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21 de outubro de 2014 - 19h20

Ocupação e massacres: Abbas volta a denunciar Israel aos "doadores"


Quando as bombas de Israel deixaram de cair sobre a Faixa de Gaza, completamente bloqueada há cerca de oito anos, a recolha das vítimas fatais pelas ruas ou sob os escombros e as estimativas sobre o custo da destruição novamente imposta aos palestinos permeou as análises daqueles chocados com a repetição da história.

A ofensiva militar contra Gaza, “Margem Protetora”, ocorreu simultaneamente com outra ofensiva contra a Cisjordânia, “Guardião Fraterno”, anunciada ainda no início de junho. Como consequência, apenas na Cisjordânia o número de palestinos presos subiu de 5.200, em maio, para 6.271, em setembro, número que incluía mais de 200 crianças e dezenas de parlamentares, de acordo com a Associação palestina de Apoio aos Prisioneiros e Direitos Humanos Addameer. A maior parte foi encarcerada segundo a arbitrária “detenção administrativa”, uma clara violação do direito internacional que permite detenções sem acusação formal, julgamento ou acesso à defesa, em que os detidos podem permanecer encarcerados por períodos renováveis de seis meses.

Mas esta é apenas uma das flagrantes violações cometidas pelas forças israelenses que ocupam a Cisjordânia. Vários casos de demolições de residências, batidas militares que resultarem em confrontos e mortes, desapropriações e expulsões, assim como o aumento exponencial na construção de casas nas colônias israelenses ilegais e a intensificação da violência contra os palestinos – por parte dos soldados e dos colonos – foram também constantes nas denúncias intensificadas sobre a prática da ocupação. Estas denúncias são combinadas em um processo a ser aberto contra a liderança israelense, responsável por flagrantes crimes de guerra não apenas durante os bombardeios, mas através das políticas cotidianas e instrumentos jurídicos domésticos que simulam regularizar a segregação.

Há poucos dias, a chamada “Conferência de Doadores” reuniu no Cairo, Egito, representantes de países, como os Estados Unidos - que enviou o secretário de Estado John Kerry, na foto com a chefe da diplomacia europeia Catherine Ashton - e alguns europeus para discutir a reconstrução de Gaza, novamente devastada por mais de 50 dias de bombardeios israelenses. Os "doadores" prometeram US$ 5 bilhões em ajuda aos palestinos. Mais de 10 mil lares foram destruídos, assim como centenas de hospitais, clínicas, escolas e a rede de abastecimento elétrico e de esgoto. A indústria alimentícia, entre outras, também ficou destruída. Mais uma vez – ao menos a terceira em cinco anos – os palestinos ficaram dependentes da ajuda estrangeira, sempre condicionada, para reconstruir pela enésima vez a sua vida, enquanto ainda estão de luto pelas mais de 2.150 pessoas mortas, inclusive quase 600 crianças.

Por outro lado, entre os “doadores” estão responsáveis diretos por essa condição, como é o caso dos EUA, que além de enviarem anualmente US$ 3 bilhões em ajuda militar a Israel, enviaram mais US$ 225 milhões durante os bombardeios e mantiveram sua negligência assombrosa diante dos crimes perpetrados por seu maior aliado contra o povo palestino.

Ao mesmo tempo, os abusos contra os palestinos por todo o território ocupado, inclusive crianças, não cessam. A organização israelense de defesa dos direitos humanos B'Tselem divulgou recentemente um vídeo que mostra soldados de Israel detendo e atando uma venda a um garoto de 11 anos de idade, A. a-Rajbi, perto da colônia Kiryat Arba, próxima à cidade palestina de Hebron. O garoto tem deficiência mental.



Os confrontos em Jerusalém, nos bairros palestinos ocupados e na Cidade Antiga, onde fica a importante Mesquita Al-Aqsa, também recrudescem. As autoridades israelenses chegaram a proibir a entrada de palestinos menores de 50 anos de idade para as orações no local, o que voltou a gerar embates violentos inclusive com colonos que adentraram o recinto, em provocação. Na periferia da cidade, a expropriação de mais terras palestinas para a construção de casas israelenses e a expansão de grandes colônias voltam a ameaçar a viabilidade do Estado da Palestina, cada vez mais retalhado pela ocupação. É o caso também de outra região importante da Cisjordânia, Belém, fragmentada pela estrutura da segregação imposta por Israel através um regime à parte, militar, aos palestinos.



Durante a “Conferência de Doadores”, o presidente palestino Mahmoud Abbas afirmou, depois de ter sido criticado por Israel por sua denúncia diante da Organização das Nações Unidas (ressaltando que a liderança israelense escolheu justamente o Ano Internacional de Solidariedade com a Palestina para mais um episódio no genocídio do seu povo): “Eu gostaria que não tivéssemos que nos reunir em tal conferência pela segunda vez. Esperaria que o processo de paz construído sobre os acordos de Oslo e assinados há mais de 20 anos encontrasse o sucesso. Esperaria que a Iniciativa Árabe de Paz fosse implementada, e que uma visão para a solução de dois Estados fosse respeitada.” Apesar disso, continuou o presidente, “Israel insiste em ocupar as terras do Estado da Palestina, inclusive dentro e à volta da sua capital, Jerusalém Oriental.”

Abbas lembrou que, durante os últimos cinco anos, três ofensivas militares resultaram na morte de ao menos 3.760 palestinos apenas através dos bombardeios. Além disso, dezenas de pessoas foram mortas pelas forças israelenses na Cisjordânia e na própria Gaza em períodos em que não havia “operações militares” declaradas.

As autoridades palestinas têm ressaltado constantemente a insustentabilidade da situação e a doutrinária posição israelense em “gerir” o conflito, mas não solucioná-lo. Por isso, o empenho dedicado pelo Estado ocupado da Palestina – como os documentos palestinos oficiais passaram a referir – à sua integração no direito internacional, com a adesão ou candidatura a dezenas de tratados e organizações internacionais, gerou a resposta virulenta de Israel. Foi assim, também, quando a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o Hamas, partido à frente do governo em Gaza, assinaram o importante acordo de reconciliação para a construção de um governo de unidade.

O governo israelense insiste em acusar os palestinos de não serem “parceiros para a paz”, mesmo que seja o próprio a recusar terminantemente o fim do conflito, ou da ocupação, enquanto os “doadores” ainda tomam posições insuficientes para cumprir o seu compromisso com a libertação da Palestina. Para o fim do ciclo de massacres, da expropriação, da devastação e da segregação, apenas o Estado livre da Palestina servirá.

*Moara Crivelente é cientista política, jornalista e membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), assessorando o Conselho Mundial da Paz. 


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