Francis Paula Corrêa Duarte: Da leitura de mundo à consciência humana

Por Francis Paula Corrêa Duarte*, para o Vermelho ter a consciência de que o processo de leitura e escrita é contínuo e que, diariamente, nos apropriamos e desenvolvemos saberes diversos: seja numa sala de aula ou numa “leitura de mundo”, mas e aquele que se torna um alijado de tais processos? E aqueles que nunca lhes foi dado ou não tem consciência de tal direito?

Por Francis Paula Corrêa Duarte*, para o Vermelho

Livros - Reprodução

Autoras como Di Pierro e Galvão veem o cidadão sem o domínio da leitura e da escrita como um ser abstrato, alienado e amorfo, porém se esquecem de suas experiências de vida, saberes pessoais e que antes mesmo do processo de aquisição da leitura e escrita, são excluídos por questões sociais, familiares e tornam-se “cegas” por um sistema que oprime e domina.

A leitura não deve ser restrita a um mero decifrar das letras e da escrita, uma vez que o processo de aprendizagem é uníssono a uma formação global e que envolve um convívio e uma atuação social, política e cultural, principalmente.

A inserção no universo letrado mostrou-se ao longo da história como desigual e, muitas vezes, como algo impositivo ou obrigatório e que a partir da educação como um direito, ler faz-se reconhecer o ser como humano e detentor do direito de crítica e reflexão.

Ao longo dos séculos, compreendeu-se que ler e escrever significaria o depreender de bases adequadas para a vida e que o processo de educação não eram apenas aptidões meramente intelectuais, mas sim uma integração de elementos que permitiriam ao homem sentir-se parte integrante da sociedade, inserido efetivamente.

O processo de aquisição da leitura e da escrita, sob essa júdice, desenvolveu-se como essencial na formação das pessoas, mas, por vezes, muito se subestimou a construção de uma postura atenta e crítica em relação às ideias e informações que se obtém por meio dos textos, ou seja, muitos leem, mas raramente o fazem por prazer, valorizam a leitura apenas como apresentação de meras informações e não para crescimento pessoal.

As pessoas que não conseguem concernir ideias e atitudes coerentes com que estão engajadas mostram-se como objetivos de consumo, alienadas, incapazes de concepções críticas da realidade, deixam-se levar pela mídia que busca produzir meros consumidores, sejam de produtos ou informações alienantes.

Ler permite o envolvimento com ideias ou acontecimentos em uma sequência por nós mesmos determinados e o seu aprendizado mostra-se como uma atividade que deve ser vista como significativa e dirigida por objetivos críticos. Assim, torna-se uma possibilidade para dar vez ao cidadão e, para isso é preciso prepará-lo para tornar-se o sujeito no ato de ler, como afirma Paulo Freire: O livro deve levar a uma leitura e interpretação da vida que ajuda o indivíduo na transformação de si mesmo e do mundo. (Freire, Paulo, 2001 p.85)


No pensamento proposto por Freire, a leitura não se descreve como um processo memorizador, mecânico, em que a mera repetição das palavras, ausente de compreensão de seu sentido, da realidade, se concretiza, mas a leitura exige reflexão, diálogo, participação coletiva no sentido de buscar a conhecer a realidade e criar possibilidades de transformá-la.

A leitura nesse olhar, se projeta como um processo dialético, em que estão envolvidos educador e educando construindo momentos de reflexão sobre a realidade, de modo que no momento que se efetiva a possibilidade de educar o adulto, esse processo de aquisição da leitura deve ter o olhar político e social que ele requer, e nessa perspectiva:

(…) enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo de alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar de ajuda do educador, como ocorre em qualquer situação de relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem.( FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. Em Três Artigos que se Completam. São Paulo. Cortez, p.19.)
 

A construção da leitura da palavra antecedida pela leitura do mundo permite ao homem transformar sua consciência, de acordo com o quadro descrito em sua realidade, e assim requer uma pesquisa de universo vocabular no sentido de conjuntamente, promover um ensino, de acordo com a realidade que se vivencia.

O ato de ler mostra-se como uma interpretação, em que a necessidade de compreensão e aprendizado se projeta por meio de inúmeras variações que leva o sujeito a dar significado pessoal e interpretar a realidade de acordo com o seu conhecimento. Pensa-se que o êxito da leitura dependerá do modo como o leitor e a produção escrita é realizada, e assim construir o significado da leitura de acordo com o texto descrito expresso num olhar sobre a realidade.

Dessa forma, o que se almeja alcançar com uma leitura crítica é a formação de um leitor que seja capaz de ultrapassar os limites pontuais de um texto e incorporá-lo reflexivamente no seu universo de conhecimento de forma a levá-lo a melhor compreender seu mundo e seu semelhante. Ou seja, não é uma tarefa de juntar uma palavra à outra, ao contrário, deve ser algo que contribua para a inserção do indivíduo na sociedade, fazendo do mesmo um ser crítico capaz de tentar transformar a realidade em que vive, como ressalta a autora Maria Helena Martins:

… O ato de ler permite a descoberta de características comuns e diferenças entre os indivíduos, grupos sociais, as várias culturas, incentiva tanto a fantasia como a consciência da realidade objetiva, proporcionando elementos para uma postura críticas, apontando alternativas (MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo, Brasiliense, 1994. p. 29).

Em um mundo de signos, ler é condição primordial para uma participação efetiva na sociedade, já que a leitura propõe as bases para as aprendizagens múltiplas e a escola, centro das atividades do conhecimento, torna-se um dos instrumentos de poder e de transformação na sociedade. O ato de ler traz em si uma complexidade tal qual sua amplitude, na medida em que a leitura é concebida como um ato de desvendar, ou seja, ir além dos códigos linguísticos, saber fatos que nos rodeiam, ou seja, ler o mundo.

Notas da autora: GALVÃO, Ana Maria de Oliveira; DI PIERRO, Maria Clara. Preconceito contra o analfabeto. Editora Cortez, SP. 2007.

* Mestrada da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pós-graduada (Especialização) em Saberes e Práticas da Básica em Educação de Jovens e Adultos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (2013)