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13 de outubro de 2014 - 12h37

A economia europeia contabiliza os fracassos de seus governos


   
Por ordem do bloco comunitário, os analistas da economia deverão acrescentar os dividendos resultantes do narcotráfico e da prostituição às tradicionais contabilidades nacionais da produção, do comércio interno e das exportações.

A UE estabeleceu que, "para garantir comparações consistentes entre os membros", o cômputo do Produto Interno Bruto (PIB) de cada Estado deverá refletir os lucros vinculados às atividades ilegais, independentemente de considerações morais.

Segundo os regulamentos, cada país da União deve contribuir com o orçamento compartilhado de acordo com sua renda nacional.

Em vários desses países os serviços sexuais e o comércio de determinadas drogas estão despenalizados, motivo pelo qual a direção da UE determinou sua incorporação para conseguir uma "partilha justa".

Com a inclusão, as economias dos integrantes crescerão, algumas delas, inclusive, em proporções superiores a três ou quatro unidades percentuais, o que deverá fazer com que esses países entreguem mais ao fundo comum.

As regulações para acrescentar o comércio e a produção de drogas aos PIBs correm a cargo do Sistema Europeu de Contas.

Para justificar o cálculo dos frutos do narcotráfico, essa entidade estabeleceu que as "ações econômicas ilegais serão consideradas como transações quando todas as partes envolvidas participem por acordo mútuo".

Também, esclareceu que a compra ou venda de drogas ilegais ou propriedades roubadas entram na classificação.

O Sistema Europeu de Contas cobre a prostituição sob a disposição "atividades ocultas cujas transações em si não vão contra a lei, mas não são reportadas para evadir a contabilidade oficial".

Não obstante, as linhas para o cálculo ainda são confusas, sobretudo quando se tratam de atividades difíceis de controlar.

De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Turquia, país aspirante à UE, o conjunto da economia ilegal (não só a prostituição e o comércio de drogas) representa quase 18% do PIB desse grupo continental.

Por sua vez, estimativas da Eurostat indicaram que com o novo regulamento o crescimento econômico médio do bloco será de 2,4%, com a faixa mais elevada para a Finlândia e Suécia, seguidas por Áustria, Reino Unido e Holanda.

Entre os países que confirmaram a inclusão também estão Espanha, Estônia, Eslovênia, Itália e Bélgica.

O Escritório para Estatísticas Nacionais do Reino Unido estimou recentemente que os lucros do tráfico de drogas e da prostituição nesse país sobem para 12 bilhões de euros anuais. Deles, seis bilhões correspondem ao negócio do sexo.

Segundo Raoul Ruparel, chefe de investigações econômicas do centro Open Europe, pelo momento esses países se alegram com o aumento de seus PIBs, mas o impacto será menos festejado quando afetar as quantias que devem contribuir ao orçamento europeu.

Por sua vez, o funcionário do Instituto de Relações Internacionais francês Eric Vernier apontou que o verdadeiro assunto depois da inserção das atividades ilegais é a queda da economia Europeia.

Acrescentar essas operações nas estatísticas de crescimento é uma tentativa cínica de combater a crise de dívidas da eurozona, afirmou.

No entanto, um porta-voz europeu respondeu que o PIB é um indicador econômico, não de moralidade.

Através de seu Instituto Nacional para Estudos Estatísticos e Econômicos, o governo francês indicou que não cumpriria integralmente a ordem da UE, pois considerava as atividades referidas fora da categoria de transações de acordo mútuo.

As prostitutas e os consumidores de drogas muitas vezes atuam forçadamente por terceiros ou por causa de um vício que requer tratamento médico, explicou o diretor da instituição francesa, Eric Dubois.

Não obstante, Paris incluirá em suas contas algumas estimativas do comércio de drogas ilegais.

Sobre a mesa fica uma questão que, ao que parece, não interessa muito aos contadores e autoridades da UE: a legitimação na economia dos lucros da prostituição e o comércio de drogas poderia trazer novas coberturas ou respaldo para essas atividades.

Outorgar-lhes status oficial nas contas equivale a aceitar de maneira tácita e praticamente irreversível o fracasso dos governos em combatê-las.

Fonte: Prensa Latina



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