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18 de julho de 2014 - 17h10

Propaganda de guerra sustenta o massacre dos palestinos por Israel


Mohammed Abed / AFP/ Getty Images
Família lamenta a destruição de sua casa na Faixa de Gaza após um bombardeio aéreo de Israel, nesta quinta. Família lamenta a destruição de sua casa na Faixa de Gaza após um bombardeio aéreo de Israel, nesta quinta.
A máquina israelense de propaganda permitiu às autoridades por trás dos repetidos massacres continuarem impunes. Além disso, a aliança com os Estados Unidos continua assombrando aqueles que esperam do mundo a responsabilização das autoridades israelenses por trás dos crimes de guerra cometidos sistematicamente contra os palestinos. As repetidas ofensivas são "justificadas" por termos como a "autodefesa" de Israel que protege "civis inocentes" contra "atos terroristas".

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No caso da Faixa de Gaza, a população diz ver-se como “brinquedo” ou “cobaia” em que o poderoso exército de Israel testa novos armamentos, produzidos em casa, com expressiva parceria estadunidense. Esta sensação foi partilhada inclusive por soldados israelenses que deram testemunhos, através da organização Breaking the Silence (“Quebrando o Silêncio”, em referência ao código imposto pelo exército), sobre a última grande operação, Chumbo Fundido, que matou mais de 1.400 palestinos em 22 dias de bombardeios e duas semanas de ofensiva terrestre, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.

Eles afirmaram ainda não terem sido informados sobre os objetivos da ofensiva, mas as imagens dos “bravos soldados” que arriscaram as vidas para “salvar civis israelenses inocentes” fazia parte das propagandas nas páginas oficiais do Ministério das Relações Exteriores de Israel e do próprio exército. A jogada de marketing repete-se para a atual ofensiva, que já causou cerca de 270 mortes em 11 dias, majoritariamente entre civis.

Além disso, a cobertura militarista de grande parte da mídia permite exposições como uma matéria publicada nesta quinta pelo jornal Haaretz, que exalta o sistema antimíssil de Israel “Iron Dome” (Cúpula de Ferro, construído em conjunto com os EUA) enquanto a grande estrela do momento, com a interceptação 80% eficaz dos foguetes lançados pela resistência palestina. O Haaretz, entretanto, é possivelmente o jornal comercial menos virulento na sua cobertura da situação palestina, com artigos frequentes de crítica incisiva contra a ocupação e a política israelense de opressão dos palestinos.

O vídeo a seguir, que capta imagens do instante da invasão terrestre à Faixa de Gaza, nesta quinta-feira (17), foi divulgado na página oficial das “Forças de Defesa de Israel” (FDI). O discurso do comandante, em hebraico e legendado apenas em inglês, foi: “Estamos entrando em uma operação contra o Hamas, para devolver a paz aos cidadãos israelenses. A sua nação apoia vocês e os terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina estão adiante. Confio em vocês e acredito nas suas capacidades. Vão em frente, boa sorte. Termino e desligo.”


Além disso, os perfis nas redes sociais e as páginas oficiais tanto da Chancelaria de Israel quanto das FDI estão repletos de imagens e gráficos simplistas, mais modernos do que os elaborados durante a operação Chumbo Fundido, em que empregam o direito internacional para transferir ao Hamas a culpa pelo elevado número de mortos entre os civis. A principal acusação é a de que as brigadas palestinas classificadas apenas de “terroristas” – um esforço para deslegitimar a resistência e a autodefesa e para desumanizar os palestinos – usam os civis como “escudos humanos”. Já os civis, alegadamente responsáveis por sua própria morte, são avisados através de panfletos lançados por aviões ou anúncios de rádio que suas casas serão bombardeadas.

Em 2009, um relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas já havia concluído, após uma missão de investigação no terreno, que não havia evidências que sustentassem essas alegações: a responsabilidade pela destruição massiva da infraestrutura básica de Gaza e das mortes de civis continua sendo israelense. Ainda assim, a Faixa de Gaza está entre os territórios mais densamente habitados do mundo (são 1,7 milhão de palestinos em 360 quilômetros quadrados).

Desumanizar e massacrar


O aparato que sustenta a ofensiva israelense também conta com um significativo respaldo da mídia internacional e nacional. No primeiro, para investir nas respostas às críticas ainda insuficientes recebidas de líderes, movimentos sociais e representantes da ONU e continuar garantindo o apoio criminoso de potências como os EUA. Tem funcionado, o presidente Barack Obama, que venceu um prêmio Nobel da Paz em 2009, disse apoiar a ofensiva israelense, pedindo apenas “precisão”, ignorando a devastação da Faixa de Gaza e as inúmeras vítimas civis.

No segundo caso, a ofensiva é enquadrada novamente na disputa política interna a Israel. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já enfrentou dificuldades para forjar uma coalizão de governo no início de 2013 e é ele próprio uma voz agressiva recorrente na história trágica dos diálogos com os palestinos, no contexto de um fajuto “processo de paz”, que só serviu para garantir a expansão da ocupação israelense sobre a Palestina.

Há quem o responsabilize pela incitação sustentada contra o ex-premiê Yitzak Rabin quando ele resolveu assinar uma série de acordos com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), a partir de 1993. Rabin acabou assassinado por um extremista judeu no ano seguinte e Netanyahu tornou-se premiê pela primeira vez em 1996, esforçando-se para garantir um recorde na construção de colônias ilegais em território palestino.

Mesmo assim, o governo israelense e o seu exército investem na promoção de uma imagem nacionalista e moralista, em casa e no exterior, apropriando-se até mesmo do direito internacional humanitário, manipulando princípios e forjando discursos reproduzidos de forma acrítica pela mídia nacional e internacional, embora vozes dissonantes sejam frequentemente veiculadas, não sem consequências para os autores.

A desumanização dos palestinos ocorre por meio de diversas ferramentas discursivas e, a cada ofensiva criticada por promotores dos direitos humanos, novos argumentos são construídos sistematicamente para as próximas agressões. Israel faz a sua lição de casa na matéria, mantém grande parte da sua população imersa no ódio incitado contra os palestinos e os aliados estrangeiros dominados. Aqueles israelenses que se contrapõem - e são muitos - acabam ignorados ou rechaçados enquanto "judeus que se odeiam".

Assim as ofensivas e massacres repetem-se sistematicamente, os autores de crimes de guerra variados continuam impunes e relatórios como o de 2009, que pontua diversas evidências neste sentido em mais de 500 páginas de conclusões, ficam engavetados.



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