Cultura

20 de julho de 2012 - 21h20

Vladmir Maiakvski: A plenos pulmes


Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merca fssil
de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim. Ora,
comear
vosso homem de cincia,
afogando os porqus
num banho de sabena,
conta-se
que outrora
um frvido cantor
a gua sem fervura
combateu com fervor. (1)
Professor,
jogue fora
as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu — incinerador,
eu — sanitarista,
a revoluo
me convoca e me alista.
Troco pelo "front"
a horticultura airosa
da poesia —
fmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
vargem
sombra
alfrombra.
" assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim".
Este verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, —
bonifrates encapelados,
descabelados vates —
entend-los,
ao diabo!,
quem h-de...
Quarentena intil contra eles —
mandolinam por detrs das paredes:
"Ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
se de tais rosas
minha esttua se erigisse:
na praa
escarra a tuberculose;
putas e rufies
numa ronda de sfilis.
Tambm a mim
a propaganda
cansa,
to fcil
alinhavar
romanas, —
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o custico caudilho,
o extintor
dos melfluos enxurros:
por cima
dos opsculos lricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vs,
Comuna distante,
no como Iessinin,
guitarriarcaico.
Mas atravs
dos sculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegar,
no como a seta
lrico-amvel,
que persegue a caa.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrpitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpvel,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No tmulo dos livros,
versos como ossos,
Se estas estrofes de ao
Acaso descobrirdes,
vs as respeitareis,
como quem v destroos
de um arsenal antigo,
mas terrvel.
Ao ouvido
no diz
blandcias
minha voz;
lbulos de donzelas
de cachos e bandos
no fao enrubescer
com lascivos ronds.
Desdobro minhas pginas
— tropas em parada,
E passo em revista
o "front" das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
Prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhes,
rgida coorte,
apontando
as maisculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eria
suas lanas agudas.
E todo
este exrcito aguerrido,
vinte anos de combates,
no batido,
eu vos do,
proletrios do planeta,
cada folha
at a ltima letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
tambm
meu inimigo figadal.
Anos
de servido e de misria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Ns abramos Marx
volume aps volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.
Dialtica, no aprendemos com Hegel. Invadiu-nos os versos
Ao fragor das batalhas,
Quando,
sob o nosso projtil,
debandava o burgus
que antes nos debandara.
Que essa viva desolada,
— glria —
se arraste
aps os gnios,
merencria.
Morre,
meu verso,
como um soldado
annimo
na lufada do assalto.
Cuspo
Sobre o bronze pesadssimo,
cuspo
sobre o mrmore, viscoso.
Partilhemos a glria, —
entre ns todos, —
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
Varejai vossos lxicos:
do Letes
brotam letras como lixo —
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrcio".
Por vs, gerao de saudveis, —
um poeta,
com a lngua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tsis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
fossilcoleante.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo qinqnio afora. (2)
Os versos
para mim
no deram rublos,
nem moblias
de madeiras caras.
Uma camisa
Lavada e clara,
e basta, —
para mim tudo.
Ao
Comit Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsrios,
apresento
em lugar
do registro partidrio
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.


Notas

1 — Maiakvski escreveu versos de propaganda sanitria.
2 — Aluso aos Planos Qinqenais soviticos.
(Provavelmente, como no tenho controle da pgina do jornal na internet, o poema vai perder a forma na qual foi escrito. Espero que, pelo menos, ao se ter preservado o contedo, o leitor se contente com a poesia de Maiakvski, com um de seus poemas mais conhecidos. A traduo de Haroldo de Campos. Onde est "saudves", pus saudveis. E. Carrera Guerra usa, na sua verso, "geis e robustos".)


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