela gente insiste sempre muito nessa terminologia: "autntico", "verdico", "certo", "reto", etc.

Claro que quem veja aqueles crimes pergunta-se "Mas isso o Isl? Ento, no quero nem ouvir falar nisso!" Recusar-se-o at a discutir qualquer coisa, a aproximar-se, a pesquisar, a perguntar.

A segunda consequncia que tudo isso distancia os no muulmanos, dos muulmanos. Porque isso apresenta os muulmanos como um bando de brbaros, de criminosos sedentos de sangue, que no podem coexistir com absolutamente nenhum ser humano. Naturalmente, isso expe as comunidades muulmanas, os grupos e os povos em todo mundo, aos perigos do isolamento, da animosidade e a sentimentos de hostilidade.

A terceira consequncia, que igualmente muito perigosa, que tudo isso distancia os prprios muulmanos, do Isl. H muitos muulmanos que pouco sabem sobre o Isl. E se a mdia pe-se a repetir "Veja aqui o que o Isl, os xeques do Isl, os professores do Isl, os jihadistas do Isl, os degoladores do Isl"... muitos daqueles muulmanos diro: "Para mim, basta! Nada tenho a ver com essa religio nem com o Isl".

Essa a razo pela qual assistimos hoje ao comeo - no quero ampliar os fatos, mas em mais de um pas rabe, at na Arbia Saudita, no Egito, noutros pontos, j comeam a crescer os nmeros do atesmo, ou j se comea a falar de uma onda de atesmo.

Por que tudo isso importante? Por que nos preocupar com isso? Porque, no passo seguinte, acontecer de muitos porem em dvida o Coro, a profecia de Maom (Que a Paz Esteja com Ele), de duvidarem de que seja ou no um Profeta, at porem em dvida a prpria existncia de Deus.

Como diz a expresso popular: "viraram muulmanos sem f", precisamente o que acontecer. J se veem sinais disso em vrios locais. No digo que seja movimento significativo, de grandes propores, mas falo como medida de precauo, porque j h evidncias, j se veem comeos, e comeos perigosos.

Tudo isso toca at os crentes mais firmes e fervorosos do Isl. Chega um momento no qual, por causa da repetio insistente, por meses, anos, por exemplo: "Terroristas explodem prdios? Explodem e, ao mesmo tempo gritam Allahu Akbar!" [Deus o maior]. "Terroristas degolam? Degolam e, ao mesmo tempo, gritam Allahu Akbar!" Seja qual for a barbaridade que algum cometa, ouvem-se gritos de Allahu Akbar!, como a mdia no se cansa de repetir e repetir. Forosamente, chegar um momento em que, se se ouvir algum dizer Allahu Akbar!, todos pr-se-o a esperar por uma exploso, um assassinato, um degolamento, uma catstrofe horrvel qualquer, sempre acontecida em pases rabes e muulmanos, entre povos rabes e muulmanos.

Da se chega rapidamente desmoralizao de todo o pensamento islmico, dos hbitos, da cultura, dos smbolos, das tradies islmicas. O hijab (vu), a abaya (vestido longo) tornam-se manifestao chocante, etc. A barba torna-se sinal de perigo. A palavra "jihad" vira sinal de perigo. A palavra "mrtir" vira palavra infame.

No claro que h a perigo grave para todo o Isl? O que, afinal, o Isl? O Isl seus conceitos, seus ensinamentos, seus valores, seus hbitos, suas tradies.

A est o primeiro ponto, no que concerne ameaa que pesa sobre o Isl.

Em seguida, tem-se de considerar tambm a ameaa contra a estrutura geral da Nao (islmica), porque de fato esse Estado Islmico ameaa nossa Comunidade inteira: esfacela essa Comunidade, a divide, torna lcito o assalto ao sangue, aos bens, honra, aos santurios, s mesquitas, s igrejas que constituem uma outra parte dessa Comunidade, a todos os monumentos e relquias histricas, a tudo que se relacione histria, todos os tmulos, etc., nada mais pode existir, tudo est ameaado.

A cena geral que o Estado Islmico oferece cenrio de esfacelamento, de destruio, de guerra sangrenta. Observem a regio: por toda a parte veem-se conflitos sangrentos, aqui, ali, por toda a parte.

Por qu? Por que chegamos a isso?

A ponto de que as pessoas j no podem mais falar umas com as outras, nem dialogar, nem encontrar uma via poltica, sequer encontrar um modo de se entender umas com as outras. Qual a causa disso tudo?

Claro que h vrias causas e vrias razes, mas uma das principais e primeiras que se implantaram em nossa regio foras e movimentos que no se dispem ao dilogo, nem ao debate, que acreditam que possuiriam a verdade absoluta, que veem todos que sejam diferentes deles sempre como coisa negativa, radical, intransigente e odiosa, da qual falarei adiante. Essa a causa principal. Voltaremos a esse assunto, depois dessa primeira parte. E permitam-se concluir essa primeira parte com o seguinte: sim o que se passa atualmente em nossa regio e no mundo grave ameaa contra o Isl, como religio; e tambm grave ameaa contra a Comunidade e as sociedades islmicas, como entidades.


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