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13 de setembro de 2014 - 6h57

Israel tenta emendar relações com América Latina após massacre em Gaza


Moara Crivelente
Manifestações em São Paulo reuniram milhares em solidariedade aos palestinos, condenando mais um episódio de agressão israelense. Manifestações em São Paulo reuniram milhares em solidariedade aos palestinos, condenando mais um episódio de agressão israelense.
A América Latina recebe hoje a maior parte da diáspora palestina fora do Mundo Árabe; apenas no Chile são 500.000 habitantes.

Ainda em 1973, Cuba foi o primeiro país latino-americano a cortar relações com Israel, em apoio à causa palestina. Em 2009, a Venezuela e a Bolívia também cortaram relações com o país devido à primeira de três ofensivas contra Gaza em cinco anos, que resultou em mais de 1.400 mortes entre os palestinos em cerca de 20 dias de bombardeios e devastação do território sitiado. A Nicarágua suspendeu laços quando, em 2010, um ataque israelense ao navio turco Mavi Marmara que levava ajuda humanitária a Gaza matou 10 pessoas.

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Já em 2014, ainda no mês de julho, poucos dias depois de anunciada a “operação Margem Protetora” contra a Faixa de Gaza e devido aos resultados da catástrofe acelerada e do massacre exponencial dos palestinos, Equador, Brasil, Peru, Chile e El Salvador também protestaram, retirando seus embaixadores de Israel – oficialmente, “chamando-os para consultas”, mas a medida é vista como protesto no âmbito internacional.

A Chancelaria brasileira só declarou após o cessar-fogo de 26 de agosto que reenviaria o embaixador Henrique Sardinha Pinto a Israel; o Chile ainda suspendeu as negociações de livre-comércio com Israel. Leia a seguir trechos das declarações dos governos latino-americanos em cada momento:

  Venezuela (15 de janeiro de 2009): No contexto da “operação Chumbo Fundido”, o país “decidiu cortar relações com o Estado de Israel devido à perseguição desumana do povo palestino”.

  Bolívia (15 de janeiro de 2009): “Considerando estes graves ataques contra a humanidade, a Bolívia deixará de ter relações diplomáticas com Israel”.

  Nicarágua (1º de junho de 2010): Após o ataque ao navio turco Mavi Marmara, que levava ajuda humanitária a Gaza, “A Nicarágua suspende a partir de hoje as relações diplomáticas com o governo de Israel” e “sublinha a natureza ilegal do ataque contra uma missão humanitária, uma clara violação do direito internacional humanitário”.

  Equador (18 de julho de 2014): No contexto da “operação Margem Protetora”, o “governo do Equador condena firmemente a incursão militar ao território palestino e exige o cessar imediato das operações militares israelenses e os ataques indiscriminados contra a população civil na Faixa de Gaza.”

  Brasil (23 de julho de 2014): “Condenamos firmemente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, que resultou em grandes números de mortes civis, inclusive de mulheres e crianças. O governo brasileiro reitera seu chamado a um imediato cessar-fogo entre as partes (...). Além disso, o embaixador do Brasil em Tel Aviv foi chamado a Brasília para consultas.”

  Peru (29 de julho de 2014): “O Peru acompanha os recentes eventos no Oriente Médio com extrema preocupação e lamenta profundamente a interrupção do cessar-fogo com as novas operações militares israelenses contra a Faixa de Gaza, que causaram perdas de vidas humanas totalizando mais de mil vítimas, muitas delas civis, mulheres e crianças (...). Dada a gravidade da situação (...), o Peru decidiu convocar o seu embaixador em Israel.”

  Chile (29 de julho de 2014): “O Chile nota com grave preocupação e pesar que essas operações militares, que neste ponto parecem ser uma punição coletiva da população civil palestina em Gaza, não respeitam normas fundamentais do direito internacional humanitário.”

  El Salvador (29 de julho de 2014): A chamada para consultas da embaixadora em Israel acontece “ante a grave escalada de violência e à realização de bombardeios indiscriminados provenientes de Israel contra a Faixa de Gaza, que já ocasionaram as mortes de meninos, meninas, mulheres e homens, assim como centenas de feridos e a fuga de milhares de civis palestinos de seus lares, além de graves danos materiais.”

A reação israelense foi indecorosa. Sobre o Brasil, o representante do Ministério das Relações Exteriores Yigal Palmor fez uma menção à derrota em campo na Copa do Mundo e disse que o país é um “anão diplomático”, uma ofensa própria de alguém desinformado sobre o posicionamento histórico do Brasil no cenário internacional e à sua ascensão acelerada enquanto importante ator político em diversas esferas, especialmente desde o primeiro governo Lula. Nesta quinta-feira (11), em visita ao Ministro das Relações Exteriores Luiz Alberto Figueiredo em Brasília, o embaixador Pinhas Avivi enviado por Israel para tentar a reaproximação disse à Agência Brasil que o fato de a sua chancelaria tê-lo incumbido desta missão “é a melhor resposta de que consideramos o Brasil um ator muito importante.”

Entretanto, quando 29 – inclusive todos os latino-americanos – dos 47 membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU, também em julho, decidiram compor uma comissão para investigar as denúncias de crimes de guerra durante a “operação Margem Protetora” – com apenas um voto negativo, o dos EUA, e a abstenção de 17 representantes, principalmente europeus – a reação foi do próprio chanceler, Avigdor Lieberman, que desclassificou o órgão taxando-o de “conselho de defesa dos terroristas”, e referiu-se à Venezuela e a Cuba, enquanto membros, para tentar deslegitimá-lo. Já durante esta semana, o porta-voz Palmor endossou as declarações do seu chanceler e disse que “Israel não pode esperar justiça.”

A preocupação das autoridades israelenses com suas “relações públicas”, apesar das gafes estrondosas, mas pontuais, é levada a sério. Equipes do Exército, da Chancelaria e do Escritório do Primeiro-Ministro são compostas justamente para construir argumentos, inclusive com base no direito internacional humanitário, que justifiquem a chacina cíclica dos palestinos em termos de “combate ao terrorismo”, “direito à autodefesa”, entre outros. Representantes diplomáticos são enviados a países específicos, para o “marketing” das suas posições, não apenas aliados confessos, como os Estados Unidos, onde Israel praticamente tem uma sede de governo, através do lobby exercido pelo Comitê Americano de Relações Públicas de Israel (Aipac).

A manifestação de condenação, por parte dos governos latino-americanos, foi impulsionada ou acompanhada por protestos massivos: milhares de pessoas saíram diversas vezes às ruas não só para prestar solidariedade aos palestinos, mas também para exigir o rompimento com Israel, principalmente de relações comerciais e de acordos militares. É o caso do acordo de livre-comércio do Mercosul – que inclui uma cláusula contra produtos provenientes das colônias ilegais em territórios palestinos – e as parcerias com a indústria bélica ou companhias do setor securitário israelense, que fazem parte do aparato da ocupação da Palestina.

Devido à reação dos governos latino-americanos e às medidas concretas dos países mencionados, durante os cinco últimos anos, Israel decidiu enviar Avivi ao Brasil, à Argentina, ao Peru e ao Chile, para visitas de reaproximação, durante esta semana. Em Brasília, Avivi disse que sua missão é “explicar” a ofensiva contra Gaza e os ataques que Israel alega lançar contra o Hamas – partido à frente do governo no estreito território sitiado, mas que é taxado de “organização terrorista” pelas autoridades israelenses – embora a maior parte das 2.145 vítimas fatais dos bombardeios do Exército sionista seja de civis, inclusive mais de 500 crianças.

*Moara Crivelente é cientista política, jornalista, membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) na assessoria da presidência do Conselho Mundial da Paz, e integrou a redação do Portal Vermelho


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