Mídia

19 de setembro de 2013 - 7h07

"Estamos mexendo com o poder central", afirma Julian Assange




Público de 700 pessoas lotou o auditório do Centro Cultural Vergueiro

O ciberativista foi a atração principal do Seminário Liberdade, Privacidade e o Futuro da Internet, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e Boitempo Editorial, com apoio da Agência Pública, na noite de quarta-feira (18). A atividade, que começou às 14 horas e teve três mesas de debate no total, também foi transmitida pela internet pelo site do Centro Cultural.

Assange também comentou as denúncias de espionagem trazidas à tona por Eduard Snowden, ex-analista de inteligência da agência de segurança americana, a NSA, que vazou documentos que comprovam que o governo brasileiro e a Petrobras foram alvos dos arapongas estadunidenses.

“A presidenta Dilma tinha mesmo que cancelar essa reunião com os Estados Unidos. Inicialmente, ela preferiu não cancelar. Mas, depois, ela olhou para o povo brasileiro e viu que se não tomasse essa atitude de cancelar poderia enfraquecer seu governo e o povo porque esse tipo de situação cria um mercado político. Decisões simbólicas [como essa] são importantes para proteger as pessoas. E Dilma, enquanto presidenta, tem a obrigação de proteger o povo brasileiro”, disse Assange, que emendou: “Eu que sou um editor australiano e fui alvo dos Estados Unidos e fiz algo fora dos Estados Unidos e fui alvo por isso. Então devemos nos perguntar: e vocês que estão aí me assistindo, também podem ser alvo dos EUA? Os Estados Unidos estão assumindo o controle e vocês, brasileiros, estão sendo invadidos por uma jurisdição, uma jurisdição que está fazendo valer a sua lei no estrangeiro".

Para Julian Assange, o mundo ocidental vive um colapso do Estado de Direito com a vigilância e espionagem. De acordo com o jornalista australiano, o presidente Barack Obama tem se mostrado o presidente daquele país que mais se apoiou na lei de espionagem para perseguir e denunciar profissionais da imprensa e quem mais contrariar os interesses imperialistas: "Obama perseguiu mais denunciantes sob essa lei da espionagem do que o dobro da soma dos outros presidentes. Isso não é apenas uma alteração do comportamento da vigilância sobre jornalistas, e sobre outras pessoas. Não se trata só disso. A administração de Barack Obama está se tornando uma força perigosa no Ocidente e demonstrando que o colapso está atingindo princípios básicos”.

Sobre quais as perspectivas ele tem para o futuro, diante do fato de estar asilado na embaixada do Equador em Londres, Assange simplesmente disse: “Em relação à minha própria situação não é algo que tenho pensado muito nesses últimos meses. Vamos dizer que se encontre uma solução, em que mundo eu vou entrar quando sair daqui? Em um mundo que está se direcionando para uma distopia, vou entrar em um mundo agressivo contra o Wikileaks, contra meus amigos. E, diante disso, há algo mais importante do que a liberdade de Julian Assange. É muito difícil ficar 500 dias numa embaixada, mas é um luxo, ao contrário de vocês que estão aí, eu não posso ser preso. É o lugar mais seguro do mundo para Julian Assange”, disse.

Perguntado sobre o que nós podemos fazer enquanto sociedade civil organizada, ele disse que em primeiro lugar é preciso entender o que está acontecendo exatamente e de que forma essas ações de vigilância na internet podem impactar nossas vidas. Para o ativista, plataformas como Gmail e Facebook são extremamente inseguras e que é preciso criar alternativas como sites próprios brasileiros. "Eu entendo o que é o Facebook, o Google e o que essas instituições fazem por nós. Mas se vou fazer parte de um grupo ativista, se vou ser jornalista, preciso tomar as precauções necessárias", aconselhou o autor do livro Cypherpunks, lançado recentemente no Brasil pela Boitempo, que conta e reflete a batalha em defesa da liberdade no ciberespaço.

Vigilância e privacidade na rede




Como garantir a privacidade em um cenário de vigilância e quais os impactos para a cultura digital? Esse foi o tema da segunda mesa de debate do evento, que contou com a presença de especialistas como Silvio Rhatto, pesquisador independente de tecnologias digitais de armazenamento e transmissão segura de dados, que alertou que, quando se trata de espionagem, os sistemas de comunicação são inevitavelmente inseguros tendo em vista a lógica dos arapongas é grampear tudo e todos. O ativista da privacidade e da comunicação segura explicou que atualmente mais do que proteger os dados, é preciso proteger os meta-dados, que são os dados de quem está circulando a informação. “Os meta-dados são o envelope da informação [onde tem o nome e endereço da correspondência de quem e para onde]. Com essas informações outras tantas estão sendo criadas por empresas na construção do que chamamos de gráfico social ou gráfico de rede. Atualmente, existem aplicações de controle social muito sofisticadas, com finalidades de polícia”, disse.

Para proteger as informações e meta-dados existem ferramentas que já são utilizadas como o Tor Project, um software que permite navegar de forma anônima a partir da criptografia, escondendo seu endereço de IP (identificação do seu computador) e do servidor que você está acessando. Desenvolvido pela Marinha norte-americana na década de 1970, atualmente é sustentado pela ONG Tor Project e apoiado por entidades como a Electronic Frontier Foundation (EFF) e Human Rights Watch, e por empresas como o Google.

No entanto, até mesmo o Tor está sendo alvo de suspeitas por ter sido criado pela Marinha norte-americana e por outro problema maior: os backdoors, que são uma espécie de porta dos fundos criada por softwares e hardwares que deixam um caminho de invasão, sem despertar suspeitas do usuário. “As revelações do Snowden demonstram que esses backdoors podem estar inseridos nos equipamentos que compramos. Os backdoors podem estar em softwares, hardwares e até nos protocolos”, revelou.

Também participaram da mesa Marta Kanashiro (pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo [Labjor] e professora plena do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor) e Gisele Beiguelman (professora da FAU-USP, midiartista e curadora, pesquisadora na área de História da Arte sobre usos críticos de mídias e editora da revista Select). Ao final, o público foi convidado a debater o tema com os especialistas.

Pela porta dos fundos

O professor Sergio Amadeu, da Universidade Federal do ABC, e pesquisador das relações entre comunicação e tecnologia, práticas colaborativas na internet e a teoria da propriedade dos bens imateriais, que participou da mesa anterior, sobre arquitetura e governança na internet, também fez um alerta para os backdoors e para os contratos que ‘assinamos’ com empresas como a Microsoft, sem tomar conhecimento do que estamos autorizando fazer com nossos dados. “A Microsoft pode passar as nossas informações para seus clientes porque nós os autorizamos. E quem são esses clientes?”, indagou Sergio Amadeu.

Como solução, tanto Sergio, que também integra o Comitê Gestor da Internet no Brasil, quanto os demais que integraram as mesas de debate, defenderam a adoção de softwares livres, principalmente pelo governo brasileiro. Já para garantir a liberdade de expressão na rede, Amadeu lembrou que tramita na Câmara o Projeto de Lei que institui o Marco Civil da Internet. “Eu sou a favor do Marco Civil da Internet que garante a neutralidade e a liberdade de expressão. Agora, estão querendo alterar o texto em benefício de empresas de telecomunicação. E se isso ocorrer, eu vou ser contra o Marco Civil. Por isso temos que defender o texto original do Marco Civil”, afirmou Sergio Amadeu.

Deborah Moreira
Da Redação do Vermelho

(matéria atualizada às 11h50 em 19/9/13)




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