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2 de setembro de 2014 - 18h10

Colônias são o remédio da ocupação israelense à sua crise política


Reuters
Construções a todo vapor em Beitar Ilit, na rede de colônias Gush Etzion, próxima a Jerusalém, ocupando mais de 70 quilômetros quadrados da Cisjordânia palestina. Construções a todo vapor em Beitar Ilit, na rede de colônias Gush Etzion, próxima a Jerusalém, ocupando mais de 70 quilômetros quadrados da Cisjordânia palestina.
Em qualquer análise deve ser levada em consideração a situação política doméstica dos agressores e das “potências” que se dedicam à guerra. Em Israel, na terceira “operação militar” – esta terminologia estratégica de fundo político – contra a Faixa de Gaza em cinco anos, o primeiro-ministro não cumpriu sua promessa de “derrubar o Hamas”, o que foi avaliado como derrota, embora este termo específico esteja definitivamente ausente da mídia e do imaginário político no país. Isso resultou, por exemplo, no amplo rechaço a qualquer diálogo com os palestinos.

Em uma reunião do gabinete de segurança nesta segunda-feira (1º/9), a ministra da Justiça Tzipi Livni, promotora das negociações, teve uma discussão com o Ministro da Defesa Moshe Ya’alon, opositor agressivo da retirada israelense dos territórios palestinos, manipulando os recentes confrontos com a resistência aos seus bombardeios em Gaza – de onde Israel retirou tropas e colonos em 2005 – como suposto exemplo dos efeitos da “concessão” neste sentido.

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Apesar da tentativa israelense de manter as coisas como estão – especialmente o bloqueio a Gaza –, o cessar-fogo logrado na semana passada foi recebido como vitória pelos palestinos, não só os que sobreviveram aos massacres diários, ainda em luto por mais de 2.100 mortos em 53 dias dos bombardeios, mas também na Cisjordânia. A vitória, por sua vez, não foi só humanitária, mas também política, pois levou o governo israelense a admitir, mesmo indiretamente, o papel da resistência, ainda que continue desclassificando-a como “terrorista”.

Os esforços das equipes jurídicas e de relações públicas do Exército, do Ministério da Defesa e da Chancelaria de Israel não conseguiram omitir o caráter cíclico das ofensivas, parte da política abrangente de ocupação da Palestina e da história de massacres e despojo. Enquanto bombardeava Gaza, Israel mantinha outra “operação” contra a Cisjordânia, desde junho, com 32 mortes entre os palestinos, 1.753 pessoas detidas e 50 casas e outras estruturas demolidas, de acordo com relatórios recentes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Ainda, a tomada de terras para a expansão das colônias ilegais voltou a ser imposta pelo regime israelense.

No domingo, a desapropriação de 400 hectares palestinos entre Jerusalém e Belém apresentou-se como mais um instrumento político em um governo forrado por representantes de colonos. Esta foi a maior tomada de terras em 30 anos, de acordo com um documento divulgado nesta segunda-feira pela OLP, e inclui ao menos cinco vilas palestinas. O propósito é a construção de mais casas na colônia de Gvaot, estabelecida em 1984 como uma base militar, dentro de uma rede de colônias, Gush Etzion. Gvaot receberá assim o estatuto de “cidade”.

A OLP reafirma uma denúncia anterior: o plano é ligar as colônias ilegais à Linha Verde – a suposta e já violada fronteira entre Israel e Palestina, segundo o acordo de Armistício de 1949 – para facilitar a anexação dos territórios palestinos. Gush Etzion toma terras dos distritos de Belém e Hebron, ocupando mais de 72 quilômetros quadrados, com ao menos 60 mil colonos apenas nas duas maiores entre mais de 15 colônias, uma população que cresceu exponencialmente desde os Acordos de Oslo, assinados no início da década de 1990, o que demonstra claramente a posição do regime de Israel com relação à diplomacia. Uma das figuras políticas que habitam Etzion é o chanceler de Israel, Avigdor Lieberman, residente da colônia de Tekoa, a leste de Belém.

Mais colônias: remédios da ocupação para a crise política

Netanyahu foi primeiro-ministro também entre 1996 e 1999, após destacar-se com discursos que incitavam os descontentes com a decisão do primeiro-ministro Yitzak Rabin de assinar os Acordos de Oslo, o que resultou no assassinato de Rabin por um extremista judeu, ainda em 1994. Netanyahu promoveu-se, enquanto premiê, como o que mais construiu colônias em terras palestinas. Foi esta a mesma posição mantida pelo ex-capitão do Exército – que participou na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e várias ofensivas da “Guerra de Atrito” subsequente – durante os nove meses de negociações inócuas com a OLP, findas em abril deste ano.

Há um mês, Netanyahu, já durante a ofensiva contra Gaza, tinha mais de 80% de aprovação. Em 26 de agosto, último dia da “operação”, que o premiê garantira manter “até que Israel se sentisse seguro”, menos de 40% dos israelenses opinaram favoravelmente sobre o seu desempenho – embora no início do mesmo mês cerca de 90% o apoiassem inclusive na expansão da ofensiva. Em 22 de agosto, segundo o jornal israelense Haaretz, Netanyahu tinha 55% de aprovação. Antes, em 17 de julho, quando as tropas de Israel invadiram Gaza por terra e a “Margem Protetora” (em hebraico, o nome é “Penhasco Poderoso”) já tinha quase 10 dias, mais de 80% apoiavam o governo.

Um ciclo entre a política, a guerra e a sua propaganda midiática é outra constante avaliada para a compreensão do jogo por trás da violência e sua legitimação. Isso é notável no caso israelense. As leituras de opinião acima podem parecer esquizofrênicas; a desestabilização do governo de Netanyahu é frequente, principalmente pelas disputas internas do seu gabinete amorfo – incluindo defensores do fim do conflito com os palestinos, mas também, e principalmente, promotores da ocupação e anexação do que restou da Palestina.

Atualmente, a cacofonia de análises e posições sobre o fim da “operação Margem Protetora” atinge a esperada retomada das negociações para a adoção de um acordo abrangente após o cessar-fogo de 26 de agosto. Questões abrangentes como o fim do bloqueio a Gaza e vários outros pontos deveriam ser discutidos, mas o fato de Netanyahu ter decidido suspender a ofensiva sem consultar seu gabinete e de o acordo provisório ter sido apresentado pela mídia enquanto “demasiadas concessões aos palestinos” chacoalharam sua base. Mais uma vez, a resposta à crise política é a expansão da ocupação, enquanto o mundo ainda pressiona por reações aos vastos crimes de guerra perpetrados por Israel, nos últimos meses e na história da opressão palestina.

*Moara Crivelente é cientista política e jornalista, integra o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) assessorando a presidência do Conselho Mundial da Paz e fez parte da redação do Portal Vermelho.


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